1. Introdução

O Cão Pastor Islandês (Icelandic Sheepdog) é um dos poucos cães nativos da Escandinávia que ainda sobrevive em sua forma original. Conhecido por sua energia contagiante, inteligência e um temperamento amigável, ele tem conquistado cada vez mais espaço nas casas brasileiras, especialmente entre famílias que buscam um companheiro ativo e ao mesmo tempo leal. Contudo, como toda raça com características genéticas e comportamentais específicas, o Pastor Islandês apresenta um conjunto de predisposições de saúde que o tutor deve conhecer para garantir uma vida longa, feliz e livre de sofrimento.

Neste artigo vamos explorar, de forma detalhada e baseada em evidências veterinárias, os problemas mais comuns que afetam essa raça, bem como as práticas preventivas, nutricionais e de manejo que ajudam a minimizar riscos. O objetivo é oferecer ao tutor brasileiro informações claras, práticas e empáticas, facilitando a construção de um vínculo saudável e equilibrado com seu cão. Se você acabou de levar para casa um filhote de Pastor Islandês ou já convive há anos com um adulto, encontrará aqui orientações que vão desde a escolha da ração correta até estratégias de treinamento que respeitam a sensibilidade da raça. Lembre‑se: cuidar da saúde do seu cão é um ato de amor que se reflete em qualidade de vida, bem‑estar emocional e na alegria que esse animal traz para o cotidiano da família.


2. Características Principais

Aparência física


  • Tamanho: Médio, com altura entre 45 e 53 cm na cernelha e peso entre 14 e 20 kg.
  • Pelagem: Dupla camada; a subpelo macio protege contra o frio, enquanto o pelo externo, mais áspero, é resistente à água. As cores variam entre preto, branco, cinza, marrom e combinações tricolores.
  • Olhos: Escuros, expressivos, conferindo um olhar alerta e curioso.

Temperamento e comportamento


  • Energia: Altamente ativo, adora correr, brincar e participar de atividades ao ar livre. É um cão que precisa de estímulo físico diário, caso contrário pode desenvolver comportamentos destrutivos.
  • Inteligência: Muito inteligente, aprende rapidamente comandos e truques, mas também pode ser obstinado se não houver consistência no treinamento.
  • Socialização: Extremamente sociável com pessoas, crianças e outros animais. Essa característica o torna um excelente cão de família, porém requer supervisão nos primeiros encontros para evitar brincadeiras excessivamente bruscas.

Saúde geral da raça

Estudos genéticos indicam que, apesar de ser robusto, o Pastor Islandês tem predisposição a algumas condições hereditárias, como displasia coxofemoral, atopia (alergias cutâneas) e doenças oculares (por exemplo, ceratite). A presença de duas camadas de pelagem pode favorecer o acúmulo de parasitas externos, exigindo atenção redobrada nas rotinas de controle de pulgas e carrapatos.

Expectativa de vida

A expectativa de vida média varia entre 12 e 15 anos, sendo que a qualidade de vida está intimamente ligada ao manejo adequado de exercício, alimentação balanceada e cuidados preventivos regulares.


3. Cuidados Essenciais

Higiene e banho

  • Frequência: De 4 a 6 vezes por ano, ou quando o cão se suja excessivamente. Evite banhos excessivos para não remover a camada oleosa que protege a pele.
  • Produtos: Use shampoos específicos para cães de pelagem dupla; shampoos suaves com pH balanceado (5,5‑6,5) evitam irritação.
  • Secagem: Seque bem com toalha e, se necessário, use secador em temperatura morna, mantendo distância para não queimar a pele.

Escovação


  • Frequência: Diária durante o período de troca de pelo (primavera e outono) e 2‑3 vezes por semana nos demais períodos.
  • Ferramentas: Pente de aço ou escova de cerdas firmes para remover a camada externa e escova de cerdas macias para o subpelo.

Controle de parasitas


  • Pulgas e carrapatos: Aplicar produtos spot‑on ou coleiras de ação prolongada (mínimo 30 dias).
  • Vermes internos: Vermifugação a cada 3 meses, ou conforme orientação do veterinário, principalmente em filhotes (mensal até 6 meses).

Saúde dentária


  • Escovação: 2‑3 vezes por semana com escova e pasta dental específicas para cães.
  • Check‑ups: Limpeza profissional a cada 6‑12 meses para prevenir periodontite, que pode levar a problemas sistêmicos.

Exercício físico


  • Rotina: No mínimo 1 hora de atividade diária, dividida em caminhadas, brincadeiras e sessões de estímulo mental (puzzle toys, treinamento de obediência).
  • Segurança: Evite superfícies muito quentes (asfalto em dias de verão) para prevenir queimaduras nas patinhas.

Visitas ao veterinário


  • Check‑up anual: Avaliação de peso, exames de sangue básicos, avaliação ortopédica e ocular.
  • Vacinação: Atualizar o calendário vacinal (cinomose, parvovirose, hepatite, leptospirose, raiva).
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4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas


  • Filhotes (8‑16 kg): 400‑550 kcal/dia, divididas em 3‑4 refeições.
  • Adultos ativos (14‑20 kg): 900‑1.200 kcal/dia, distribuídas em 2 refeições.
  • Sêniores (acima de 10 anos): Reduzir calorias em 10‑15 % para evitar ganho de peso, mantendo proteína de alta qualidade.

Macro e micronutrientes essenciais


Nutriente
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Proteína
Carne magra, peixe, ovos, proteína de alta digestibilidade (≥ 30 % da ração)
Gordura
Óleo de peixe, linhaça, gordura animal de boa qualidade
Carboidrato
Arroz integral, batata doce, aveia (em quantidades controladas)
Cálcio/Fósforo
Ossos moídos, suplementos específicos (cálcio : fósforo ≈ 1,2 : 1)
Vitamina A, E, C
Fígado, vegetais coloridos, suplementos vitamínicos

Alimentos recomendados

  • Ração premium: Formulada para raças de médio porte e alta energia, com proteína animal como primeiro ingrediente.
  • Ração natural caseira: Possível, porém exige balanceamento rigoroso com auxílio de nutricionista veterinário para evitar deficiências.
  • Suplementos: Ômega‑3 (óleo de salmão) para pelagem brilhante e anti‑inflamatório, glucosamina + condroitina para suporte articular em raças predispostas à displasia.

Alimentação preventiva de alergias


  • Teste de eliminação: Se surgirem coceiras ou dermatites, experimente dietas hipoalergênicas (por exemplo, proteína única como cordeiro ou peixe) por 8‑12 semanas.
  • Evitar alimentos processados: Corantes, conservantes e subprodutos de carne podem desencadear reações em cães sensíveis.

Hidratação


  • Água fresca: Disponibilizar água limpa 24 h por dia, trocar pelo menos duas vezes ao dia.
  • Alimentos úmidos: Complementam a ingestão hídrica, especialmente em climas quentes.
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5. Saúde e Prevenção

Problemas ortopédicos mais comuns

  • Displasia Coxofemoral
- Sinais: Claudicação, relutância em subir escadas, dor ao pressionar a região do quadril.

- Prevenção: Controle de peso, evitar exercícios de alto impacto em filhotes (pular de alturas) e oferecer suplementos de glucosamina a partir dos 2 anos.

  • Doença de Legg‑Calvé‑Perthes
- Sinais: Perda súbita de força na perna traseira, postura de “cavalo”.

- Prevenção: Identificação precoce via radiografia e manutenção de um peso corporal saudável.

Problemas dermatológicos

  • Atopia (alergia cutânea)
- Causas: Ácaros, pólen, mofo.

- Manejo: Banhos com shampoo antialérgico, uso de medicação antihistamínica ou ciclosporina sob prescrição, e limpeza regular do ambiente (cama, tapetes).

  • Dermatite de contato
- Causas: Produtos de limpeza, plantas tóxicas.

- Prevenção: Utilizar produtos específicos para pets e observar reações após novos contatos.

Problemas oculares

  • Ceratite e úlceras corneanas
- Sinais: Vermelhidão, lacrimejamento excessivo, sensibilidade à luz.

- Cuidados: Limpeza delicada com solução fisiológica e consulta imediata ao veterinário.

  • Progressão de catarata precoce (rara)
- Manejo: Exames oftalmológicos anuais; cirurgia pode ser considerada em casos avançados.

Doenças sistêmicas

  • Hipotireoidismo
- Sintomas: Ganho de peso, pelagem opaca, letargia.

- Diagnóstico: Exames de sangue (T4 livre).

  • Diabetes mellitus tipo 1 (menos frequente)
- Sinais: Poliúria, polidipsia, perda de peso.

Estratégias preventivas gerais

  • Programa de vacinação completo (incluindo leptospirose, que tem alta incidência em áreas rurais).
  • Exames de sangue anuais para detectar alterações metabólicas precoce.
  • Radiografias ortopédicas a cada 2‑3 anos, especialmente em cães que praticam esportes de alta carga (agility, canicross).
  • Check‑up oftalmológico a cada 12‑18 meses.
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6. Treinamento e Comportamento

Princípios do adestramento positivo

  • Reforço imediato: Utilizar petiscos de alta palatabilidade (ex.: pedaços de frango cozido) ou elogios vocais assim que o comportamento desejado for exibido.
  • Consistência: Todos os membros da família devem aplicar os mesmos comandos e recompensas para evitar confusão.
  • Curto e frequente: Sessões de 5‑10 minutos, 2‑3 vezes ao dia, mantêm a atenção do cão sem gerar fadiga.

Socialização precoce


  • Idade ideal: Entre 3 e 14 semanas. Expor o filhote a diferentes sons, superfícies (grama, asfalto, areia) e pessoas.
  • Método: Encontros controlados com cães de temperamento estável; evitar interações com cães agressivos que possam gerar trauma.

Problemas comportamentais frequentes

  • Destruição por tédio
- Causa: Falta de estímulo físico e mental.

- Solução: Rotina de caminhadas, brinquedos interativos (puzzle, Kong recheado) e treinamento de truques.

  • Latidos excessivos
- Causa: Ansiedade de separação ou alerta excessivo.

- Abordagem: Treinar “quieto” usando reforço positivo, e praticar períodos curtos de ausência gradualmente aumentando o tempo.

  • Puxar na coleira
- Técnica: “Heel” (caminhada ao lado) usando clicker ou clicker‑training, recompensando o posicionamento correto a cada passo.

Atividades recomendadas para a raça

  • Agility: Excelente para canalizar energia e melhorar a coordenação.
  • Canicross: Caminhada ou corrida com o cão preso a uma cinta; fortalece vínculo e condiciona o animal.
  • Obediência avançada: Comandos como “fetch”, “roll over” e “stay” mantêm o cérebro ativo.

Saúde mental e bem‑estar


  • Rotina previsível: Reduz ansiedade.
  • Tempo de qualidade: Brincadeiras de busca, sessões de afeto e massagem suave ajudam a liberar ocitocina, fortalecendo o vínculo emocional.
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7. Dicas Práticas para Tutores

Área
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Exercício
30 min de manhã + 30 min à tarde, alternando ritmo (caminhada leve + trote).
Alimentação
Uma porção deve caber na palma da mão do tutor (aprox. 100 g).
Higiene
Remove pelos soltos e reduz a quantidade de água necessária.
Saúde
Marque a data na agenda e defina lembretes 30 dias antes.
Treinamento
Clique imediatamente após o comportamento desejado, antes de dar a recompensa.
Socialização
Escolha grupos de tutores experientes e com cães vacinados.
Prevenção
Evita proliferação de bactérias, principalmente em dias quentes.
Cuidados dentários
Limpa placa bacteriana e ainda satisfaz a necessidade de mastigar.

Checklist mensal do tutor

  • [ ] Verificar peso e condição corporal (escala de 1‑9).
  • [ ] Trocar a ração por uma nova marca (se necessário) e observar reações.
  • [ ] Revisar a integridade da coleira, guia e brinquedos.
  • [ ] Aplicar tratamento antipulgas conforme calendário.
  • [ ] Realizar escovação diária nos dias de troca de pelagem.
  • [ ] Avaliar sinais de dor nas articulações (especialmente após exercício intenso).
  • [ ] Planejar uma atividade nova (ex.: pista de obstáculos) para estimular mentalmente.

Estratégias para emergências

  • Primeiros socorros: Tenha um kit com gaze, antisséptico, compressas frias e solução fisiológica.
  • Número de veterinário 24 h: Salve no celular.
  • Identificação: Microchip e coleira com telefone de contato atualizado.
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8. Considerações Finais

Cuidar de um Cão Pastor Islandês é, antes de tudo, assumir um compromisso de amor, atenção e responsabilidade. Sua energia contagiante, inteligência e natureza afetuosa trazem alegria para o lar, mas também exigem um planejamento cuidadoso para prevenir os problemas de saúde mais comuns à raça. Ao adotar uma abordagem preventiva – baseada em vacinação em dia, controle rigoroso de parasitas, nutrição balanceada e exercícios adequados – o tutor diminui significativamente a incidência de doenças ortopédicas, dermatológicas e oculares que podem comprometer a qualidade de vida do animal.

Além dos cuidados físicos, investir tempo em treinamento positivo, socialização precoce e estímulo mental fortalece o vínculo entre cão e tutor, reduzindo comportamentos indesejados e promovendo bem‑estar emocional. As dicas práticas apresentadas aqui foram pensadas para serem fáceis de aplicar no dia a dia corrido dos brasileiros, sem abrir mão da eficácia.

Lembre‑se de que cada cão é único; o que funciona para um Pastor Islandês pode precisar de ajustes para outro. Por isso, mantenha sempre uma comunicação aberta com o veterinário, compartilhe observações sobre comportamento, apetite e nível de energia, e ajuste o plano de cuidados conforme necessário. Quando o amor e a ciência caminham juntos, a jornada ao lado desse companheiro incrível se torna ainda mais gratificante, proporcionando anos de aventuras, lealdade e momentos inesquecíveis.

Cuide, ame e celebre a vida do seu Pastor Islandês – ele está pronto para ser seu parceiro de todas as jornadas!