German Wirehaired Pointer: Características e Temperamento

Um companheiro inteligente, energético e cheio de personalidade, que combina a rusticidade de um cão de caça com a lealdade de um grande amigo de família.


1. Introdução

O German Wirehaired Pointer (GWP), também conhecido como Pointeiro de Pelo Duro Alemão, surgiu no final do século XIX na Alemanha, a partir de um cruzamento entre o Pointer Inglês, o Spaniel de Pêlo Duro e o setter irlandês. O objetivo dos criadores era obter um cão de caça versátil, capaz de trabalhar em diferentes tipos de terreno – desde campos abertos até matas densas – e que, ao mesmo tempo, fosse resistente às intempéries.

Hoje, o GWP é reconhecido não apenas como um excelente cão de caça, mas também como um animal de estimação que se destaca pela inteligência, energia e forte vínculo com a família. Para tutores brasileiros, que enfrentam climas variados e estilos de vida que vão do apartamento ao sítio, entender as particularidades dessa raça é fundamental para garantir bem‑estar, saúde e harmonia no convívio diário.

Neste artigo, vamos explorar de forma detalhada as características físicas e comportamentais, os cuidados essenciais, a nutrição adequada, os principais problemas de saúde, além de oferecer dicas práticas de treinamento e curiosidades que ajudam a desmistificar mitos comuns. Tudo isso com linguagem empática, baseada em evidências veterinárias, para que você, tutor, possa proporcionar ao seu German Wirehaired Pointer uma vida plena e feliz.


2. Características Principais

Aparência física

  • Pelagem: O GWP possui um pelo duro e ondulado, com subpelo denso que protege contra frio e água. As cores mais frequentes são preto com manchas brancas, marrom, azul marinho e, em alguns casos, tons de cinza. A camada externa é áspera ao toque, mas não causa irritação ao contato com a pele humana.
  • Tamanho: Machos medem entre 58 – 66 cm de altura na cernelha e pesam de 27 – 38 kg. Fêmeas são ligeiramente menores, com 55 – 63 cm e 22 – 30 kg.
  • Estrutura óssea: Ossatura robusta, peito profundo e cauda em forma de “cerca” (levemente curvada para cima). Essas características conferem ao GWP a resistência necessária para longas jornadas de caça e atividades ao ar livre.

Temperamento e personalidade

  • Inteligência: Classificado entre as raças mais inteligentes (top 15 do Stanley Coren), o GWP aprende rapidamente comandos e tem facilidade para resolver problemas, como encontrar rotas em trilhas ou localizar objetos escondidos.
  • Energia: Altamente ativo, requer pelo menos 2 h de exercício diário – corrida, trilhas, natação ou jogos de busca. Sem estímulo suficiente, pode desenvolver comportamentos indesejados (latidos excessivos, mastigação de objetos).
  • Lealdade e sociabilidade: Formam laços fortes com a família e são protetores, mas não agressivos. Geralmente aceitam bem crianças e outros animais, desde que socializados desde filhotes.
  • Instinto de caça: Possui forte impulso de “apontar” (ficar imóvel ao localizar presas) e de “buscar”. Esses comportamentos permanecem mesmo em cães que não são usados para caça, sendo canalizados em brincadeiras de buscar bolas ou frisbees.

Compatibilidade com o estilo de vida brasileiro

  • Clima: A pelagem densa o protege tanto do calor quanto do frio, sendo adequado para regiões subtropicais e temperadas do Brasil. Em áreas muito quentes, é essencial oferecer sombra, água fresca e evitar exercícios intensos nas horas de pico.
  • Espaço: Embora se adapte a ambientes menores, o GWP necessita de espaço para gastar energia – quintal cercado, parque ou rotina de caminhadas. Em apartamentos, a falta de estímulo pode gerar frustração.
---

3. Cuidados Essenciais

Higiene e escovação

  • Escovação semanal: Use uma escova de cerdas firmes para remover pelos mortos e evitar nós. A escovação regular estimula a circulação cutânea e diminui a queda de pelos.
  • Banho: Não é necessário banhar o GWP com frequência; um banho a cada 2 – 3 meses ou quando estiver realmente sujo é suficiente. Use shampoo neutro para cães, preferencialmente com ação hidratante, evitando produtos com álcool ou fragrâncias fortes que podem irritar a pele.

Cuidados com as orelhas

  • Limpeza semanal: Devido ao pelo longo e denso nas orelhas, há tendência a acúmulo de cera e umidade, favorecendo otites. Limpe com solução de limpeza auditiva recomendada por veterinário e seque delicadamente com algodão.

Higiene dentária

  • Escovação diária ou ao menos 3‑4 vezes por semana com creme dental próprio para cães. A escovação preventiva reduz a formação de tártaro, gengivite e mau hálito, problemas comuns em raças de médio a grande porte.

Exercício físico

  • Rotina mínima: 60‑90 minutos de atividade moderada a intensa, divididos em duas sessões – manhã e tarde. Inclua corridas, jogos de busca, trilhas e, se possível, natação (o GWP adora água).
  • Variedade: Alterne os tipos de exercício para evitar a monotonia e estimular diferentes grupos musculares.

Socialização

  • Primeiros 3‑4 meses: Exponha o filhote a diferentes pessoas, ambientes, sons (trânsito, trovões) e outros animais. A socialização precoce reduz o risco de medo excessivo e agressividade laterais.

Espaço seguro

  • Cercado ou área delimitada: Caso tenha quintal, mantenha o perímetro seguro – cerca alta e sem buracos. O GWP tem forte instinto de “perseguir” e pode fugir se perceber uma oportunidade.
---

4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

  • Cães adultos ativos (25‑35 kg): 1500‑2000 kcal/dia, distribuídas em duas refeições. Filhotes em fase de crescimento podem precisar de até 30 % a mais.
  • Ajuste de acordo com atividade: Cães que trabalham (caça, esportes) podem demandar até 2500 kcal/dia.

Macro e micronutrientes

Nutriente
-----------
-------------------
Proteína de alta qualidade (≥ 22 % para adultos)
Carne bovina magra, frango, peixe, ovos
Gordura (8‑12 % para manutenção)
Óleos de peixe, óleo de linhaça
Carboidratos complexos
Arroz integral, batata doce, aveia
Ácidos graxos ômega‑3
Óleo de peixe, linhaça
Vitamina E & Selênio
Suplementos específicos ou rações balanceadas
Cálcio e fósforo
Farinha de ossos, suplementos de cálcio (sob orientação)

Tipo de alimentação

  • Ração de alta qualidade: Prefira marcas que ofereçam fórmulas específicas para cães ativos ou de trabalho, com proteína animal como primeiro ingrediente e níveis adequados de gordura.
  • Alimentação natural (BARF ou caseira): Pode ser feita, mas requer planejamento nutricional para evitar deficiências. Consulte veterinário ou nutricionista de animais para montar a dieta balanceada.

Frequência e horário

  • Filhotes (até 6 meses): 3‑4 refeições ao dia, pequenas porções.
  • Adultos: 2 refeições diárias, idealmente 12 h de intervalo para evitar sobrecarga gástrica.
  • Idosos (> 8 anos): Reduza a quantidade de gordura e calorias se houver diminuição de atividade, mantendo a proteína para preservar massa muscular.

Hidratação

  • Água fresca sempre disponível. Cães ativos perdem muita água, principalmente em climas quentes. A hidratação adequada previne cálculos renais e problemas urinários.

Suplementação (quando necessária)

  • Ômega‑3: Em casos de pele sensível ou inflamações articulares.
  • Glucosamina + Condroitina: Para cães predispostos a displasia coxofemoral ou artrite precoce (consultar veterinário).
  • Probióticos: Quando houver episódios de diarreia ou uso prolongado de antibióticos.
---

5. Saúde e Prevenção

Principais problemas de saúde

Doença
--------
----------------------
Displasia Coxofemoral (DC)
Seleção genética, controle de peso, exercícios controlados; tratamento pode incluir fisioterapia, anti‑inflamatórios ou cirurgia.
Hipotireoidismo
Teste de T4 anual; reposição hormonal sintética.
Problemas oculares (catarata, ceratoconjuntivite seca)
Exames oftalmológicos regulares; uso de colírios lubrificantes se necessário.
Otite (infecção de orelha)
Limpeza regular das orelhas, secagem após banho.
Alergias cutâneas
Identificação do alérgeno (alimentos, ácaros), dieta hipoalergênica ou medicação.
Túbulos renais e cálculos urinários
Hidratação adequada, dieta com baixo teor de minerais solúveis, acompanhamento veterinário regular.

Vacinação e vermifugação

  • Vacinas essenciais: V8 (cinomose, parvovirose, adenovírus, parainfluenza) + Raiva. Em regiões com leptospirose, inclua a vacina contra Leptospira.
  • Calendário: Primeira dose aos 6‑8 semanas, reforço a cada 3‑4 semanas até 16 semanas, depois revacinação a cada 1‑3 anos, conforme protocolo do veterinário.
  • Vermifugação: Mensal para filhotes (até 6 meses) e a cada 3 meses para adultos, ajustando para a frequência de contato com ambientes externos.

Exames preventivos

  • Exame físico anual: Avaliação ortopédica, auditiva, ocular e dentária.
  • Hemograma e bioquímica: A cada 1‑2 anos, especialmente em cães acima de 7 anos.
  • Radiografias ortopédicas: A partir dos 2 anos, para detecção precoce de DC ou outras alterações articulares.

Cuidados preventivos diários

  • Controle de peso: Obesidade aumenta risco de DC, doenças cardíacas e diabetes.
  • Escovação regular: Previne nós e irritações cutâneas.
  • Proteção contra parasitas externos: Coleiras ou spot‑on contra carrapatos e pulgas, especialmente nas áreas de mata.
---

6. Treinamento e Comportamento

Princípios básicos

  • Reforço positivo: Use petiscos, elogios e brincadeiras como recompensa. Cães de caça respondem bem a estímulos que associam esforço a recompensa.
  • Consistência: Mantenha comandos claros e consistentes entre todos os membros da família.
  • Curto e frequente: Sessões de 5‑10 minutos, várias vezes ao dia, evitam fadiga mental.

Comandos essenciais

Comando
---------
-----------------
“Sentado”
Use petisco acima da cabeça para induzir o movimento.
“Fica”
Comece a curta distância, aumente gradualmente.
“Vem”
Treine com grande recompensa, pratique em áreas seguras.
“Apontar”
Use brinquedo com cheiro, recompense ao ficar parado.
“Buscar”
Inicie com objetos leves, aumente a distância.

Socialização avançada

  • Cães de caça: Exponha a diferentes tipos de caça (pássaros, coelhos) usando brinquedos que imitam presas.
  • Ambientes urbanos: Leve o cão ao parque, ao supermercado (carrinho) e ao carro. A familiaridade reduz ansiedade em viagens de campo.

Problemas comportamentais comuns e soluções

Problema
----------
----------------------
Latidos excessivos
Aumentar atividade física, oferecer brinquedos de “distração”.
Mastigação de objetos
Crie “tempo de trabalho” (jogos de busca) antes de sair de casa.
Puxar na coleira
Treino de “caminhada ao lado” usando clicker e reforço positivo.
Fuga
Reforçar comando “vem”, usar cercas seguras, microchip e coleira de identificação.

Esportes caninos recomendados

  • Agility: Estimula agilidade, obediência e vínculo.
  • Canicross: Corrida com o cão, ótima para quem pratica atividade física ao ar livre.
  • Treino de apontar (field trials): Permite que o GWP exerça seu instinto natural de caça em ambiente controlado.
---

7. Dicas Práticas para Tutores

  • Planeje a rotina de exercícios antes de adotar: O GWP não se adapta bem a um estilo de vida sedentário. Se sua agenda é cheia, contrate um passeador de cães ou inscreva-se em grupos de canicross.
  • Invista em um bom equipamento: Coleira de treinamento (não de estrangulamento), guia de 2 m, brinquedos resistentes (bolas de borracha dura) e um cama ortopédica para proteger as articulações.
  • Mantenha um calendário de saúde digital: Use aplicativos de lembrete para vacinas, vermifugação, consultas e trocas de alimento.
  • Alimente antes do treino, mas não imediatamente: Ofereça a refeição principal 1‑2 h antes da atividade intensa para evitar torção gástrica.
  • Faça “check‑in” mental diário: Observe sinais de estresse (abafo excessivo, lambedura compulsiva) e ajuste a carga de exercícios.
  • Ensine a “porta do carro” como zona segura: Muitos GWPs adoram viajar, mas podem ficar ansiosos. Use petiscos para associar a porta do carro a experiências positivas.
  • Proteja as patas em superfícies quentes: No verão, caminhe nas primeiras horas da manhã ou à noite e use protetores de pata se o asfalto estiver muito quente.
  • Aproveite a água: O GWP adora nadar. Se houver piscina ou lago próximo, introduza o cão gradualmente, sempre supervisionando.
  • Faça sessões de “descompressão” após o treino: Massagem leve nas costas e alongamento ajudam a prevenir lesões musculares.
  • Registre momentos e progressos: Fotos, vídeos e anotações sobre aprendizados facilitam a avaliação de evolução e fortalecem o vínculo.
---

8. Curiosidades e Mitos

  • Curiosidade: O GWP foi criado para ser “cão de tudo”, capaz de apontar, rastrear, recuperar e até nadar com carga. Essa versatilidade o tornou um dos poucos cães que ainda são usados em competições de “field trials” na Europa.
  • Mito 1 – “É um cão agressivo”: Na verdade, o GWP é amigável e protetor, mas não possui tendência natural à agressividade. O comportamento indesejado geralmente decorre de falta de socialização ou excesso de energia.
  • Mito 2 – “Precisa ser alimentado apenas com carne crua”: Embora sua origem como cão de caça sugira uma dieta rica em proteína, o GWP pode prosperar com rações comerciais balanceadas ou dietas caseiras bem formuladas, desde que atendam às necessidades nutricionais.