Saúde do Nova Scotia Duck Tolling: Problemas Comuns

Um guia completo, baseado em evidências veterinárias, para tutores brasileiros que desejam garantir qualidade de vida ao seu Duck Tolling.

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1. Introdução

O Nova Scotia Duck Tolling Retriever, conhecido popularmente como Duck Tolling ou simplesmente Toller, é a menor das raças de retrievers. Originário do Canadá, o Tolling foi desenvolvido para atrair patos ao som de “tolling” (chamado) e, em seguida, recuperá‑los. No Brasil, embora ainda seja uma raça pouco comum, seu número de admiradores tem crescido, principalmente entre famílias ativas e amantes de esportes ao ar livre.

Entretanto, como qualquer cão, o Toller tem particularidades de saúde que precisam ser reconhecidas e monitoradas. Problemas ortopédicos, dermatológicos, oculares e genéticos podem surgir se o tutor não estiver atento às necessidades específicas da raça. Este artigo tem como objetivo apresentar, de forma clara e empática, os principais desafios de saúde que afetam os Nova Scotia Duck Tolling Retrievers, bem como fornecer estratégias preventivas e de manejo que favoreçam o bem‑estar desses animais.

Ao longo das próximas seções, você encontrará informações baseadas em literatura veterinária atual (AFI, ACVIM, estudos de raça publicados em revistas como Journal of Veterinary Internal Medicine), dicas práticas de cuidados diários e orientações para reconhecer sinais de alerta precocemente. Nosso foco é fortalecer a relação tutor‑cão, proporcionando ao seu Tolling uma vida longa, saudável e cheia de energia para brincar, aprender e ser parte da família.

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2. Características Principais

Aparência física

O Toller possui pelagem densa, semilarga e de coloração típica “vermelho dourado” com marcações brancas no peito, patas e cauda. Seu tamanho varia entre 17 e 20 kg e 45 a 51 cm de altura na cernelha. Apesar de ser compacto, apresenta musculatura bem desenvolvida, o que o torna ágil e resistente nas atividades de caça e esportes caninos.

Temperamento

É conhecido por ser extremamente inteligente, curioso e cheio de energia. Possui um “instinto de caça” que se manifesta em brincadeiras de puxar objetos, buscar e trazer. Essa característica, aliada a uma forte necessidade de interação humana, faz com que o Tolling se destaque como cão de companhia e competidor em agility, flyball e disc dog.

Expectativa de vida

A expectativa média de vida varia de 12 a 15 anos, podendo ser maior quando a saúde ortopédica e metabólica é bem gerida. Estudos populacionais apontam que, em raças de tamanho pequeno a médio, a longevidade costuma ser superior a de raças gigantes, porém a presença de doenças genéticas específicas pode reduzir esse período se não houver diagnóstico precoce.

Particularidades genéticas

A raça apresenta predisposição a algumas condições hereditárias:

Condição
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Displasia de quadril (DQ)
Incidência moderada (≈12‑15 %).
Displasia de cotovelo (DC)
Menor frequência que DQ, mas relevante.
Atopia (dermatite alérgica)
Alta prevalência; pode evoluir para otite.
Catarata precoce
Relacionada a mutação genética (catarata congênita).
Hipotireoidismo
Mais comum em fêmeas; pode levar a ganho de peso.
Conhecer essas características ajuda o tutor a escolher um criador responsável que realize testes genéticos (por exemplo, OFA – Orthopedic Foundation for Animals) e a planejar um acompanhamento veterinário adequado.

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3. Cuidados Essenciais

Exercício físico regular

Devido ao seu alto nível de energia, o Tolling necessita de pelo menos 1,5 h de atividade física diária, dividida em caminhadas, corridas leves e sessões de brincadeira. O ideal é combinar estímulos aeróbicos (corrida, natação) com exercícios de resistência (caminhadas em subidas) para fortalecer a musculatura e proteger as articulações.

Controle de peso

A obesidade é um dos principais fatores de desencadeamento de displasia de quadril e cotovelo. Manter o índice de condição corporal (BCS) entre 4 e 5 (em escala de 9) é crucial. Pesagens mensais nos primeiros dois anos de vida ajudam a detectar ganho excessivo de peso.

Higiene da pelagem

A pelagem densa do Tolling acumula sujeira e umidade, favorecendo a dermatite atópica e infecções cutâneas. Banhos mensais com shampoo hipoalergênico, escovação 2‑3 vezes por semana e inspeção de áreas como orelhas, axilas e região inguinal são práticas recomendadas.

Saúde dental

Problemas dentários podem ser subdiagnosticados em cães pequenos a médios. Escovação dental 2‑3 vezes por semana com creme dental específico para cães, aliado a brinquedos de mastigação duros, reduz a formação de placa e tártaro, prevenindo periodontite e perda dentária precoce.

Vacinação e vermifugação

O calendário vacinal padrão (cinco doses nos primeiros 16 meses, seguida de reforços anuais) deve ser mantido. A vermifugação preventiva, de acordo com o risco de exposição (ambientes rurais, contato com outros cães), costuma ser mensal nos primeiros 6 meses e, depois, a cada 3‑6 meses.

Visitas veterinárias regulares

Exames de rotina a cada 6‑12 meses, incluindo avaliação ortopédica (radiografias de quadril e cotovelo a partir dos 12 meses), exame oftalmológico (catarata precoce) e exames de sangue para triagem de hipotireoidismo, são fundamentais para detectar doenças em estágios iniciais.

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4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

Um Tolling adulto ativo (≈18 kg) requer entre 1.200 e 1.500 kcal/dia, variando conforme o nível de atividade, idade e metabolismo. Filhotes em fase de crescimento têm demandas ainda maiores – até 2,5 vezes a necessidade de um adulto de mesmo peso.

Macronutrientes balanceados

Nutriente
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Proteína
Manutenção muscular, recuperação pós‑exercício.
Gordura
Fonte de energia concentrada, essencial para pele e pelagem.
Carboidrato
Fornece energia de liberação lenta; escolha de fontes de baixo índice glicêmico (arroz integral, batata-doce).
Fibra
Saúde gastrointestinal.
É importante escolher rações de alta qualidade, que contenham proteína animal de origem identificada (ex.: frango, peixe) como primeiro ingrediente, além de ácidos graxos ômega‑3 e ômega‑6 (óleo de peixe ou linhaça) para suporte da pele e visão.

Suplementação

* Ômega‑3 (EPA/DHA) – 250‑500 mg/dia ajudam a controlar inflamações articulares e cutâneas.

* Glucosamina + Condroitina – 500‑1.000 mg/dia podem retardar a progressão da displasia em cães predispostos.

* Vitamina E e Selênio – Antioxidantes que colaboram na saúde ocular, especialmente em raças com risco de catarata.

A suplementação deve ser sempre orientada por um veterinário, pois excesso pode causar efeitos adversos (por exemplo, hipervitaminose A).

Alimentação de filhotes

Os filhotes de Tolling têm crescimento rápido nos primeiros 6 meses. Divida a alimentação em 4‑5 refeições diárias até os 4 meses, depois reduza para 3 refeições até os 6 meses. Use rações específicas para filhotes de raças pequenas/medias, pois oferecem maior densidade de nutrientes essenciais (cálcio, fósforo, DHA).

Controle de alergias alimentares

A atopia pode se manifestar como alergia alimentar secundária. Se houver sinais de prurido persistente, teste de eliminação de 8‑12 semanas com dietas hipoalergênicas (proteína e carboidrato novel) pode ajudar a identificar o agente desencadeante.

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5. Saúde e Prevenção

Displasia de quadril e cotovelo

* Prevenção: Controle de peso, exercícios de baixo impacto (natação, fisioterapia aquática) e evitar atividades de salto excessivo até os 12‑18 meses.

* Diagnóstico precoce: Radiografias ortopédicas aos 12 meses e, se necessário, ao 24 meses.

* Manejo: Em casos leves, fisioterapia, suplementos articulares e controle de dor com anti‑inflamatórios não esteroides (AINEs) prescritos. Casos moderados a graves podem requerer cirurgia (osteotomia, artroplastia).

Atopia e dermatites

* Prevenção: Banhos regulares com shampoos de aveia, uso de condicionadores sem fragrância e controle de ácaros domésticos (cama anti‑ácaros, aspiração frequente).

* Tratamento: Antialérgicos (cetirizina, dexclorfeniramina), imunoterapia específica (sérum de alérgenos) e shampoos medicinais com clorexidina.

Catarata precoce

* Detecção: Exame oftalmológico anual a partir dos 6 meses; uso de lâmpada de fenda para avaliação da transparência da lente.

* Intervenção: Cirurgia de catarata (facectomia) é eficaz quando a condição avança, permitindo boa visão e qualidade de vida.

Hipotireoidismo

* Sinais: Letargia, ganho de peso, queda de pelos, intolerância ao frio.

* Diagnóstico: Dosagem de T4 livre e TSH.

* Tratamento: Levotiroxina oral em dose ajustada ao peso e ao valor de T4, com monitoramento a cada 6‑12 meses.

Doenças infecciosas

* Leishmaniose: Embora rara no Brasil, áreas endêmicas exigem uso de coleiras repelentes e exames sorológicos anuais.

* Parvovirose: Vacinação completa nos primeiros 4 meses e reforço anual são essenciais.

Programa de rastreamento genético

Criadores responsáveis enviam amostras ao OFAS (Orthopedic Foundation for Animals) e ao UC Davis Veterinary Genetics Laboratory para teste de displasia, catarata e atopia. Tutores podem solicitar a realização desses testes em filhotes antes de iniciar a reprodução ou para planejamento de cuidados de longo prazo.

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6. Treinamento e Comportamento

Inteligência e necessidade mental

O Tolling é classificado como “alto” em inteligência (top 5% das raças). Falta de estímulo mental pode gerar comportamentos indesejados, como destruição de objetos e latidos excessivos.

Técnicas de adestramento positivo

* Reforço positivo: Utilizar petiscos de alta palatabilidade (pedaços de frango cozido, biscoitos específicos) e elogios vocais.

* Clicker training: O som do clicker associa o comportamento correto a uma recompensa imediata, facilitando o aprendizado de comandos avançados (fetch, “senta”, “fica”).

* Sessões curtas: 5‑10 minutos, 2‑3 vezes ao dia, mantém o foco e evita fadiga.

Socialização precoce

Entre 8‑12 semanas, expor o filhote a diferentes ambientes (ruas movimentadas, parques, outros cães, crianças) reduz a probabilidade de medo ou agressividade.

Controle de energia e “tolling” natural

A prática de “tolling” – atrair patos com latidos e movimentos – pode ser adaptada como jogo de busca: lançamentos de brinquedos que incentivam o cão a correr e retornar. Esse exercício simula o instinto de caça, canalizando energia de forma construtiva.

Problemas comportamentais frequentes

Problema
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Latidos excessivos
Enriquecimento ambiental, rotinas de saída/chegada calmantes, uso de brinquedos interativos.
Mastigação destrutiva
Aumento de caminhadas, brinquedos de resistência, sessões de treinamento de obediência.
Puxão na guia
Técnica “loose‑lead” com reforço de caminhada ao lado, treinos de “heel” com clicker.

Benefícios do esporte canino

Participar de agility, flyball ou disc dog oferece estímulo físico e mental simultâneo, reduzindo risco de sobrepeso e de problemas comportamentais. Para iniciantes, recomenda‑se aulas em clubes afiliados à Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC onde profissionais capacitados orientam a progressão de forma segura.

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7. Dicas Práticas para Tutores

  • Crie um calendário de saúde – Anote datas de vacinas, vermifugação, exames de sangue e avaliações ortopédicas. Use aplicativos de gerenciamento de pets (ex.: “PetCare”, “DogLog”).
  • Kit de primeiros socorros – Inclua gaze estéril, antisséptico (clorexidina 0,05 %), curativo adesivo, termômetro digital e a lista de telefones de emergência veterinária.
  • Mantenha o peso sob controle – Use uma balança de cozinha para medir a ração seca; ajuste a quantidade de acordo com a recomendação do fabricante e a condição corporal.
  • Hidratação constante – Em dias quentes, ofereça água fresca a cada 2 horas. Leve um bebedouro portátil em caminhadas longas.
  • Proteção contra parasitas externos – Aplicar coleiras ou spot‑on (ex.: fluralaner) mensalmente previne carrapatos e pulgas, que podem transmitir doenças como erliquiose e babesiose.
  • Higiene das orelhas – Limpar semanalmente com solução isotônica ou produto específico, evitando inserção profunda de cotonetes que podem lesionar o canal auditivo.
  • Enriquecimento ambiental – Rotacione brinquedos a cada semana, introduza quebra‑cabeças de comida (KONG recheado, tapetes de forragem) para estimular o olfato e a inteligência.
  • Monitoramento de sinais de dor – Observe postura curvada, relutância em subir escadas, relutância em pular ou correr, e vocalização ao ser tocado em determinadas áreas. Caso note, procure avaliação veterinária.
  • Educação familiar – Envolva todos os membros da casa nas rotinas de cuidados (alimentação, escovação, passeios) para garantir consistência e reforço positivo.
  • Planejamento de reprodução – Se considerar criar, faça testes genéticos nos pais, aguarde a idade mínima de 2 anos para acasalamento e siga as diretrizes da CBKC para evitar perpetuação de doenças hereditárias.
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8. Considerações Finais

O Nova Scotia Duck Tolling Retriever é um companheiro vibrante e leal, capaz de transformar a rotina de qualquer família em uma aventura cheia de afeto e energia. Contudo, como toda raça, traz consigo predisposições genéticas que exigem atenção, prevenção e, sobretudo, amor. O tutor que se informa, acompanha exames regulares e oferece um estilo de vida equilibrado — com dieta adequada, exercícios físicos e mentais, e cuidados preventivos — garante que seu Tolling desfrute de uma vida longa e saudável.

A chave para o sucesso está na parceria entre tutor, veterinário e, quando possível, um criador responsável. Essa rede de apoio permite identificar precocemente problemas como displasia, atopia ou hipotireoidismo, possibilitando intervenções que minimizam o sofrimento e preservam a qualidade de vida.

Além disso, ao investir tempo no treinamento positivo e na socialização, o tutor não só previne comportamentos indesejados, como também fortalece o vínculo afetivo, transformando o cotidiano em momentos de aprendizado mútuo. O Tolling, com sua inteligência e desejo de agradar, responde de forma exemplar a esse tipo de relacionamento, retribuindo com lealdade e entusiasmo.

Portanto, ao adotar ou cuidar de um Nova Scotia Duck Tolling Retriever, lembre‑se de que a saúde vai muito além da ausência de doença;