Intoxicação por Colchicina em Cachorro: Açafrão-do-Prado e Gloriosa
A colchicina é um alcaloide mitótico extraído do açafrão-do-prado (Colchicum autumnale) e da Gloriosa superba — plantas ornamentais comuns em jardins. Bloqueia a formação de microtúbulos, inibindo a divisão celular. Em cães, causa síndrome GI grave, disfunção de múltiplos órgãos e colapso cardiovascular com doses de 0,1 mg/kg. Dose letal estimada: 0,5-0,8 mg/kg. Sem antídoto — suporte intensivo imediato é a única alternativa.
A Golden Retriever de 3 anos escavou o jardim e comeu o que parecia uma batata.
Era o tubérculo de Gloriosa superba — o "lírio-trepadeira" do jardim da tutora.
Quatro horas depois: vômito em jato, diarreia hemorrágica, prostração grave.
ALT 1.800 U/L. Leucócitos: 800/μL.
Mielossupressão por colchicina. Falência de múltiplos órgãos.
Sobreviveu após 5 dias de UTI. Muitos não sobrevivem.
Progressão Clínica da Intoxicação por Colchicina
| Fase | Tempo | Sinais | |---|---|---| | Fase 1 — GI | 0-24h | Vômito grave, diarreia hemorrágica, dor abdominal | | Fase 2 — Sistêmica | 24-96h | Mielossupressão, hepatotoxicidade, insuficiência renal | | Fase 3 — Falência | > 72h | CIVD, falência de múltiplos órgãos, morte |
Plantas com Colchicina em Jardins — Identificação
| Planta | Nome popular | Parte mais tóxica | Disponível no Brasil? | |---|---|---|---| | Gloriosa superba | Lírio-trepadeira / Flame lily | Tubérculo subterrâneo | Sim — ornamental tropical | | Colchicum autumnale | Açafrão-do-prado | Bulbo, folhas, flores | Rara — clima frio | | Merendera spp. | — | Bulbo | Muito rara |
Como Distinguir Açafrão Verdadeiro de Açafrão-do-Prado
| Característica | Crocus sativus (seguro) | Colchicum autumnale (tóxico) | |---|---|---| | Estames | 3 estames | 6 estames | | Pistilo | Vermelho e longo | Branco | | Época de flor | Outono | Outono (sem folhas) | | Toxicidade | Baixa | Alta — emergência |
Perguntas frequentes
O que é a colchicina e quais plantas a contêm?+
A colchicina é um alcaloide tricíclico extraído primariamente do Colchicum autumnale (açafrão-do-prado, colchico, meadow saffron) e presente em outras espécies do gênero Colchicum e na Gloriosa superba. É usada em medicina humana no tratamento da gota e da febre mediterrânea familiar — e acidentalmente pode intoxicar cães. Plantas que contêm colchicina: Colchicum autumnale (açafrão-do-prado / meadow saffron): bulbosa europeia ornamental; flores roxas similares ao açafrão verdadeiro (mas da família Colchicaceae, não Iridaceae como o açafrão); toda a planta é tóxica: bulbo (maior concentração), folhas e flores; Gloriosa superba (lírio-trepadeira / flame lily): trepadeira ornamental com flores vermelhas e amarelas espetaculares; cultivada em jardins tropicais e subtropicais — muito popular no Brasil como ornamental; toda a planta é tóxica, especialmente o tubérculo subterrâneo; Merendera e Androcymbium: espécies menos comuns também com colchicina; Iphigenia indica (Índia): colchicina e glifosina; Distinção importante: Colchicum autumnale ≠ Crocus sativus (açafrão verdadeiro); o açafrão verdadeiro (Crocus) tem toxicidade muito baixa para cães; o açafrão-do-prado (Colchicum) é altamente tóxico — plantas similares, toxicidade radicalmente diferente; Uso medicinal: colchicina oral (Coluric, Colchimed) para gota aguda e febre mediterrânea — acesso domiciliar é possível; ingestão de comprimidos é outra fonte de exposição para cães; Dose tóxica para cões: > 0,1 mg/kg: sinais GI; > 0,5 mg/kg: colapso de múltiplos órgãos; doses do tubérculo de Gloriosa: altíssimas concentrações — pequena quantidade pode ser letal.
Quais são os sinais clínicos da intoxicação por colchicina em cães?+
A colchicina tem mecanismo único de toxicidade — bloqueia a polimerização da tubulina, impedindo a formação de microtúbulos essenciais para a divisão celular e para a função dos neurônios. A síndrome clínica é progressiva e multissistêmica. Mecanismo de ação: inibe a polimerização de tubulina → sem microtúbulos → sem divisão celular → células que se dividem rapidamente (epitélio GI, medula óssea) são as mais afetadas; também interfere com a migração de leucócitos e com a função neuromuscular; Progressão dos sinais em cães: Fase 1 — GI (0-24h após ingestão): Vômito severo e persistente: início precoce (1-6h após ingestão); Diarreia aquosa ou hemorrágica: grave; Dor abdominal intensa; Hipersalivação: sinal inicial frequente; Fase 2 — Disfunção de múltiplos órgãos (24-96h): Mielossupressão: leucopenia + trombocitopenia + anemia — medula não produz novas células; infecções secundárias por imunossupressão; Insuficiência hepática: ALT elevada, icterícia; Insuficiência renal: ureia e creatinina elevadas; Colapso cardiovascular: hipotensão refratária, colapso; Fase 3 — Falência (> 72-96h em casos graves): Coagulação intravascular disseminada (CIVD): mielossupressão + dano endotelial; Falência de múltiplos órgãos (MODS); Morte; Neurológico: ataxia, fraqueza muscular, paralisia ascendente (doses letais); Cronologia: início dos sinais: 2-12h após ingestão; pico de gravidade: 48-96h; a colchicina tem meia-vida longa em mamíferos (20-30h) — efeito prolongado.
Qual é o tratamento da intoxicação por colchicina em cães?+
Não há antídoto específico para colchicina — o tratamento é suporte intensivo e descontaminação precoce. EMERGÊNCIA VETERINÁRIA IMEDIATA — não espere os sinais progredirem. Descontaminação (somente se < 1-2h sem sinais graves): Indução de vômito: somente se cão alerta, sem sinais neurológicos e < 1h após ingestão; apomorfina IM: 0,03-0,04 mg/kg IV ou 0,1 mg/kg IM; NÃO induzir vômito se cão em colapso ou sonolento; Carvão ativado: 1-4 g/kg VO — adsorve parte da colchicina; pode ser repetido 2-3x nas primeiras 24h (a colchicina tem circulação entero-hepática); Suporte de múltiplos órgãos: Fluidos IV isotônicos: Ringer lactato ou SF 0,9% — manutenção de perfusão; Correção de desequilíbrios eletrolíticos: potássio (hipocalemia por vômito e diarreia); Suporte GI: omeprazol IV, sucralfato, ondansetrona para vômito/náusea; nutrição parenteral ou por sonda se anorexia prolongada; Suporte hepático: N-acetilcisteína IV se ALT > 3x normal; Monitoramento hematológico: hemograma completo a cada 24h nas primeiras 72h; leucopenia: antimicrobianos profiláticos de amplo espectro (a mielossupressão aumenta risco infeccioso); Suporte cardiovascular: dopamina ou dobutamina se hipotensão refratária; Transfusão: concentrado de hemácias se anemia grave; plasma fresco congelado se CIVD; Temperatura corporal: hipotermia possível — aquecimento; Isolamento: o cão mielossuprimido é imunossuprimido — minimizar exposição a infecções; Prognóstico: dose baixa (< 0,1 mg/kg) com tratamento precoce: razoável; dose alta (> 0,3 mg/kg) com atraso no tratamento: grave a sombrio; morte pode ocorrer mesmo com suporte intensivo em casos com dose elevada.
Como identificar as plantas com colchicina em jardins brasileiros e como prevenir?+
A prevenção é essencial — identificar as plantas de risco no jardim e limitar o acesso do cão é mais eficaz que qualquer tratamento. Plantas com colchicina em jardins brasileiros: Gloriosa superba (lírio-trepadeira / flame lily / lírio-glória): trepadeira ornamental cada vez mais popular em jardins tropicais; flor característica: pétalas enroladas para cima, vermelhas e amarelas com bordas onduladas; tubérculo subterrâneo: extremamente tóxico — parece batata ou inhame ao ser desenterrado; um único tubérculo pode conter dose letal para cão de médio porte; Colchicum autumnale (açafrão-do-prado): menos comum no Brasil — clima subtropical não é ideal; pode ser encontrada em vasos ou jardins de colecionadores; flor roxa que emerge sem folhas (peculiaridade — flores surgem no outono, folhas na primavera); Como distinguir as flores: Crocus sativus (açafrão verdadeiro): 3 estames, 1 pistilo vermelho, flor pequena — baixa toxicidade; Colchicum autumnale (açafrão-do-prado): 6 estames (diferencial!), flor rosa a roxa maior — altamente tóxico; a confusão pode ocorrer por semelhança visual — mas o número de estames diferencia; Identificação da Gloriosa superba: buscar pelo nome popular 'lírio-trepadeira', 'flame lily', 'gloriosa', 'lírio-glória'; a planta tem gavinhas nas pontas das folhas — característica única; Prevenção prática: mapear o jardim e identificar plantas tóxicas; Gloriosa superba: cercar com grade ou plantar em local inacessível ao cão; ao encontrar tubérculos na terra durante jardinagem — manter cão longe; descartar bulbos e tubérculos de plantas ornamentais longe do alcance do cão; ao caminhar em áreas com plantas silvestres: atenção ao Colchicum em países europeus e sul da Ásia; Plantas NÃO confundir: cebola ornamental (Allium): tóxica por mecanismo diferente (hemólise); Daffodil (Narcissus): alcaloide diferente; Açafrão verdadeiro (Crocus sativus): baixo risco.
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Torção Esplênica em Cães: Emergência Cirúrgica Abdominal
A torção esplênica (TE) é a rotação do baço em torno do hilo esplênico, interrompendo o fluxo vascular e causando congestão progressiva e necrose. Pode ocorrer isoladamente (Torção Esplênica Primária) ou associada à Dilatação-Vólvulo Gástrico (DVG). Pastor Alemão de meia-idade: predisposição específica para torção esplênica primária. Sinais: distensão abdominal, dor, anemia hemolítica progressiva, Heinz bodies. Tratamento: esplenectomia de emergência.
Tetralogia de Fallot em Cães: A Cardiopatia Cianótica
A Tetralogia de Fallot (ToF) é uma malformação cardíaca congênita composta de quatro defeitos simultâneos: (1) Comunicação Interventricular (CIV), (2) Estenose Pulmonar (EP), (3) Aorta cavalgante sobre o septo e (4) Hipertrofia Ventricular Direita (HVD). A EP severa força shunt direito-esquerdo → cianose (mucosas azuladas) e policitemia. Keeshond tem predisposição genética documentada. Diagnóstico: ecocardiografia. Tratamento: cirurgia paliativa (Blalock-Taussig) ou correção completa. Prognóstico: reservado sem intervenção.
Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise Epidérmica Tóxica em Cães
A Síndrome de Stevens-Johnson (SJS) e a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET — também TEN) são reações cutâneas graves e potencialmente fatais — resultam na morte massiva de queratinócitos e desprendimento extenso da epiderme. No cão, o quadro canino equivalente envolve erosões/ulcerações mucosas, vesículas e descamação de pele em extensão variável. Causa mais comum: reação medicamentosa (antibióticos, anticonvulsivantes, AINEs, sulfonamidas). Diagnóstico: biópsia (necrose de queratinócitos em toda a espessura da epiderme). Tratamento: suspensão imediata do fármaco + suporte intensivo. Prognóstico: grave — mortalidade elevada na forma NET.