1. Introdução

Os Greyhounds, conhecidos como “os corredores da nobreza”, são cães de porte médio a grande, com um aspecto elegante e uma história que remonta a milhares de anos. Originários da Antiguidade, eram usados em corridas de caça e, mais tarde, em corridas de pista, onde ganharam fama por sua velocidade impressionante – podem alcançar até 72 km/h em curtos trechos. Hoje, muitos desses atletas de quatro patas foram resgatados de pistas de corrida e encontram um novo lar como animais de companhia. Essa transição traz desafios específicos que exigem atenção dos tutores, sobretudo porque o metabolismo, a estrutura óssea e as predisposições genéticas do Greyhound diferem de outras raças.

No Brasil, o número de tutores de Greyhound tem crescido, impulsionado por campanhas de adoção e pela popularização de cães de alta performance que, paradoxalmente, são também excelentes “couch‑potatoes” quando a corrida termina. Contudo, o desconhecimento sobre as necessidades físicas e emocionais desses cães pode levar a problemas de saúde evitáveis, como displasia coxofemoral, doenças cardíacas ou problemas dermatológicos. Por isso, este guia foi elaborado com base em literatura veterinária atual, protocolos de manejo de raças atléticas e experiência prática de profissionais que lidam diariamente com Greyhounds.

Nos próximos capítulos, vamos abordar de forma detalhada as características que definem o Greyhound, os cuidados essenciais para garantir conforto e segurança, a alimentação ideal para sustentar seu metabolismo veloz, estratégias de prevenção de doenças, métodos de treinamento que respeitam seu temperamento, e dicas práticas que facilitam o dia a dia do tutor. O objetivo é criar um material acessível, empático e fundamentado, que ajude você a construir uma relação de confiança, respeito e bem‑estar com seu companheiro de quatro patas. Seja você um tutor de primeira viagem ou já experiente, encontrará aqui informações úteis para tomar decisões conscientes e proporcionar ao seu Greyhound uma vida longa, saudável e feliz.


2. Características Principais

Aparência física


  • Morfologia aerodinâmica – Corpo longo, peito profundo, costelas curvadas e membros traseiros poderosos.
  • Pelagem – Curta, lisa e extremamente fina; cores variam entre preto, azul, vermelho, chocolate, branco e combinações apricot/cream.
  • Pele – Muito fina e quase translúcida, o que explica a sensibilidade ao frio e a necessidade de proteção contra superfícies ásperas.

Temperamento e personalidade


  • Calmo e afetuoso – Apesar da fama de “cão corredor”, o Greyhound costuma ser tranquilo em casa, preferindo momentos de descanso ao lado do tutor.
  • Sensibilidade – São cães que percebem bem o tom de voz e a linguagem corporal, reagindo de forma mais delicada a mudanças bruscas no ambiente.
  • Instinto de caça – Possuem forte impulso de perseguição, o que pode se manifestar em corridas repentinas se houver oportunidade (ex.: um gato, um brinquedo que se move).

Necessidades de exercício


  • Curto, porém intenso – Uma corrida de 10‑15 minutos, duas a três vezes por semana, costuma ser suficiente para descarregar e manter a musculatura em forma.
  • Tempo de recuperação – Depois de esforço, o Greyhound precisa de um período de descanso; a fadiga se apresenta rapidamente, ao contrário de raças mais resistentes.

Saúde geral


  • Expectativa de vida – 10 a 14 anos, dependendo dos cuidados preventivos e da genética.
  • Predisposições genéticas – Maior risco de displasia coxofemoral, osteocondrite, cardiomiopatia dilatada e alergias cutâneas.

Adaptabilidade ao ambiente brasileiro


  • Sensibilidade ao frio – Em regiões sul ou em ambientes com ar‑condicionado, o Greyhound pode precisar de roupinhas leves ou cobertores.
  • Tolerância ao calor – Por ter pouca pelagem, ele dissipa calor rapidamente, mas ainda assim necessita de sombra e hidratação adequada nos dias mais quentes.
Essas características formam a base para os cuidados que serão detalhados nos próximos tópicos. Conhecer a fisiologia e o comportamento natural do Greyhound permite ao tutor criar um ambiente que respeite suas necessidades, reduzindo o risco de lesões e promovendo um vínculo mais forte e saudável.


3. Cuidados Essenciais

Ambiente doméstico


  • Superfícies macias – Evite pisos de cerâmica fria ou tapetes de lã grossa que podem machucar a pele delicada. Preferencialmente, use tapetes de algodão ou pisos de madeira bem polidos.
  • Temperatura controlada – Mantenha a casa entre 20 °C e 24 °C. Em regiões mais frias, ofereça roupinhas leves ou cobertores nos cantos onde o cão costuma repousar.
  • Espaço de descanso – Uma cama ortopédica com espuma de memória ajuda a aliviar a pressão nas articulações, especialmente importante para prevenir ou minimizar a dor em casos de displasia.

Higiene e cuidados com a pele


  • Banhos – De 1 a 2 vezes por mês; use shampoos neutros, sem fragrâncias fortes, que não removam a camada natural de óleos.
  • Secagem – Seque bem as orelhas e as áreas entre as patas para evitar infecções fúngicas.
  • Proteção solar – Em dias de sol intenso, aplique protetor solar específico para cães nas áreas menos cobertas (nariz, orelhas e abdômen).

Saúde dentária


  • Escovação – Pelo menos 3 vezes por semana, com escova de cerdas macias e pasta dental própria para cães.
  • Mastigação – Brinquedos de borracha dura ou ossos de couro cru ajudam a reduzir o acúmulo de tártaro.

Controle de parasitas


  • Pulgas e carrapatos – Use produtos de ação prolongada (spot‑on ou coleira) recomendados pelo veterinário. Realize a aplicação conforme a periodicidade indicada (geralmente mensal).
  • Vermes internos – Desparasitação preventiva a cada 3‑6 meses, com base em exames de fezes.

Visitas regulares ao veterinário


  • Check‑up anual – Avaliação ortopédica, cardiológica (ecocardiograma em raças predispostas) e exames de sangue para rastrear níveis de colesterol e função hepática.
  • Vacinação – Programa completo (cinomose, parvovirose, hepatite, raiva, leptospirose e, pois, bordetella).

Socialização e segurança


  • Cadeia ou cercado – Quando deixar o cão em área externa, certifique‑se de que não haja buracos ou superfícies que possam causar lesões nas patas.
  • Cinto de segurança – Em viagens de carro, use cinto adaptado ou caixa de transporte; Greyhounds são sensíveis a movimentos bruscos e podem se lesionar se não estiverem adequadamente contidos.
Essas práticas diárias criam uma base sólida para a saúde física e emocional do Greyhound, reduzindo a incidência de problemas comuns e facilitando a identificação precoce de alterações que exigem intervenção veterinária.


4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas


  • Metabolismo moderado – Apesar da velocidade, o Greyhound tem um gasto energético relativamente baixo em repouso, devido à baixa massa muscular em comparação com outras raças atléticas.
  • Calorias diárias – Em média, 30‑35 kcal/kg de peso corporal, ajustando conforme nível de atividade, idade e condição corporal (ideal: escore de condição corporal (ECC) entre 4 e 5).

Macro‑nutrientes


Nutriente
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Proteína
Manutenção muscular, reparação de tecidos
Gordura
Fonte de energia, saúde da pele e pelagem
Carboidrato
Energia de liberação gradual, fibra para trânsito intestinal

Fontes de proteína de alta qualidade

  • Carne magra (frango, peru, peru desfiado)
  • Peixe (salmão, sardinha – ricos em Ômega‑3)
  • Ovos – boa fonte de aminoácidos essenciais e biotina para a pelagem.

Suplementação recomendada


  • Ácidos graxos essenciais – Óleo de peixe 1 g/kg de alimento, principalmente em períodos de inverno para melhorar a resistência ao frio e a saúde cutânea.
  • Glucosamina + Condroitina – 500 mg/10 kg de peso corporal, administrados diariamente para suporte articular, principalmente em cães acima de 6 anos ou com histórico familiar de displasia.

Alimentação dividida


  • Filhotes (até 12 meses) – 3 refeições/dia, com alimentos formulados para crescimento rápido e suporte ósseo (incluindo DHA).
  • Adultos – 2 refeições diárias, mantendo intervalos regulares (ex.: 08 h e 18 h).
  • Sêniores (> 10 anos) – 2 refeições, com redução de calorias e aumento de fibras para evitar obesidade e constipação.

Evitar alimentos problemáticos


  • Excesso de carboidratos simples (pão branco, arroz branco) – podem levar ao ganho de peso rápido.
  • Alimentos ricos em sódio – aumentam risco de hipertensão e problemas cardíacos.
  • Produtos tóxicos – chocolate, uvas, cebola, alho e xilitol.

Estratégias práticas de alimentação


  • Medição precisa – Use de xícaras ou balança para garantir a quantidade correta, evitando “adivinhar” por volume.
  • Transição gradual – Quando mudar de ração, faça a troca em 7‑10 dias, misturando de 10 % da nova ração até 100 % para evitar distúrbios gastrointestinais.
  • Água fresca – Disponibilize água limpa em abundância; Greyhounds podem beber mais em dias de calor intenso.
A nutrição adequada não só mantém o Greyhound em forma, mas também influencia diretamente na saúde das articulações, na qualidade da pelagem e na prevenção de doenças metabólicas, como a hipoglicemia transitória que alguns filhotes apresentam.


5. Saúde e Prevenção

Doenças ortopédicas

Patologia
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Displasia coxofemoral
Controle de peso, suplementação de glucosamina, exercícios de baixo impacto (natação)
Osteocondrite (ou osteocondrite dissecans)
Evitar corridas em superfícies duras, manter a dieta equilibrada para evitar crescimento excessivo rápido
Artrite degenerativa
Suplementação de Ômega‑3, fisioterapia regular, controle de temperatura (ambiente quente)

Problemas cardíacos

  • Cardiomiopatia dilatada – Predisposição genética em Greyhounds. Exames de ecocardiograma a partir dos 2 anos ajudam a detectar alterações precoces.
  • Prevenção – Dieta com níveis adequados de taurina, controle de peso e atividade física moderada.

Dermatite e alergias cutâneas


  • Causas – Sensibilidade a pulgas, alimentos ou irritantes ambientais. A pele fina facilita o surgimento de irritações.
  • Cuidados – Banhos mensais com shampoo hipoalergênico, uso de condicionador leve, escovação semanal para remover pelos mortos e verificar irritações.

Problemas oculares


  • catarata precoce e pterígio podem aparecer em alguns indivíduos. Manter o rosto limpo e evitar exposição prolongada a ventos fortes ajuda a reduzir o risco.

Saúde dental


  • Placa e tártaro – Podem levar à periodontite, que afeta a saúde geral. Escovação regular e brinquedos mastigáveis são essenciais.

Vacinação e exames preventivos


  • Calendário vacinal – Primeira dose aos 8 semanas, reforços a cada 3‑4 semanas até 16 semanas, depois um reforço anual.
  • Exames de sangue – Avaliar função renal, hepática e níveis de colesterol a cada 2‑3 anos, especialmente em cães acima de 8 anos.

Estratégias de prevenção geral


  • Manutenção do peso ideal – Cada 1 kg a mais aumenta exponencialmente o risco de displasia e artrite.
  • Exercício controlado – Corridas curtas em gramado ou pista de areia, evitando superfícies ásperas que podem causar micro‑lesões.
  • Ambiente livre de estresse – Remover objetos pontiagudos ou quentes do espaço de brincadeira.
  • Monitoramento de comportamento – Qualquer mudança no apetite, nível de energia ou postura deve ser comunicada ao veterinário imediatamente.
A prevenção proativa, aliada a visitas regulares ao profissional de saúde animal, permite detectar alterações subclínicas, iniciar tratamentos precoces e maximizar a qualidade de vida do Greyhound.


6. Treinamento e Comportamento

Perfil comportamental


  • Temperamento calmo – O Greyhound costuma ser “cão sofá”, apreciando longos períodos de descanso.
  • Instinto predatório – Reage rapidamente a pequenos movimentos; pode ser impulsivo ao avistar animais de pequeno porte.
  • Sensibilidade ao tom de voz – Responde melhor a comandos suaves e consistentes, ao invés de métodos de reforço negativo.

Princípios de adestramento eficaz


  • Reforço positivo – Utilizar petiscos de alto valor (pedaços de frango cozido, queijo baixo teor de lactose) e elogios verbais.
  • Curto e frequente – Sessões de 10‑15 minutos, 2‑3 vezes ao dia, mantêm a atenção do animal sem gerar fadiga.
  • Consistência – Use as mesmas palavras e gestos para cada comando (ex.: “sentar”, “ficar”, “vir”).

Comandos básicos essenciais


Comando
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Sentar
Pratique antes das refeições para reforçar o hábito
Ficar
Aumente gradualmente a distância e o tempo
Vir
Treine em ambientes com pouca distração antes de progredir para áreas externas

Socialização

  • Exposição precoce – Introduza o filhote a diferentes pessoas, sons (aspirador, carro) e superfícies (grama, cerâmica) entre 8‑12 semanas.
  • Interação com outros animais – Passeios controlados com cães de temperamento estável ajudam a reduzir a propensão a perseguição.

Controle de impulsividade (corrida inesperada)


  • Comando “pare” – Treine em áreas seguras, usando um apito ou palavra curta, recompensando imediatamente quando o cão interrompe a corrida.
  • Uso de coleira curta – Em passeios, mantenha a coleira de 1 m, permitindo ao tutor corrigir rapidamente a direção.

Enriquecimento mental


  • Brinquedos de puzzle – Distribuam petiscos dentro de brinquedos que exigem rotação ou deslocamento, estimulando a solução de problemas.
  • Jogos de busca – Use bolas macias ou frisbees leves em ambientes seguros (gramado, areia).

Problemas comportamentais comuns e soluções


  • Ansiedade de separação – Deixe objetos com seu cheiro (camiseta) e pratique saídas curtas, aumentando gradualmente o tempo longe.
  • Latidos excessivos – Identifique gatilhos (portas, buzinas) e use comandos de “silêncio” associados a recompensas.

Treinamento avançado (opcional)


  • Obediência avançada – “Fique” a 10 m, “trazer” objetos específicos.
  • Agilidade leve – Circuitos de baixa altura (túneis, slalom) que trabalham coordenação sem sobrecarregar as articulações.
Lembre‑se de que o Greyhound, apesar de ser