Alimentação Ideal para Cadelas Lactantes: Guia Completo
“O primeiro alimento que a mãe oferece ao filhote é o próprio leite. Cuidar da nutrição da cadela lactante é garantir que esse leite seja abundante, de qualidade e que a mãe tenha energia suficiente para cuidar da ninhada.”
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1. Introdução
A chegada de uma ninhada é um momento de grande emoção e responsabilidade para qualquer tutor. Quando a cadela está em fase de lactação, suas necessidades fisiológicas mudam drasticamente: o organismo passa a produzir grandes quantidades de leite, o que demanda energia, proteínas, vitaminas e minerais em níveis muito superiores aos de um cão adulto saudável.
Entender como funciona a nutrição da cadela lactante é essencial não apenas para garantir a saúde da mãe, mas também para proporcionar aos filhotes um leite rico em nutrientes, que favoreça o desenvolvimento adequado dos sistemas imunológico, digestivo e neurológico. Estudos veterinários mostram que a desnutrição materna pode levar a baixa produção de leite, filhotes subnutridos, aumento da mortalidade neonatal e até complicações de saúde para a própria mãe, como mastite ou desequilíbrios metabólicos.
Neste guia, vamos abordar, de forma clara e empática, todos os aspectos que o tutor brasileiro deve observar: desde as características fisiológicas da lactação, passando pelos cuidados essenciais, a escolha da alimentação mais adequada, até estratégias de prevenção de doenças e dicas práticas para o dia a dia. Nosso objetivo é oferecer informações baseadas em evidências científicas, mas apresentadas de maneira acessível, para que qualquer pessoa – mesmo sem formação veterinária – possa aplicar as recomendações e garantir o bem‑estar da sua companheira e dos filhotes.
Prepare‑se para descobrir como montar uma dieta balanceada, identificar sinais de alerta, adaptar a rotina de exercícios e fortalecer o vínculo entre tutor e cadela durante este período tão especial.
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2. Características Principais
2.1. Aumento da demanda calórica
Durante a lactação, a cadela pode precisar de 2 a 3 vezes mais energia do que um adulto em manutenção. Esse aumento se deve à produção de leite, que contém aproximadamente 60 kcal por 100 ml. Uma cadela que amamenta quatro filhotes pode produzir entre 600 ml a 1 litro de leite por dia, o que significa um gasto energético significativo.
2.2. Necessidade ampliada de proteínas
As proteínas são os blocos de construção do leite, especialmente da caseína, que fornece aminoácidos essenciais para o crescimento dos filhotes. A recomendação veterinária é que a dieta contenha 30 % a 35 % de proteína de alta qualidade (ex.: carne bovina magra, frango, peixe, ovos). A qualidade da proteína é tão importante quanto a quantidade; fontes com perfil de aminoácidos balanceado evitam deficiências que poderiam comprometer a produção de leite.
2.3. Micronutrientes críticos
- Cálcio e fósforo: essenciais para a formação de ossos e para a contração muscular da mama. A proporção ideal Ca:P deve ficar entre 1,2:1 e 1,4:1.
- Vitamina D: ajuda na absorção de cálcio. Deficiência pode causar hipocalcemia (tetania).
- Vitamina E e selênio: antioxidantes que protegem as membranas celulares da mama e reduzem o risco de mastite.
- Ácidos graxos ômega‑3 (EPA/DHA): favorecem a qualidade do leite, melhorando o desenvolvimento cerebral dos filhotes.
2.4. Alterações hormonais
A prolactina, hormônio responsável pela produção de leite, aumenta drasticamente nas primeiras 24‑48 h pós‑parto. Simultaneamente, a oxitocina estimula a ejeção do leite durante a sucção. Esses hormônios também influenciam o apetite, fazendo com que a cadela sinta maior fome.
2.5. Comportamento alimentar
É comum que a cadela lactante apresente comportamento de “fome constante”, consumindo pequenas porções ao longo do dia. Oferecer refeições divididas em 3 a 4 vezes ao dia ajuda a manter níveis estáveis de glicose e evita sobrecarga gastrointestinal.
2.6. Peso corporal
Apesar do aumento de ingestão, a cadela pode perder peso se a dieta não for suficiente, pois o corpo utiliza as reservas corporais para suprir a produção de leite. O ideal é monitorar o peso semanalmente, buscando uma leve estabilização ou ganho de 0,5 kg a 1 kg por semana, dependendo da quantidade de filhotes.
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3. Cuidados Essenciais
3.1. Avaliação veterinária precoce
A primeira visita ao veterinário deve ocorrer até 48 h após o parto. O profissional avaliará:
- Condição corporal da mãe (escala de condição corporal – BCS).
- Estado das glândulas mamárias (presença de inchaço, secreção, dor).
- Sinais de infecção (mastite) ou de retenção de placenta.
3.2. Hidratação adequada
A produção de leite depende de água. Cada 100 ml de leite produzido requer cerca de 150 ml de água. Ofereça água fresca em abundância, de preferência em vários pontos da casa, para que a cadela possa beber a qualquer momento. Em climas quentes, pode ser útil colocar um bebedouro com gelo ou água levemente fresca.
3.3. Controle de parasitas
Parasitas internos (vermes) e externos (pulgas, carrapatos) podem drenar energia e interferir na absorção de nutrientes. Realize vermifugação preventiva de acordo com o calendário do veterinário, preferencialmente antes da gestação e após o parto com medicamentos seguros para lactantes.
3.4. Ambiente calmo e livre de estresse
O estresse eleva os níveis de cortisol, que pode reduzir a produção de leite. Crie um ninho confortável, com caminha macia, temperatura amena (22 °C a 26 °C) e pouca circulação de ar frio. Limite visitas de pessoas estranhas nos primeiros dias e mantenha a cadela em um local tranquilo.
3.5. Higiene das mamas
Limpe suavemente as glândulas mamárias com algodão umedecido em solução salina após as mamadas, especialmente se houver secreção. Isso previne infecções e facilita a inspeção diária para identificar sinais de mastite (vermelhidão, calor, dor).
3.6. Suplementação responsável
A suplementação deve ser prescrita pelo veterinário. Em geral, a maioria das rações de alta qualidade já contém os minerais e vitaminas necessários. No caso de deficiência de cálcio ou vitamina D, o profissional pode indicar suplementos específicos, mas o uso indiscriminado pode causar hipercalcemia e problemas renais.
3.7. Monitoramento do ganho de peso dos filhotes
Embora o foco seja a mãe, observar o peso dos filhotes (pesagem a cada 3‑4 dias) indica se o leite está sendo suficiente. Filhotes que não ganham pelo menos 10 g por dia nas primeiras duas semanas podem estar subnutridos, indicando necessidade de ajuste na alimentação materna ou suplementação de leite artificial.
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4. Alimentação e Nutrição
4.1. Escolha da ração
- Ração comercial premium (nível “super premium” ou “ultra premium”) costuma conter 30 % a 40 % de proteína de origem animal, 18 % a 22 % de gordura e níveis adequados de minerais.
- Prefira fórmulas específicas para gestantes e lactantes, pois já apresentam o balanço Ca:P correto e são enriquecidas com DHA e antioxidantes.
- Se a cadela já estiver acostumada a uma ração de qualidade, basta aumentar a quantidade (aprox. 30 % a 50 % a mais que a dose de manutenção).
4.2. Quantidade diária recomendada
A regra prática é aproximadamente 3 % do peso corporal em kcal para cães em lactação, mas isso varia com o número de filhotes. Uma estimativa simples:
Número de filhotes |
-------------------- |
1‑2 |
3‑4 |
5‑6 |
7‑8 |
Essas calorias podem ser distribuídas em 3 a 4 refeições ao longo do dia, sempre mantendo água fresca à disposição.
4.3. Complementos caseiros (quando recomendados)
- Carne magra cozida (frango, peru, carne bovina) – fonte de proteína de alta digestibilidade.
- Arroz integral ou batata-doce – fornecem carboidratos de liberação lenta, ajudando a manter energia constante.
- Ovos cozidos – ricos em proteína, vitaminas do complexo B e colina.
- Iogurte natural sem açúcar – fornece probióticos que ajudam a manter a flora intestinal saudável.
4.4. Suplementos de ácidos graxos ômega‑3
A inclusão de óleo de peixe (salmão ou sardinha) ou cápsulas de EPA/DHA pode melhorar a qualidade do leite e reduzir inflamações mamárias. A dose típica recomendada por veterinário é 20‑30 mg de EPA/DHA por kg de peso corporal ao dia.
4.5. Estratégias de alimentação durante a noite
Durante a madrugada, a cadela pode precisar de energia para continuar a produção de leite. Deixe um prato de ração úmida ou crocante próximo ao ninho, permitindo que a mãe se alimente sem precisar ser acordada. A ração úmida tem maior teor de água, contribuindo também para a hidratação.
4.6. O que evitar
- Alimentos ricos em sódio (presunto, salsicha, temperos) – podem causar retenção de água e sobrecarga renal.
- Chocolate, cafeína, uvas, cebola e alho – são tóxicos para cães.
- Alimentos muito gordurosos (frituras, pele de frango) – podem provocar pancreatite.
- Ração de baixa qualidade – insuficiente em proteínas e minerais essenciais.
4.7. Ajustes pós‑desmame
Quando os filhotes começam a consumir alimento sólido (cerca de 3‑4 semanas), a necessidade calórica da mãe diminui gradualmente. Reduza a quantidade de ração em 10 % a 15 % a cada semana até chegar à dose de manutenção.
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5. Saúde e Prevenção
5.1. Mastite: reconhecimento e tratamento
A mastite é a inflamação das glândulas mamárias, frequentemente causada por infecção bacteriana. Sinais clínicos incluem:
- Inchaço quente e doloroso nas mamas.
- Vermelhidão e brilho da pele.
- Secreção purulenta ou amarelada.
- Redução ou interrupção da produção de leite.
- Antibióticos de amplo espectro (ex.: amoxicilina + clavulanato).
- Anti-inflamatórios não esteroides (ex.: carprofeno).
- Compressas mornas nas mamas para melhorar a drenagem.
5.2. Hipocalcemia (tetania)
A deficiência de cálcio pode surgir em cadelas com grande número de filhotes ou em raças de grande porte. Sintomas: tremores, espasmos musculares, postura curvada, dificuldade para caminhar. O diagnóstico é confirmado por exames de sangue (níveis de Ca²⁺). O tratamento inclui suplementação intravenosa de cálcio e ajuste da dieta (aumento de fontes de cálcio e vitamina D).
5.3. Parasitas internos e externos
- Vermes intestinais podem causar diarreia e perda de nutrientes. Realize a vermifugação pós‑parto com fórmulas seguras para lactantes (ex.: praziquantel + pyrantel).
- Pulgas e carrapatos podem causar anemia e irritação. Use produtos tópicos ou coleiras aprovados para cadelas gestantes/lactantes.
5.4. Vacinação e vermifugação pré‑parto
A prevenção começa antes da gestação: vacinas atualizadas (cinomose, parvovirose, leptospirose) reduzem risco de transmissão vertical. A vacinação contra a raiva não deve ser administrada no último trimestre de gestação, pois pode causar abortos.
5.5. Controle de peso e obesidade
Obesidade na mãe pode levar a complicações metabólicas (diabetes gestacional) e dificultar o parto. Por outro lado, desnutrição compromete a produção de leite. Monitorar o peso semanalmente e ajustar a dieta conforme necessidade é fundamental.
5.6. Exames laboratoriais de rotina
- Hemograma completo: avalia anemia, infecção ou inflamação.
- Bioquímica sanguínea: verifica função hepática, renal e níveis de eletrólitos (cálcio, fósforo).
- Perfil de tireoide (em raças predispostas).
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6. Treinamento e Comportamento
6.1. Instinto materno e proteção ao ninho
A cadela lactante desenvolve um forte instinto de proteção. Ela pode reagir agressivamente a intrusos ou a manipulação excessiva dos filhotes. Respeite esse comportamento, limitando o acesso ao ninho a pessoas de confiança e evitando movimentos bruscos.
6.2. Socialização dos filhotes
Mesmo durante a lactação, é importante que a mãe permita algum contato controlado dos filhotes com o ambiente externo (cheiros, sons). Isso favorece a socialização precoce e reduz o medo futuro. Use uma câmara de separação onde a mãe possa observar, mas não ser perturbada.
6.3. Treinamento de obediência leve
Com a cadela ainda focada na ninhada, sessões de treinamento devem ser curtas (5‑10 minutos) e recompensadas com petiscos de alta qualidade (pedaços de carne cozida). Comandos básicos como “sentar”, “ficar” e “vir aqui” ajudam a manter a disciplina e a facilitar o manejo quando os filhotes crescerem.
6.4. Prevenção de comportamentos indesejados
- Lambedura excessiva: pode causar irritação nas mamas. Se notar que a cadela está se lambendo compulsivamente, ofereça brinquedos de mastigação e distrações.
- Ansiedade de separação: à medida que a ninhada cresce, a mãe pode ficar ansiosa ao ser deixada sozinha. Comece a habituá‑la a períodos curtos de ausência, aumentando gradualmente o tempo.
6.5. Uso de reforço positivo
Recompense comportamentos calmos e cooperativos com carinhos, palavras suaves e petiscos. Evite punições, pois elas podem gerar estresse e reduzir a produção de leite.
6.6. Preparação para o desmame
Quando os filhotes estiverem prontos para o desmame (cerca de 4‑5 semanas), introduza gradualmente comida sólida na dieta deles. Enquanto isso, incentive a mãe a ficar menos dependente da amamentação, reduzindo levemente a frequência das mamadas. Isso ajuda a prevenir a hipogalactia (produção insuficiente de leite) quando a demanda diminui.
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7. Dicas Práticas para Tutores
- Planeje a compra de ração com antecedência – estoque suficiente para 2‑3 semanas, evitando que a cadela fique sem alimento de qualidade.
- Divida as refeições em porções menores – ofereça 3‑4 vezes ao dia, usando comedouros automáticos se necessário.
- Mantenha um diário de alimentação – registre a quantidade de ração, suplementos e observações sobre o apetite da mãe. Isso facilita ajustes e demonstra comprometimento ao veterinário.
- Crie um ponto de hidr