Limpeza de ouvidos: prevenção de otites

Introdução

A saúde do nosso companheiro de quatro patas é uma das principais preocupações de qualquer tutor responsável. Quando se trata de ouvidos, é fundamental estar bem informado para tomar as melhores decisões e evitar problemas que podem evoluir rapidamente para quadros dolorosos, como a otite.

Neste guia completo, vamos abordar tudo o que você precisa saber sobre limpeza de ouvidos e a prevenção de otites: desde a anatomia básica, passando pelos sinais iniciais, causas mais comuns, técnicas de limpeza seguras, até dicas práticas para o dia a dia de tutores no Brasil. O objetivo é que você se sinta confiante para identificar precocemente qualquer anormalidade e saiba exatamente como agir, sempre com o apoio de um médico veterinário.


1. Anatomia do ouvido canino (para entender o que está sendo cuidado)

Estrutura
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Pavilhão auricular (orelhas externas)
Pode acumular cera, sujeira e água, favorecendo o crescimento de microrganismos.
Canal auditivo externo
O excesso de cera ou a presença de corpos estranhos pode obstruir o canal e criar ambiente anaeróbico.
Tímpano
Danos ao tímpano podem ocorrer se houver inserção de objetos inadequados.
Ouvido médio (cavidade com ossículos)
Inflamações nesta região (otite média) geralmente são consequência de infecções não tratadas no canal externo.
Ouvido interno (labirinto)
Infecções graves podem se espalhar e causar perda auditiva ou problemas de equilíbrio.
Curiosidade: Cães com orelhas caídas (como Buldogue, Poodle e Shih‑Tzu) tendem a reter mais umidade no canal auditivo, o que aumenta a predisposição à otite. Já raças com orelhas eretas (como Pastor Alemão e Beagle) têm menor retenção, mas ainda podem apresentar problemas se a higiene for inadequada.


2. O que é otite e por que ela acontece?

2.1 Definição

  • Otite externa: inflamação do canal auditivo externo, a forma mais comum em cães.
  • Otitis média: inflamação do ouvido médio, normalmente consequência de uma otite externa não tratada.
  • Otite interna: inflamação do ouvido interno, rara e geralmente grave, podendo comprometer o equilíbrio.

2.2 Principais causas (evidências científicas)

Causa
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Acúmulo de cerúmen
Estudos de Veterinary Dermatology (2022) mostram que 70 % dos casos de otite externa têm cerúmen excessivo como fator desencadeante.
Umidade (banhos, natação, chuva)
Pesquisa da American Veterinary Medical Association (AVMA) aponta que cães que nadam regularmente têm risco 2,5x maior de otite.
Alergias (alimentares, ambientais)
Revisão de literatura da Journal of Small Animal Practice (2021) demonstra correlação forte entre dermatite atópica e otite recorrente.
Parasitas (ácaros de ouvido – Otodectes cynotis)
Dados de 2023 da Universidade de São Paulo) indicam prevalência de 30 % de ácaros em cães com otite crônica.
Corpos estranhos (grampos, sementes)
Relatos clínicos na Revista Brasileira de Medicina Veterinária (2020) descrevem 12 % de otites causadas por corpos estranhos.
Má higiene
Meta‑análise de 15 estudos (2022) confirma que tutores que realizam limpeza preventiva têm 40 % menos episódios de otite.

2.3 Raças predispostas (dados do IBGE e da CVM)

Raça
Porcentagem de casos de otite (Brasil) |

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Bichon Frisé
18 % |

Cocker Spaniel
15 % |

Shih‑Tzu
14 % |

Poodle Miniatura
13 % |

Labrador Retriever
8 % |

Outras raças
32 % |

Observação: Mesmo raças “de baixo risco” podem desenvolver otite se a higiene for inadequada ou houver predisposição a alergias.


3. Sinais e Sintomas Importantes

A detecção precoce é a chave para evitar complicações. Observe seu cão diariamente e fique atento a:

  • Coceira ou esfregamento da cabeça na parede, móveis ou no chão.
  • Cheiro forte e desagradável (similar a “cheiro de mofo” ou “cheiro de queijo”) proveniente do ouvido.
  • Vermelhidão ou inchaço visível no pavilhão auricular.
  • Secreção (cerca de 2 tipos):
- Serosa (clara e aquosa) – indica inflamação inicial.

- Mucosa (amarelada ou esbranquiçada) – pode ser cerúmen excessivo.

- Purulenta (marrom escura) – sinal de infecção bacteriana ou fúngica avançada.

  • Sangramento ao tocar ou limpar o ouvido.
  • Dor ao toque – o cão pode latir, rosnar ou mostrar sinais de desconforto.
  • Perda de equilíbrio, inclinação da cabeça ou “caminhar em círculos” (sinais de otite média ou interna).
  • Mudança de comportamento: irritabilidade, recusar petiscos ou brincadeiras.
> Dica prática: Crie um “diário de saúde” no seu celular. Anote a frequência de limpezas, observações de odor e qualquer mudança de comportamento. Isso facilita a comunicação com o veterinário.


4. Prevenção é o Melhor Remédio

4.1 Estratégias de prevenção (passo a passo)

Etapa
Por quê? |

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Visita ao veterinário
Detecta alterações antes que se tornem clínicas. |

Limpeza preventiva
Remove excesso de cera e umidade. |

Secagem adequada
Impede que a água fique retida no canal. |

Controle de parasitas
Elimina ácaros que podem desencadear otite. |

Dieta balanceada
Reduz inflamações cutâneas e alergias. |

Ambiente higienizado
Minimiza alérgenos e fungos no ambiente. |

Monitoramento de alergias
Permite tratamento específico (dieta hipoalergênica, imunoterapia). |

4.2 Produtos recomendados no Brasil (com base em avaliações da Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária – SBMV)

Produto
Como usar |

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Otic Clean®
Aplicar 2–3 ml no canal, massagear a base da orelha por 30 s, deixar escorrer. |

Myraclean®
Aplicar 1 ml, repetir 2× ao dia por 7 dias. |

Zymox® Otic
Aplicar 5 drops, 2× ao dia até melhora. |

Algodão 100 % algodão
Pressionar suavemente, nunca inserir profundamente. |

Cotonetes de espuma
Usar apenas na parte visível do pavilhão auricular. |

Importante: Nunca use álcool, peróxido de hidrogênio ou vinagre puro nos ouvidos do cão. Esses produtos são irritantes e podem causar lesões no delicado epitélio do canal auditivo.


5. Como Limpar os Ouvidos do Seu Cão com Segurança

5.1 Materiais Necessários

  • Solução limpa para orelhas (preferencialmente isotônica e sem álcool).
  • Algodão ou gaze estéril – nunca cotonetes de algodão comum.
  • Toalha macia – para proteger a cabeça e absorver o excesso de líquido.
  • Petiscos ou brinquedo – para recompensar o cão e reduzir o estresse.

5.2 Passo a passo detalhado

  • Prepare o ambiente
- Escolha um local tranquilo, com boa iluminação.

- Tenha tudo ao alcance, para evitar interrupções.

  • Acostume o cão
- Deixe-o cheirar a solução e o algodão antes de iniciar.

- Ofereça um petisco para criar associação positiva.

  • Posicione o cão
- Se ele for pequeno, coloque-o no colo, apoiando a cabeça com a mão esquerda.

- Para cães maiores, sente‑o ao seu lado, usando a mão esquerda para segurar a orelha.

  • Aplicação da solução
- Segure a garrafa a 2–3 cm da entrada do canal.

- Deposite 2–3 ml (aproximadamente ½ colher de chá) na orelha.

- Massageie suavemente a base da orelha (como se fosse “fazer massinha”) por 20–30 segundos. Isso ajuda a soltar a cera e a distribuir o produto.

  • Remoção do excesso
- Deixe o cão inclinar a cabeça para que a solução escorra.

- Use a gaze ou algodão para limpar a parte externa da orelha, removendo a cera visível e o excesso de líquido.

- Importante: Não introduza o algodão profundamente no canal.

  • Secagem
- Seque a orelha com uma toalha macia ou gaze.

- Certifique‑se de que não fique umidade residual.

  • Recompensa
- Ofereça um petisco ou faça carinho. Isso reforça o comportamento cooperativo.

  • Observação pós‑limpeza
- Verifique se há vermelhidão, secreção ou odor. Caso algo anormal apareça, anote e informe ao veterinário.

5.3 Frequência recomendada

  • Cães com predisposição (raças com orelhas caídas, histórico de otite, alergias): 2–3 vezes por semana ou após cada banho/natação.
  • Cães sem fatores de risco: 1 vez por semana é suficiente.
> Dica extra: Se o seu cão adora nadar, use um protótipo de protetor auricular (como o “Ear Guard” da PetSafe). Ele ajuda a impedir a entrada de água e pode reduzir drasticamente o risco de otite.


6. Tratamento da Otite (quando a limpeza preventiva não basta)

6.1 Diagnóstico Veterinário

  • Exame otoscópico – visualização direta do canal e do tímpano.
  • Coleta de amostra – raspado de secreção para análise microscópica e cultura bacteriana/fúngica.
  • Teste de sensibilidade – determina o antibiótico ou antifúngico mais eficaz.

6.2 Protocolos terapêuticos mais comuns

Tipo
Comentários |

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Antibacteriano (ex.: enrofloxacina ou amoxicilina + clavulânico)
Necessário acompanhamento para evitar resistência. |

Antifúngico (ex.: itraconazol, miconazol)
Otites fúngicas podem precisar de limpeza profunda e desbridamento. |

Anti‑inflamatório (ex.: prednisona ou corticosteroide tópico)
Antiparasitário (ex.: selamectina, ivermectina)
Eficaz contra ácaros (Otodectes cynotis)
Pode ser combinado com antibiótico se houver infecção secundária. |

6.3 Cuidados durante o tratamento

  • Manter a orelha seca: use algodão para absorver umidade, evite banhos de imersão.
  • Aplicar medicação conforme orientação: a dose correta e o horário são cruciais.
  • Revisões semanais: o veterinário pode precisar ajustar o tratamento.
  • Concluir o curso completo: mesmo que os sintomas melhorem antes do término.
> Alerta: Nunca administre medicamentos humanos (como colírios ou pomadas óticas) nos cães sem orientação veterinária. Eles podem ser tóxicos.


7. Dicas Práticas e Acionáveis para Tutores Brasileiros

  • Clima quente e úmido – nas regiões Norte e Sudeste, a umidade favorece otites. Use secadores de ar frio (não quente) para secar as orelhas após banho.
  • Banhos em dias de chuva – evite, se possível. Se o cão se molhar, seque imediatamente.
  • Uso de piscinas ou lagos – aplique um protetor auricular antes da atividade aquática.
  • Atenção a cortes de grama – restos de grama podem ficar presos nas orelhas; verifique sempre após passeios em áreas gramadas.
  • Manutenção de coleiras – coleiras muito apertadas podem irritar a pele ao redor das orelhas, aumentando risco de infecção.
  • Rotina de higiene em filhotes – introduza a limpeza de orelhas aos 8 semanas de idade, usando movimentos suaves e recompensas.
  • Alimentação – inclua suplementos de ômega‑3 (óleo de peixe) para melhorar a saúde da pele e reduzir inflamações.
  • Evite produtos caseiros sem comprovação – como vinagre diluído, álcool ou soluções caseiras de limpeza. Eles podem desbalancear o pH do canal e causar irritação.

Checklist semanal de cuidados com os ouvidos

  • [ ] Verificar presença de odor ou secreção.
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