1. Introdução

O Leonberger é um dos cães de grande porte mais queridos no Brasil. Sua aparência imponente, combinada com um temperamento dócil e afetuoso, faz com que ele seja o companheiro ideal para famílias que buscam um “gigante gentil”. Contudo, como qualquer raça gigante, o Leonberger traz consigo alguns desafios de saúde que, se não forem identificados e tratados a tempo, podem comprometer sua qualidade de vida e gerar gastos inesperados ao tutor.

Neste artigo, vamos explorar os problemas de saúde mais comuns nessa raça, explicando por que eles ocorrem, como reconhecê‑los e, sobretudo, o que o tutor pode fazer para preveni‑los. A proposta é oferecer um guia prático e baseado em evidências veterinárias, mas apresentado de forma simples e acolhedora, para que qualquer pessoa – mesmo sem formação na área – consiga colocar em prática os cuidados recomendados.

Entender a saúde do Leonberger não significa viver com medo constante, mas sim assumir uma postura proativa: visitas regulares ao veterinário, uma alimentação equilibrada, exercícios adequados e atenção aos sinais que o corpo do seu cão dá. Quando o tutor se torna um observador atento e um parceiro de bem‑estar, o Leonberger tem maiores chances de viver muitos anos ao seu lado, com energia, alegria e, claro, sem dores evitáveis.

Acompanhe as próximas seções, que detalham características da raça, cuidados essenciais, nutrição, prevenção de doenças, treinamento, dicas práticas e, ao final, um panorama de como garantir uma vida longa e saudável ao seu gigante gentil.

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2. Características Principais

O Leonberger foi criado no século XIX na Alemanha a partir do cruzamento entre um Leonberger (cão de caça) e um Saint Bernard, com o objetivo de obter um cão de grande porte que fosse ao mesmo tempo forte, obediente e extremamente amigável. As principais características físicas e comportamentais que definem a raça são:

  • Tamanho: Machos pesam entre 45 kg e 65 kg, fêmeas entre 40 kg e 55 kg. A altura na cernelha varia de 65 cm a 80 cm. Essa grande massa corporal exige atenção especial à carga nas articulações e ao peso corporal ideal.
  • Pelagem: Densa, dupla e levemente ondulada. A camada externa protege contra intempéries, enquanto a interna, macia, isola termicamente. A pelagem exige escovação regular (pelo menos duas vezes por semana) para evitar nós e reduzir a queda de pelos.
  • Temperamento: Conhecido como “gigante gentil”. São cães extremamente sociáveis, leais e afetuosos com a família. Tendem a ser pacientes com crianças e, por serem naturalmente protetores, podem desenvolver um instinto de guarda, mas sem agressividade exagerada.
  • Inteligência: Alto nível de aprendizagem, respondendo bem a métodos de treinamento positivo. Essa inteligência, porém, pode se transformar em “tédio” se não houver estímulos mentais adequados, levando a comportamentos indesejados.
  • Energia: Moderada a alta. Precisa de caminhadas diárias e de momentos de brincadeira, porém não é um corredor incansável como um border collie. O excesso de exercício em filhotes pode prejudicar o desenvolvimento ósseo.
Do ponto de vista de saúde, duas características se destacam: a massa corporal (que predisponha a problemas ortopédicos) e a pelagem densa (que pode esconder lesões cutâneas ou infecções). Além disso, a predisposição genética a certas doenças — como displasia coxofemoral, cardiomiopatia e tumores — está intimamente ligada ao histórico da raça. Conhecer essas particularidades permite ao tutor antecipar cuidados específicos e buscar exames preventivos nos momentos certos.

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3. Cuidados Essenciais

Cuidar de um Leonberger exige planejamento e rotina, pois a combinação de tamanho, energia e predisposição a certas enfermidades demanda atenção constante. A seguir, os cuidados essenciais que todo tutor deve incorporar ao dia a dia:

Higiene e cuidados com a pelagem


  • Escovação: Pelo menos duas vezes por semana, usando uma escova de cerdas macias ou um pente de metal. Isso remove pelos mortos, evita nós e estimula a circulação cutânea.
  • Banho: A cada 6 a 8 semanas ou quando o cão estiver realmente sujo. Use shampoos específicos para cães de pelagem densa e evite água muito quente, que pode ressecar a pele.
  • Limpeza das orelhas: Verifique semanalmente se há acúmulo de cera ou odores. Limpe com algodão macio e solução veterinária, evitando inserir objetos profundos.

Saúde dentária


  • Escovação diária: Use escova e pasta própria para cães. Problemas dentários podem levar a bactérias que afetam órgãos internos.
  • Brinquedos mastigáveis: Auxiliam na limpeza mecânica dos dentes e reduzem o tédio.

Controle de parasitas


  • Pulgas e carrapatos: Aplicar preventivos mensais recomendados pelo veterinário. O Leonberger, por seu tamanho, pode abrigar grandes quantidades de parasitas, que se espalham rapidamente.
  • Vermifugação: Realizar a cada 3 meses, seguindo o protocolo indicado, e fazer exame de fezes anual.

Exercício físico adequado


  • Caminhadas: 30 a 60 minutos, duas vezes ao dia, em superfícies macias (grama ou terra). Evite asfalto quente no verão, que pode queimar as patas.
  • Atividades de baixo impacto: Natação, brincar com bolas leves, ou trilhas curtas. São ótimas para fortalecer músculos sem sobrecarregar as articulações.

Visitas ao veterinário


  • Check‑up anual: Exame completo, incluindo avaliação ortopédica, cardiológica e exames de sangue.
  • Vacinação: Mantenha o calendário atualizado (cinomose, parvovirose, leptospirose, raiva, entre outras).

Ambiente seguro


  • Espaço adequado: Um quintal cercado, com sombra e água fresca. O Leonberger precisa de espaço para se movimentar, mas também de um local protegido do calor intenso.
  • Camas ortopédicas: Reduzem a pressão nas articulações, principalmente em cães mais velhos ou com sobrepeso.
Incorporar esses hábitos à rotina cria uma base sólida para a saúde do seu Leonberger, reduzindo a incidência de doenças crônicas e promovendo bem‑estar geral.

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4. Alimentação e Nutrição

A nutrição adequada é um dos pilares para prevenir problemas de saúde no Leonberger, especialmente aqueles relacionados ao peso e às articulações. Devido ao tamanho da raça, a dieta deve ser balanceada, rica em nutrientes que favoreçam o desenvolvimento ósseo, a manutenção muscular e a saúde da pele e do pelo.

Requisitos calóricos


  • Filhotes (0‑12 meses): Necessitam de 2 500 a 3 500 kcal/dia, distribuídas em 3‑4 refeições. O crescimento rápido exige energia suficiente, mas sem excessos que causem obesidade precoce.
  • Adultos (1‑7 anos): Em média, 2 400 a 3 200 kcal/dia, dependendo do nível de atividade e do metabolismo individual.
  • Sêniores (>7 anos): Redução de 10‑15 % nas calorias, pois o gasto energético diminui.

Macronutrientes essenciais


Nutriente
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Proteína (18‑25 % da ração)
Carne magra, peixe, ovos, proteína de alta qualidade (ex.: whey)
Gordura (10‑15 % da ração)
Óleo de peixe (ômega‑3), óleo de linhaça, gordura animal
Carboidrato (30‑40 % da ração)
Arroz integral, batata doce, aveia
Cálcio e fósforo (1,2 % Ca, 0,9 % P)
Farinha de ossos, suplementos de cálcio, vegetais ricos em minerais

Micronutrientes e suplementos

  • Glucosamina e condroitina: Importantes para a saúde das articulações, especialmente em cães predispostos a displasia. Administrar a partir dos 12 meses, conforme orientação veterinária.
  • Ácidos graxos ômega‑3: Reduzem inflamações e melhoram a pelagem. O óleo de salmão é uma boa opção.
  • Antioxidantes (vitamina E, selênio): Auxiliam na prevenção de doenças cardíacas e tumores.
  • Probióticos: Mantêm a flora intestinal saudável, reduzindo diarreias e alergias alimentares.

Estratégias para evitar a obesidade


  • Controle de porções: Use medidores específicos e siga a recomendação do fabricante, ajustando conforme o peso corporal.
  • Evite “barriga de cachorro”: Não ofereça restos de mesa, petiscos industrializados ricos em calorias ou alimentos humanos gordurosos.
  • Petiscos saudáveis: Cenoura crua, maçã sem sementes, pedaços de frango cozido sem tempero.
  • Monitoramento de peso: Pese o cão a cada 2‑3 meses; a perda de 1 % da massa corporal pode indicar necessidade de ajuste na dieta.

Alimentação caseira vs ração comercial


  • Ração de alta qualidade: Garantia de balanceamento nutricional, praticidade e controle de nutrientes. Escolha marcas que atendam ao padrão AAFCO para “large breed”.
  • Dieta caseira: Pode ser adotada, mas requer formulação por nutricionista veterinário para evitar deficiências.
Em resumo, uma alimentação equilibrada, aliada a monitoramento regular do peso e a suplementação inteligente, forma a base para prevenir doenças ortopédicas, cardíacas e metabólicas no Leonberger.

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5. Saúde e Prevenção

O Leonberger tem predisposição a algumas enfermidades que, se detectadas precocemente, podem ser tratadas de forma eficaz. A seguir, os problemas de saúde mais comuns na raça e as estratégias preventivas recomendadas.

1. Displasia Coxofemoral e Cotovelo


  • O que é: Mal‑formação das articulações do quadril ou cotovelo, levando a dor, claudicação e artrite precoce.
  • Prevenção:
- Exames de imagem (radiografia) aos 12‑18 meses e novamente aos 2‑3 anos.

- Controle de peso: Reduz a carga sobre as articulações.

- Suplementos: Glucosamina, condroitina e ácido hialurônico a partir da idade adulta.

- Exercício adequado: Caminhadas curtas em superfícies macias; evitar pulo excessivo e corridas em terrenos duros.

2. Cardiomiopatia Dilatada (CMD)

  • O que é: Enfraquecimento do músculo cardíaco, resultando em insuficiência cardíaca.
  • Prevenção:
- Ecocardiograma a partir dos 2 anos, especialmente se houver histórico familiar.

- Exames de sangue (NT‑proBNP, troponina) para monitoramento.

- Dieta rica em ômega‑3 e antioxidantes, que ajudam a proteger o miocárdio.

- Evitar sobrecarga física em cães com suspeita de doença cardíaca.

3. Tumores (Hemangiossarcoma, Mastocitoma)

  • O que é: Crescimentos malignos que podem se desenvolver em órgãos internos ou na pele.
  • Prevenção:
- Exame físico trimestral para identificar nódulos cutâneos ou alterações de volume abdominal.

- Ultrassonografia abdominal anual a partir dos 5 anos.

- Vacina contra o câncer (CaniLeuk) ainda em fase experimental, mas algumas clínicas oferecem imunoterapia preventiva.

4. Problemas Dermatológicos

  • Dermatite atópica e infecções secundárias são frequentes devido à pelagem densa.
  • Prevenção:
- Banhos regulares com shampoo hipoalergênico.

- Escovação diária para remover detritos que podem irritar a pele.

- Teste de alergia se houver coceira persistente; dietas de eliminação podem ser necessárias.

5. Hipotireoidismo

  • O que é: Deficiência de hormônios tireoidianos, causando ganho de peso, letargia e queda de pelos.
  • Prevenção:
- Exame de T4 livre a partir dos 3 anos, se houver sinais clínicos.

- Monitoramento de peso e ajuste da dieta.

Estratégias de prevenção geral

Ação
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Check‑up veterinário
Detecta alterações clínicas antes que evoluam
Exames de sangue
Avalia função hepática, renal, tireoidiana e marcadores cardíacos
Radiografias ortopédicas
Identifica displasia precoce
Ecocardiograma
Detecta CMD em estágio silencioso
Vacinação
Previne doenças infecciosas graves
Controle de parasitas
Evita doenças transmitidas por parasitas
Ao adotar um plano de prevenção estruturado, o tutor consegue minimizar o risco de desenvolvimento das doenças mais prevalentes no Leonberger, garantindo uma vida mais longa e livre de sofrimento para o seu companheiro.

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6. Treinamento e Comportamento

Embora o Leonberger seja conhecido por sua natureza calma e amigável, ele ainda precisa de treinamento consistente e estímulo mental para evitar comportamentos indesejados e manter a saúde emocional.

Principais traços comportamentais

  • Alta sociabilidade: O Leonberger adora estar perto de pessoas e costuma ser “cão de colo”. Essa característica pode gerar ansiedade de separação se o animal ficar muito tempo isolado.
  • Instinto protetor: Embora não seja agressivo por natureza, pode latir ou vigiar quando sente que a família está em risco.
  • Inteligência: Aprende rapidamente, porém pode ficar entediado se as atividades forem repetitivas.

Técnicas de treinamento recomendadas


  • Reforço positivo
- Use petiscos saudáveis, elogios verbais e carícias.

- Recompense o comportamento desejado imediatamente, para que o cão associe a ação ao prêmio.

  • Comandos básicos
- Sentar, deitar, ficar, vir: Ensine em sessões curtas (5‑10 min) e múltiplas vezes ao dia.

- “Sair”: Fundamental para evitar que o cão fuja quando estiver em áreas abertas.

  • Socialização precoce
- Exponha o filhote a diferentes ambientes, sons, pessoas e outros cães entre 8 e 16 semanas.

- Passeios em locais movimentados (parques, praças) ajudam a reduzir medo de estímulos externos.

  • Treino de autocontrole
- “Deixar”: Ensina a não pegar objetos proibidos.

- “Esperar” antes de comer: Reduz a ansiedade alimentar.

  • Enriquecimento ambiental
- Brinquedos interativos (puzzle feeders) que liberam petiscos ao serem manipulados.

- Rotina de “caça ao tesouro” no quintal: esconder petiscos ou brinquedos para estimular o olfato.

Como lidar com problemas comportamentais comuns

Problema
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Ansiedade de separação
Falta de estímulo quando o tutor sai | Deixar brinquedos que liberam comida, criar rotinas de saída