Saúde

Intoxicação por Antidepressivos em Cachorro: SSRIs e Tricíclicos

Os antidepressivos são medicamentos humanos frequentemente encontrados por cães dentro de casa — são a segunda classe de medicamentos humanos mais associada a intoxicação canina. Dois mecanismos principais: SSRIs (fluoxetina, sertralina) → síndrome serotoninérgica; tricíclicos (amitriptilina) → síndrome anticolinérgica + cardiotoxicidade. Serotonin syndrome: hipertermia + tremores + hipersalivação. Sem antídoto específico para SSRIs — suporte e ciproeptadina.

30 de maio de 2026·1 min de leitura

O comprimido caiu atrás da cama. O cão entrou e saiu do quarto. A tutora não prestou atenção.

Quatro horas depois: tremores finos, hipersalivação, temperatura 40,8°C.

Sertralina 50mg — síndrome serotoninérgica.

SSRIs vs Tricíclicos — Dois Mecanismos, Dois Perigos

| Classe | Exemplos | Mecanismo | Risco principal | |---|---|---|---| | SSRIs | Fluoxetina, Sertralina, Escitalopram | Acúmulo de serotonina na sinapse | Síndrome serotoninérgica | | SNRIs | Venlafaxina | Serotonina + noradrenalina | Síndrome serotoninérgica mais grave | | Tricíclicos | Amitriptilina, Clomipramina | Serotonina + anticolinérgico + canal Na+ cardíaco | Arritmia ventricular + síndrome serotoninérgica |

A Tríade da Síndrome Serotoninérgica

| Componente | Sinais | |---|---| | Neuromuscular | Tremores, hiperreflexia, mioclonia, rigidez | | Autonômico | Taquicardia, midríase, hipersalivação | | Mental | Agitação, desorientação, convulsões | | Temperatura | HIPERTERMIA — o sinal mais perigoso |

Tratamento

| Problema | Tratamento | |---|---| | Síndrome serotoninérgica | Ciproeptadina 1,1 mg/kg VO/retal — antagonista 5-HT | | Hipertermia | Banho frio, soro gelado IV — meta < 39,5°C | | Tremores/agitação | Diazepam IV | | CONTRAINDICADO | Acepromazina — abaixa limiar convulsivo | | Arritmia por tricíclico | Bicarbonato de sódio IV — alvo pH 7,45-7,55 |

Antidepressivos de Maior Risco

| Medicamento | Por que mais perigoso | |---|---| | Escitalopram (Lexapro) | Mais potente por mg — menor dose tóxica | | Venlafaxina (Effexor) | Cápsula libera dose inteira ao morder | | Amitriptilina | Cardiotoxicidade adicional aos SSRIs | | Fluoxetina | Meia-vida muito longa — sintomas por até 96h |

Perguntas frequentes

Por que os antidepressivos são perigosos para cães e quais são os mais tóxicos?+

Os antidepressivos são a segunda classe de medicamentos humanos mais frequentemente envolvida em intoxicações caninas (após os anti-inflamatórios humanos como ibuprofeno e paracetamol). Mecanismo — dois grupos principais: Grupo 1 — SSRIs (Inibidores Seletivos da Recaptura de Serotonina): Fluoxetina (Prozac): o SSRI mais comum — longa meia-vida (1-4 dias + metabólito ativo 5-9 dias); Sertralina (Zoloft): meia-vida 26h; Paroxetina (Paxil): meia-vida 21h; Escitalopram (Lexapro): mais potente entre SSRIs — meia-vida 27-32h; Venlafaxina (Effexor): SNRI (serotonina + noradrenalina) — pode ser mais grave que SSRIs puros; mecanismo: bloqueio do transportador de recaptura de serotonina (SERT) → acúmulo de serotonina na sinapse → estimulação excessiva de receptores 5-HT; Grupo 2 — Tricíclicos (TCAs): Amitriptilina (Amitril): o mais disponível no Brasil; Clomipramina (Anafranil): usada em veterinária — mas superdosagem é perigosa; Imipramina; mecanismo: bloqueio múltiplo — recaptura de serotonina/noradrenalina + bloqueio anticolinérgico + bloqueio de canais de sódio cardíacos; os tricíclicos são geralmente mais perigosos que SSRIs puros — cardiotoxicidade adicional; Toxicidade por dose: SSRIs: efeitos a partir de 2-5 mg/kg; graves a partir de 10-15 mg/kg; tricíclicos: efeitos a partir de 2-4 mg/kg; arritmias a partir de 10-20 mg/kg; Vulnerabilidade canina: cães metabolizam alguns SSRIs mais lentamente que humanos → efeitos mais prolongados; a fluoxetina tem metabólito ativo (norfluoxetina) com meia-vida ainda mais longa.

Quais são os sinais clínicos de intoxicação por antidepressivos em cães?+

Os sinais diferem entre SSRIs e tricíclicos — reconhecer qual grupo foi ingerido guia o tratamento. Síndrome Serotoninérgica (SSRIs e SNRIs): tríade clássica de Hunter (2003) — hiperreatividade neuromuscular + alteração autonômica + alteração mental; Sinais neuromusculares: tremores finos iniciais → grosseiros; hiperreflexia (espasmos musculares ao toque leve); mioclonia: contrações musculares involuntárias; rigidez muscular (casos graves); ataxia, incoordinação; Sinais autonômicos: hipersalivação; taquicardia; hipertensão; midríase (pupilas dilatadas); pele vermelha (vasodilatação periférica); Temperatura: HIPERTERMIA — o sinal mais perigoso; > 41°C em casos graves — pode evoluir para CID (coagulação intravascular disseminada), falha orgânica múltipla; Alteração mental: agitação extrema; vocalização; desorientação; convulsões em casos graves; Cronologia: sintomas iniciam 1-4 horas após ingestão; pico 6-12 horas; duração pode ser longa — fluoxetina: 24-96h de sintomas; Síndrome Anticolinérgica + Cardiotoxicidade (Tricíclicos): Sinais anticolinérgicos (bloqueio muscarínico): mucosas secas; taquicardia; midríase; retenção urinária; hipertermia; íleo adinâmico (intestino parado); Cardiotoxicidade — mais perigosa: alargamento do intervalo QRS (bloqueio de canais de sódio Na+) → taquicardia ventricular; alargamento do QT → torsades de pointes → fibrilação ventricular; a morte por tricíclicos é frequentemente por arritmia ventricular fatal; Convulsões: tricíclicos têm efeito pró-convulsivo direto — além do efeito serotoninérgico.

Qual é o tratamento para intoxicação por antidepressivos em cães?+

O tratamento varia conforme o agente e os sinais. Não existe antídoto específico para SSRIs — o foco é suporte e controle de síndromes. Descontaminação imediata (< 1-2 horas): indução de vômito: apomorfina SC — somente se cão consciente e sem tremores ativos (tremores → risco de aspiração); CONTRAINDICAR indução de vômito se: já tem tremores, convulsões ou hipertermia grave; carvão ativado: 1-4 g/kg VO; repetir a cada 4-6h para fluoxetina (circulação êntero-hepática); lavagem gástrica: se ingestão recente e grande quantidade — sob anestesia para proteger vias aéreas; Controle da Síndrome Serotoninérgica: Ciproeptadina: antagonista de receptores 5-HT₁ e 5-HT₂ → reduz síndrome serotoninérgica; dose: 1,1 mg/kg VO ou retal (triturar comprimido); pode repetir a cada 4-6h; NÃO disponível em muitas farmácias — buscar farmácia de manipulação; Diazepam: controla agitação e tremores; Acepromazina: CONTRAINDICADA — abaixa limiar convulsivo + hipotensão + antídoto inadequado para serotonina; Controle da hipertermia: banho com água fria, ventilação, soro gelado EV; meta: < 39,5°C; NUNCA usar anti-inflamatórios para controlar hipertermia por serotonina (mecanismo diferente da febre infecciosa); Cardiotoxicidade por Tricíclicos: Bicarbonato de sódio IV: tratamento de escolha para arritmias por tricíclicos; alcaliniza o sangue → reduz bloqueio de canais de sódio; dose: 1-2 mEq/kg IV em bolus lento; alvo: pH 7,45-7,55; Monitoramento de ECG: contínuo — intervalo QRS, QT, arritmias; Magnésio IV: se torsades de pointes; evitar: antiarrítmicos da classe IA e IC (pioram o bloqueio de sódio); Suporte geral: fluidos IV, monitoramento contínuo de temperatura, FC, PA, ECG.

Como prevenir a intoxicação por antidepressivos e quais são as situações de risco?+

Epidemiologia: os antidepressivos são medicamentos extremamente comuns — fluoxetina e sertralina estão entre os medicamentos mais vendidos no Brasil; a prevalência do uso de antidepressivos cresceu muito nos últimos anos → mais cães expostos; o perfil de intoxicação típico: comprimido caiu no chão → cão ingeriu antes do tutor perceber; cão encontrou frasco aberto ou na bolsa; tutor tentou medicar o próprio cão (NUNCA usar medicação humana sem orientação veterinária); Situações de maior risco: Venlafaxina (Effexor): vem em cápsula — ao morder, cão libera dose inteira de uma vez; dificuldade de vômito após ingestão de cápsula; Fluoxetina líquida: formulações pediátricas → alta palatabilidade, fácil ingestão; Escitalopram (Lexapro, Reconter): mais potente por mg → menor dose tóxica; Amitriptilina: usada em medicina para dor crônica, enxaqueca, insônia — muito presente em domicílios de pacientes com dor; Prevenção: armazenar todos os medicamentos humanos em armário com trava — não deixar em cima de mesa, criado-mudo ou na bolsa; tomar medicações em local fechado — comprimido cai e rola para debaixo de móveis onde cão pode encontrar; nunca medicar cão com antidepressivos humanos sem receita veterinária; alguns antidepressivos SÃO usados em veterinária (fluoxetina para TOC canino, clomipramina para ansiedade de separação) — mas SEMPRE em dose e formulação veterinária; O que fazer: ir imediatamente ao veterinário — não esperar sintomas; levar a embalagem ou foto do medicamento (nome, dose do comprimido); informar quantos comprimidos estavam na embalagem e quantos faltam.

Continue lendo

Saúde

Torção Esplênica em Cães: Emergência Cirúrgica Abdominal

A torção esplênica (TE) é a rotação do baço em torno do hilo esplênico, interrompendo o fluxo vascular e causando congestão progressiva e necrose. Pode ocorrer isoladamente (Torção Esplênica Primária) ou associada à Dilatação-Vólvulo Gástrico (DVG). Pastor Alemão de meia-idade: predisposição específica para torção esplênica primária. Sinais: distensão abdominal, dor, anemia hemolítica progressiva, Heinz bodies. Tratamento: esplenectomia de emergência.

Saúde

Tetralogia de Fallot em Cães: A Cardiopatia Cianótica

A Tetralogia de Fallot (ToF) é uma malformação cardíaca congênita composta de quatro defeitos simultâneos: (1) Comunicação Interventricular (CIV), (2) Estenose Pulmonar (EP), (3) Aorta cavalgante sobre o septo e (4) Hipertrofia Ventricular Direita (HVD). A EP severa força shunt direito-esquerdo → cianose (mucosas azuladas) e policitemia. Keeshond tem predisposição genética documentada. Diagnóstico: ecocardiografia. Tratamento: cirurgia paliativa (Blalock-Taussig) ou correção completa. Prognóstico: reservado sem intervenção.

Saúde

Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise Epidérmica Tóxica em Cães

A Síndrome de Stevens-Johnson (SJS) e a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET — também TEN) são reações cutâneas graves e potencialmente fatais — resultam na morte massiva de queratinócitos e desprendimento extenso da epiderme. No cão, o quadro canino equivalente envolve erosões/ulcerações mucosas, vesículas e descamação de pele em extensão variável. Causa mais comum: reação medicamentosa (antibióticos, anticonvulsivantes, AINEs, sulfonamidas). Diagnóstico: biópsia (necrose de queratinócitos em toda a espessura da epiderme). Tratamento: suspensão imediata do fármaco + suporte intensivo. Prognóstico: grave — mortalidade elevada na forma NET.