Miíase em Cães: Berne e Varejeira — Prevenção e Tratamento
A miíase canina é a infestação por larvas de moscas nos tecidos do cão. No Brasil: dois tipos principais — Berne (Dermatobia hominis: larva sob a pele) e Varejeira/Bicho-de-Ferida (Cochliomyia hominivorax: larvas em feridas abertas). O berne forma nódulo com orifício; a varejeira destrói tecidos rapidamente. Tratamento: remoção manual + ivermectina. Prevenção: antiparasitários e inspeção diária do pelo.
O caçador rural notou o nódulo no pescoço do cão.
Orifício pequeno. Larva se movendo lentamente.
Berne. Dermatobia hominis. Seis semanas sob a pele.
Nunca espremer — ocluir, esperar, retirar inteira.
A varejeira é diferente — ferida com larvas é emergência.
Dois tipos. Dois protocolos. A mesma mosca brasileira.
Berne vs Varejeira — Comparação
| Aspecto | Berne (D. hominis) | Varejeira (C. hominivorax) | |---|---|---| | Localização | Pele íntegra | Ferida aberta / mucosa | | Velocidade | Ciclo 35-60 dias | 24-72h destrói tecido | | Urgência | Moderada | ALTA — veterinário no mesmo dia | | Quantidade de larvas | 1 larva por nódulo | Dezenas a centenas por ferida | | Dor | Discreta | Intensa |
Tratamento do Berne — Passo a Passo
| Etapa | Procedimento | |---|---| | 1. Ocluir | Vaselina sobre o orifício por 10-20 min | | 2. Aguardar | A larva emerge parcialmente sem ar | | 3. Retirar | Pinça de ponta fina — puxar lentamente SEM ESMAGAR | | 4. NUNCA | Esprimir com força — risco de anafilaxia | | 5. Ivermectina | 0,2-0,4 mg/kg SC — facilita remoção ou mata remanescentes |
Prevenção
| Situação | Medida | |---|---| | Cão rural | Ivermectina SC mensal + spot-on repelente (permetrina) | | Ferida aberta | Cobrir imediatamente — trocas a cada 24h | | Cão com mobilidade reduzida | Inspeção 2x/dia — especialmente áreas úmidas |
Perguntas frequentes
O que é miíase canina e quais são os tipos no Brasil?+
A miíase (do grego: 'myia' = mosca) é a infestação de tecidos vivos por larvas (vermes) de moscas da ordem Diptera — os bicheiros ou miíases em linguagem popular. No Brasil: dois tipos principais de miíase em cães, com causas e apresentações completamente diferentes: Miíase furuncular — Berne (Dermatobia hominis): a larva do 'mosquito-do-berne' (Dermatobia hominis) se desenvolve sob a pele intacta; a mosca Dermatobia captura outros insetos (mosquitos, mutucas) e cola seus ovos no dorso do inseto vetor; quando o vetor pousa no cão (ou humano), o calor corporal ativa a eclosão das larvas; as larvas penetram ativamente pela pele íntegra (sem necessitar de ferida); desenvolve-se por 35-60 dias formando um nódulo com orifício de respiração (o nódulo do berne); ao final do ciclo, a larva emergida cai ao solo e empupa; muito comum no Brasil rural — especialmente no Centro-Oeste, Sul e Sudeste no período úmido (set-mar); Miíase de ferida — Varejeira/Bicho-de-Ferida (Cochliomyia hominivorax): a mosca Cochliomyia hominivorax deposita ovos APENAS em feridas abertas, mucosas expostas, ou áreas úmidas com secreção (olhos, ouvidos, umbigo de filhotes, vulva, ferida cirúrgica); em 12-24 horas: centenas de larvas eclodem e começam a destruir ativamente os tecidos vivos; urgência máxima: a Cochliomyia é uma das miíases mais destrutivas do mundo — pode destruir cartilagem e osso em poucos dias; Outros agentes (menos comuns): Sarcophaga spp. (mosca de carne): feridas; Lucilia cuprina e L. sericata (moscas varejeiras verdes/douradas): menos comuns em cão do que em ovinos no Brasil.
Como identificar e distinguir berne de varejeira no cão?+
O reconhecimento precoce é crítico — especialmente para a varejeira, onde horas fazem diferença. Identificação do Berne (D. hominis): Aspecto clínico: nódulo subcutâneo (caroço) de 0,5-3 cm de diâmetro; geralmente no couro cabeludo, pescoço, dorso ou flancos — áreas de fácil pouso do vetor; orifício central pequeno (2-4 mm): permite que a larva respire — a respiração da larva é visível como movimento lento quando o orifício é observado de perto; pode haver secreção serossanguinolenta ao redor do orifício; o cão pode se coçar na região mas geralmente não há dor intensa; desenvolvimento: as larvas permanecem 35-60 dias no tecido subcutâneo — o nódulo cresce progressivamente; Identificação da Varejeira (C. hominivorax): Localização: sempre em ferida aberta, mucosa exposta, ou área úmida — NUNCA em pele íntegra; sinais de urgência: ferida com movimento (as larvas se movem visivelmente); larvas brancas a creme de 1-15 mm aglomeradas na ferida; odor característico (putrefação) mesmo sem infecção bacteriana avançada; tecido ao redor: eritematoso, edemaciado, rapidamente destruído; o cão sente dor intensa — lambe obsessivamente, recusa manipulação da área; progressão: em 24-72h sem tratamento: a ferida aumenta dramaticamente em tamanho e profundidade; Urgência comparativa: Berne: urgência moderada — o berne tem ciclo lento (semanas); Varejeira: URGÊNCIA ALTA — em 12-24h, centenas de larvas destroem tecido ativamente; qualquer cão com ferida com larvas deve ser atendido pelo veterinário no mesmo dia.
Como tratar a miíase canina e o que NUNCA fazer?+
O tratamento da miíase é bem definido — mas existem erros comuns que agravam a situação. Tratamento do Berne (D. hominis): Método correto: ocluir o orifício do berne com vaselina, dedo ou esparadrapo por 10-20 min → a larva, sem ar, tende a emergir parcialmente; retirar a larva inteira com pinça de ponta fina (sem esmagar) — puxando suavemente e progressivamente; NUNCA: espremer com força — pode liberar proteínas da larva no tecido → reação anafilática severa; NUNCA: perfurar a larva dentro do tecido — larva morta dentro do tecido → abscesso + reação inflamatória intensa; após remoção: limpar com antisséptico, antibiótico tópico se necessário; Ivermectina (1% SC): 0,2-0,4 mg/kg subcutânea — pode facilitar a remoção ao atordoar a larva (ou pode ser usada antes da remoção manual); Tratamento da Varejeira (C. hominivorax): URGÊNCIA — veterinário imediato; remoção manual de todas as larvas visíveis com pinça: trabalho minucioso — podem ser centenas; irrigação abundante da ferida com clorexidina 0,05-0,1% ou SF 0,9%: remover larvas remanescentes; ivermectina (0,4 mg/kg SC) ou doramectina: mata larvas remanescentes; curativos oclusivos: impedir reinfestação; antibiótico sistêmico: amoxicilina-clavulanato ou enrofloxacino se infecção bacteriana concomitante; analgesia: tramadol/dipirona para dor intensa; Acompanhamento: reavaliação em 24-48h: verificar ausência de larvas remanescentes e progressão da cicatrização; feridas extensas: pode necessitar desbridamento e enxerto; Sedação/anestesia: em casos de miíase extensa ou cão agitado: necessária para remoção completa; cão em dor intensa não coopera.
Como prevenir a miíase em cães no Brasil?+
A prevenção da miíase é essencial no Brasil — especialmente para cães rurais e de áreas com alta umidade. Prevenção do Berne: Antiparasitários sistêmicos de longa duração: ivermectina (0,2 mg/kg SC mensal) em cão rural — mata as larvas nas primeiras horas após a penetração; milbemicina, moxidectina: também eficazes; spot-on com permetrina/deltametrina: repelem insetos vetores (mosquitos, mutucas que carregam os ovos de D. hominis); inspeção manual do pelo: semanal para cães de fazenda — especialmente pescoço, dorso e flancos; detectar o nódulo precoce facilita a remoção; Prevenção da Varejeira: Higiene de feridas: qualquer ferida aberta deve ser tratada e coberta imediatamente; nunca deixar ferida aberta exposta ao ambiente por mais de 30 min sem cobertura em ambiente com moscas; colarinho elizabetano: impede que o cão lamba e abra feridas cirúrgicas em áreas rurais; telas e barreiras: manter o cão em área com tela durante período de maior atividade das moscas (amanhecer e fim de tarde); Inspeção diária: verificar todo o pelo do cão diariamente em período de chuva e calor; atenção especial: áreas úmidas como ouvidos, vulva, região perianal, pregas cutâneas; Cuidados com cães com mobilidade reduzida: cão que não anda (paraplégico, idoso acamado) ou com feridas crônicas: inspeção 2x/dia; decúbito úmido é porta de entrada para varejeira; Cão rural vs urbano: o risco de berne e varejeira é muito maior para cão rural (fazenda, sítio, zona rural); cão urbano: risco menor mas não zero — varejeira pode ocorrer em ferida de cão urbano no verão.
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Torção Esplênica em Cães: Emergência Cirúrgica Abdominal
A torção esplênica (TE) é a rotação do baço em torno do hilo esplênico, interrompendo o fluxo vascular e causando congestão progressiva e necrose. Pode ocorrer isoladamente (Torção Esplênica Primária) ou associada à Dilatação-Vólvulo Gástrico (DVG). Pastor Alemão de meia-idade: predisposição específica para torção esplênica primária. Sinais: distensão abdominal, dor, anemia hemolítica progressiva, Heinz bodies. Tratamento: esplenectomia de emergência.
Tetralogia de Fallot em Cães: A Cardiopatia Cianótica
A Tetralogia de Fallot (ToF) é uma malformação cardíaca congênita composta de quatro defeitos simultâneos: (1) Comunicação Interventricular (CIV), (2) Estenose Pulmonar (EP), (3) Aorta cavalgante sobre o septo e (4) Hipertrofia Ventricular Direita (HVD). A EP severa força shunt direito-esquerdo → cianose (mucosas azuladas) e policitemia. Keeshond tem predisposição genética documentada. Diagnóstico: ecocardiografia. Tratamento: cirurgia paliativa (Blalock-Taussig) ou correção completa. Prognóstico: reservado sem intervenção.
Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise Epidérmica Tóxica em Cães
A Síndrome de Stevens-Johnson (SJS) e a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET — também TEN) são reações cutâneas graves e potencialmente fatais — resultam na morte massiva de queratinócitos e desprendimento extenso da epiderme. No cão, o quadro canino equivalente envolve erosões/ulcerações mucosas, vesículas e descamação de pele em extensão variável. Causa mais comum: reação medicamentosa (antibióticos, anticonvulsivantes, AINEs, sulfonamidas). Diagnóstico: biópsia (necrose de queratinócitos em toda a espessura da epiderme). Tratamento: suspensão imediata do fármaco + suporte intensivo. Prognóstico: grave — mortalidade elevada na forma NET.