Saúde

Intoxicação por Paraquat em Cachorro: O Herbicida que Destrói os Pulmões

O paraquat (1,1'-dimetil-4,4'-bipiridínio) é um herbicida extremamente tóxico para cães — o pulmão é o órgão-alvo principal. Produz radicais superóxido → fibrose pulmonar progressiva e irreversível. Paradoxo: oxigenioterapia piora o quadro nas primeiras 48h. Sem antídoto específico. Alta mortalidade mesmo com tratamento. Único herbicida cujo mecanismo de toxicidade é potencializado pelo oxigênio.

30 de maio de 2026·1 min de leitura

O cão voltou da fazenda vizinha com vômito e salivação excessiva. Na área havia sido aplicado herbicida.

No veterinário: mucosa oral com erosão. Vômito persistente.

72 horas depois: dispneia progressiva. Radiografia: opacidades difusas bilaterais.

Fibrose pulmonar por paraquat. Irreversível.

O Paradoxo do Oxigênio

| Momento | Conduta de oxigênio | |---|---| | Primeiras 48h | FiO₂ BAIXO — O₂ piora a lesão | | Hipóxia grave (PaO₂ < 50 mmHg) | O₂ pode ser introduzido com cautela | | Após 72h de evolução | O₂ suplementar com monitoramento |

O paraquat usa o oxigênio como substrato para gerar radicais — mais oxigênio = mais radicais = mais destruição pulmonar. É o único herbicida com esse mecanismo.

As Três Fases

| Fase | Tempo | Órgão-alvo | Reversível? | |---|---|---|---| | GI aguda | 0-24h | Esôfago, estômago | Sim | | Lesão de órgãos | 1-5 dias | Rim, fígado, coração | Parcialmente | | Fibrose pulmonar | 5-21 dias | Pulmão | NÃO |

Status no Brasil

| País | Status do paraquat | |---|---| | União Europeia | Banido desde 2007 | | Brasil | Registrado — amplamente usado | | EUA | Uso restrito |

Gramoxone, Herboxone e genéricos estão ativos em lavouras brasileiras — risco real para cães em área rural.

Perguntas frequentes

Como o paraquat causa toxicidade em cães e por que é tão perigoso?+

O paraquat é provavelmente o herbicida mais perigoso para mamíferos — e o seu mecanismo de toxicidade é único entre os herbicidas: é potencializado pelo oxigênio. Mecanismo de toxicidade: Estresse oxidativo cíclico: o paraquat (PQ²⁺) é reduzido nas células a radical paraquat (PQ⁺•) pela NADPH mitocondrial e microssomal → PQ⁺• doa elétron ao O₂ → forma radical superóxido (O₂•⁻) + regenera PQ²⁺ → ciclo contínuo enquanto houver oxigênio e NADPH; essa reação é chamada de 'redox cycling' → produção constante de espécies reativas de oxigênio (EROs); lipoperoxidação: os radicais superóxido → peróxido de hidrogênio (H₂O₂) → radical hidroxila (•OH) → lipoperoxidação de membranas celulares; Por que o pulmão: o pulmão acumula ativamente o paraquat via transportador de poliaminas (PA transporter) na mucosa alveolar tipo II; as células alveolares tipo II têm alto metabolismo de NADPH → mais substrato para gerar radicais; a alta concentração de O₂ nos pulmões potencializa o ciclo; resultado: necrose das células alveolares tipo II → inflamação → fibrose pulmonar progressiva e irreversível; O paradoxo do oxigênio: oxigenioterapia intensiva nas primeiras 48h AUMENTA a produção de radicais → piora a lesão pulmonar; contraintuitivo: a conduta é manter O₂ BAIXO (FiO₂ < 21%) nas primeiras 48-72h se possível; somente usar O₂ se PaO₂ < 50 mmHg (hipóxia grave); Fontes: paraquat é usado no Brasil como herbicida em lavouras de cana, soja e pastagem; exposição canina: ingestão de água contaminada, gramínea tratada, produto concentrado derramado.

Quais são os sinais clínicos e a progressão da intoxicação por paraquat?+

A intoxicação por paraquat tem três fases clínicas progressivas — a fase pulmonar é a que determina a sobrevida. Fase 1 — Irritação GI (primeiras horas): vômito imediato — irritação química do paraquat no esôfago e estômago; diarréia, hipersalivação; dor orofaríngea — erosões da mucosa oral e esofágica; úlceras orais: o paraquat concentrado queima a mucosa; Fase 2 — Lesão de órgãos (1-5 dias): Rins: insuficiência renal aguda — o paraquat é nefrotóxico; oligúria, azotemia; Fígado: elevação de ALT, AST, bilirrubinas; icterícia possível; Coração: miocardia tóxica — arritmias; Cérebro: edema cerebral em casos graves; Fase 3 — Fibrose pulmonar (5-21 dias): a fase mais letal e irreversível; mesmo após melhora aparente dos sinais GI e renais: piora respiratória progressiva; taquipneia, dispneia crescente; hipóxia refratária; fibrose pulmonar: irreversível — o tecido cicatricial substitui o epitélio alveolar; radiografia: opacidades difusas bilaterais (aspecto de vidro fosco); a morte por insuficiência respiratória pode ocorrer dias a semanas após a ingestão; Prognóstico: intoxicação leve (< 10 mg/kg de paraquat ingerido): possível sobrevida com tratamento agressivo; intoxicação grave (> 20-30 mg/kg): mortalidade muito alta mesmo com todo o tratamento disponível; a fibrose instalada é irreversível — não reverte com nenhum tratamento.

Qual é o tratamento para intoxicação por paraquat?+

O tratamento da intoxicação por paraquat é desafiador — não existe antídoto específico e a janela de tratamento é muito estreita. Descontaminação imediata (< 1 hora): indução de vômito: apomorfina SC — somente se cão consciente e sem lesões orais severas; carvão ativado: muito importante para paraquat — 1-4 g/kg VO repetido a cada 2-4 horas nas primeiras 24h; terra de Fuller's (fullersita) ou bentonita: adsorventes específicos para paraquat — podem ser mais eficazes que o carvão; catártico: sorbitol ou sulfato de magnésio — acelera eliminação intestinal; lavagem gástrica: somente se < 1h da ingestão; Controle da lesão pulmonar: FiO₂ BAIXO paradoxo: evitar O₂ suplementar nas primeiras 48h → menos substrato para o ciclo redox do paraquat; somente usar O₂ se PaO₂ < 50 mmHg ou saturação < 88%; após 48-72h: O₂ pode ser introduzido com cautela; N-acetilcisteína: precursor de glutationa — combate o estresse oxidativo; 140 mg/kg IV de ataque + 70 mg/kg a cada 6h; Vitamina C + Vitamina E: antioxidantes auxiliares; Superóxido dismutase (SOD): em pesquisa — não disponível comercialmente; Suporte de órgãos: Fluidos IV: diurese forçada para eliminar paraquat pelos rins; Suporte renal: furosemida se oligúria; diálise se possível; Imunossupressão: ciclofosfamida + metilprednisolona: tentativa de reduzir fibrose — resultados inconsistentes em humanos e animais; Deferoxamina: quelante de ferro — reduz radical hidroxila via reação de Fenton — efeito modesto; Prognóstico: reservado a grave em intoxicações moderadas a graves.

O paraquat é usado no Brasil? Como prevenir a exposição canina?+

Uso no Brasil: o paraquat (comercialmente: Gramoxone, Herboxone e genéricos) é um herbicida amplamente usado no Brasil em lavouras de cana-de-açúcar, soja, pastagens e pomares; o Brasil é um dos maiores usuários de paraquat do mundo; tentativas de banimento: houve tentativas de proibição pelo IBAMA nos anos 2000-2010; em 2017, o MAPA manteve o registro após contestação judicial; comparação: União Europeia baniu o paraquat em 2007; EUA: uso restrito mas não banido; Fontes de exposição para cães: lavouras tratadas: cão que anda em área recém-tratada → ingestão de gramínea contaminada ou água de poça; produto concentrado derramado: produto agrícola em galões — acesso de cão é emergência; trabalhador rural que lava equipamento em área acessível ao cão; ingestão de plantas mortas pelo herbicida: o paraquat pode permanecer na planta; Prevenção: manter cão longe de áreas tratadas com paraquat por 72+ horas; armazenar herbicidas em local inacessível; identificar sinais de aplicação em propriedades rurais vizinhas; em caso de suspeita de exposição oral: não esperar sintomas — ir imediatamente ao veterinário; Reconhecimento do produto: paraquat tem cor azul ou com corante azul (adicionado por lei em alguns países para identificação); cheiro característico — mas não cheirar para testar; o produto concentrado é irritante dérmico — usar luvas ao manipular.

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