Saúde

Intoxicação por Aspirina em Cachorro: AINEs e Toxicidade Gastrointestinal

A aspirina (ácido acetilsalicílico) é um dos analgésicos mais perigosos para cães — inibe irreversivelmente COX-1 e COX-2, causando úlcera gástrica, sangramento e nefrotoxicidade. Gatos são ainda mais sensíveis (meia-vida de 44 horas). Não existe dose segura de aspirina regular para cães sem supervisão veterinária. Tratamento com omeprazol, sucralfato e suporte.

30 de maio de 2026·2 min de leitura

O tutor chegou preocupado: o Labrador de 4 anos estava vomitando havia dois dias, com fezes escuras. "Dei aspirina para a dor na pata — uma dose humana, achei que era seguro."

Endoscopia: três úlceras gástricas ativas. Hemoglobina: 8,2 g/dL. Anemia por sangramento crônico.

A aspirina "de farmácia" havia destruído a proteção gástrica do cão em 48 horas.

O Estômago Desprotegido — Por Que a COX-1 é Vital

O estômago de um cão saudável tem uma barreira de muco que o protege do ácido clorídrico:

  1. COX-1 produz prostaglandinas (PGE2, PGI2)
  2. Essas prostaglandinas estimulam células a secretar muco e bicarbonato
  3. O muco isola a mucosa do ácido → sem úlceras

A aspirina inibe COX-1 de forma irreversível (ligação covalente):

  1. COX-1 bloqueada → sem prostaglandinas protetoras
  2. Sem muco → ácido ataca diretamente a mucosa
  3. Erosão → úlcera → sangramento → melena

Este efeito dura enquanto o organismo não produz novas COX-1 — no cão, isso leva dias.

Aspirina vs AINEs Veterinários

| Característica | Aspirina | Meloxicam veterinário | |---|---|---| | Inibição de COX-1 | Irreversível | Fraca (COX-2 preferencial) | | Proteção gástrica | Elimina | Preserva parcialmente | | Frequência no cão | Cada 48h (risco alto) | Cada 24h (mais seguro) | | Disponível sem receita | Sim | Não | | Aprovado para cão | Não | Sim |

Doses de Risco — A Matemática Assusta

| Cão | Aspirina 500mg | Dose mg/kg | Risco | |---|---|---|---| | 5 kg | 1 comprimido | 100 mg/kg | Intoxicação grave | | 10 kg | 1 comprimido | 50 mg/kg | Limiar de toxicidade | | 20 kg | 1 comprimido | 25 mg/kg | "Seguro" mas não recomendado | | Qualquer peso | Uso diário | Acumulativo | Úlcera progressiva |

Gatos: qualquer dose de aspirina sem protocolo específico (cada 72h, dose muito baixa) é potencialmente fatal — meia-vida de 44 horas vs 8-12 horas no cão.

Prognóstico

| Situação | Prognóstico | |---|---| | Ingestão recente + descontaminação + proteção gástrica | Muito bom | | Úlcera estabelecida + omeprazol + sucralfato | Bom (cicatrização em 2-4 semanas) | | Perfuração gástrica + peritonite | Grave — cirurgia de emergência | | Insuficiência renal estabelecida | Reservado |

Perguntas frequentes

Por que a aspirina é perigosa para cães e qual o mecanismo de toxicidade?+

A aspirina (ácido acetilsalicílico) parece inofensiva — é um dos medicamentos mais comuns nas farmácias domésticas. Mas em cães, ela representa um risco real. Mecanismo de ação e toxicidade: a aspirina inibe as enzimas COX-1 e COX-2 (cicloxigenases); COX-1: enzima constitutiva que produz prostaglandinas protetoras do estômago (estimulam produção de muco e bicarbonato gástrico); COX-2: enzima induzível envolvida na inflamação; inibição irreversível de COX-1 → perda da proteção gástrica → úlcera gástrica → sangramento; diferente do ibuprofeno e diclofenaco (inibição reversível), a aspirina se liga covalentemente às COX → efeito dura a vida da plaqueta (8-10 dias em humanos); em cães: mesma ligação covalente + metabolismo diferente → mais vulneráveis. Toxicidade específica: gastrointestinal (mais comum): erosão gástrica, úlcera, perfuração; sangramento gastrointestinal — melena, hematemese; renal: redução do fluxo renal (prostaglandinas renais dependem de COX-1); nefrotoxicidade em cães com comprometimento renal pré-existente; ácido-base: doses altas → alcalose respiratória → acidose metabólica (síndrome salicilato); plaquetária: inibição da agregação plaquetária → sangramento aumentado. Cão vs humano: cães metabolizam salicilatos mais lentamente que humanos → acumulam mais facilmente; gatos: ainda mais sensíveis (meia-vida do salicilato: 44 horas vs 8-12 horas no cão vs 3-5 horas no humano); para gatos: qualquer dose de aspirina sem protocolo específico pode ser fatal.

Quais doses de aspirina são tóxicas e quais os sinais de intoxicação?+

Toxicidade: a margem de segurança da aspirina em cães é estreita. Doses: dose analgésica usada em medicina veterinária (com muita cautela): 10-25 mg/kg a cada 48 horas — alguns protocolos antigos usavam; doses gastrointestinalmente tóxicas: > 50 mg/kg por dose ou uso prolongado; doses de aspirina humana (500 mg/comprimido): um comprimido para um cão de 10 kg = 50 mg/kg — limiar de toxicidade; dois comprimidos: 100 mg/kg — intoxicação grave; aspirina infantil (80 mg/comprimido): mais perigosa pela falsa segurança — tutores acham 'é só infantil'. Sinais clínicos (aparecem em 4-12 horas): Sinais gastrointestinais (os mais comuns): vômito (com ou sem sangue); dor abdominal — posição de oração; melena (fezes pretas — sangue digerido); hematemese (vômito com sangue); anorexia; Sinais sistêmicos (doses mais altas): taquipneia (alcalose respiratória inicial); letargia, ataxia; hipertermia; tremores; Sinais graves: úlcera gástrica com perfuração → peritonite; anemia por sangramento crônico; insuficiência renal aguda; coagulopatia — sangramento generalizado.

Como tratar a intoxicação por aspirina em cães?+

Tratamento: depende do tempo de ingestão e da gravidade dos sinais. Descontaminação (se ingestão < 2-4 horas e sem sinais): indução de vômito: apomorfina SC/IV — SOMENTE se sem sinais gastrointestinais (vomitar com úlcera = risco de perfuração); carvão ativado: 1-4 g/kg VO — reduz absorção do salicilato; a aspirina tem circulação entero-hepática — carvão repetido pode ajudar; Proteção gástrica (FUNDAMENTAL): omeprazol (inibidor de bomba de prótons): 1 mg/kg VO 2x/dia; sucralfato: 0,5-1 g/cão VO 3x/dia — forma barreira protetora sobre úlceras; misoprostol: análogo de prostaglandina — repõe o que a aspirina bloqueou; 2-5 mcg/kg VO 3x/dia; Suporte: fluidoterapia IV: manutenção + correção de desidratação; transfusão: se anemia hemorrágica grave; Alcalinização urinária: bicarbonato IV: aumenta excreção renal de salicilato — ioniza o salicilato na urina; útil em intoxicação grave; Monitoramento: hemograma, bioquímica, PT/TTPA; ureia/creatinina: nefrotoxicidade; glicemia: hipoglicemia pode ocorrer em intoxicação grave.

Quais AINEs são seguros para cães e como prevenir intoxicação?+

AINEs seguros para cães: existem AINEs veterinários específicos muito mais seguros que a aspirina humana. AINEs aprovados para cães (com prescrição veterinária): meloxicam: o mais usado em medicina veterinária; inibição preferencial de COX-2; menor impacto gástrico; carprofeno: muito usado pós-cirúrgico; grapiprant: mecanismo diferente (antagonista EP4, não inibe COX diretamente) — menor risco gastrointestinal; deracoxib: COX-2 seletivo; Todos exigem: avaliação veterinária prévia; hemograma e bioquímica de base; monitoramento renal durante uso prolongado; uso com alimento; contraindicados em cães com doença renal, hepática ou gástrica pré-existente. Prevenção: NUNCA dar aspirina humana 'para aliviar a dor' do cão sem prescrição veterinária; armazenar medicamentos humanos fora do alcance; a dose de aspirina que um humano toma regularmente pode ser tóxica para um cão de médio porte; para dor aguda em cão: veterinário — não automedicação. Prognóstico: bom se tratado precocemente; reservado em úlcera com perfuração ou insuficiência renal estabelecida.

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