Estenose Pilórica em Cães: Vômito Projectil e Obstrução de Saída Gástrica
A estenose pilórica é uma obstrução da saída do estômago (piloro) para o duodeno — pode ser congênita (hipertrofia muscular do piloro, comum em braquicéfalos) ou adquirida (hipertrofia mucosa crônica, mais comum em cães de meia-idade e idosos). Vômito projectil de conteúdo não bilioso (não amarelo) é o sinal clássico. Diagnóstico por radiografia contrastada ou endoscopia. Tratamento cirúrgico (piloromiotomia de Fredet-Ramstedt ou piloroplastia) tem excelente prognóstico.
O filhote de Buldogue tinha três meses e comia com apetite voraz.
Mas o alimento voltava. Projectil. Sem amarelo. Logo após a refeição.
O estômago tentava esvaziar. O piloro espessado não deixava.
Vômito não-bilioso. Sinal clássico. Raio-X com bário confirmou.
A piloromiotomia durou 45 minutos. A musculatura abriu. O lúmen ampliou.
Três semanas depois, o Buldogue não vomitava mais.
Tipos de Estenose Pilórica Canina
| Tipo | Forma | Raças Predispostas | Início dos Sinais | |---|---|---|---| | Congênita (HMP) | Hipertrofia muscular | Braquicéfalos, Dachshund | 4-12 semanas de vida | | Adquirida | Hipertrofia mucosa/muscular crônica | Médio-porte, meia-idade/idoso | Progressivo em meses | | Espasmo funcional | Espasmo sem hipertrofia real | Qualquer | Variável — responde a procinéticos |
Diagnóstico — Achados por Exame
| Exame | Achado Típico | Utilidade | |---|---|---| | Raio-X simples | Estômago distendido | Suspeita OGO | | Raio-X contrastado | Contraste retido — não passa para duodeno | Confirma OGO — útil e acessível | | Endoscopia | Piloro espessado, lúmen estreitado | Mais definitivo + biópsia | | Ultrassom | Espessura parede > 3-4 mm | Útil — operador dependente | | Eletrólitos | Alcalose hipoclorêmica | Reflete severidade |
Tratamento Cirúrgico
| Técnica | Indicação | Princípio | |---|---|---| | Piloromiotomia Fredet-Ramstedt | Forma congênita | Incisão muscular — mucosa intacta | | Piloroplastia Heineke-Mikulicz | Forma adquirida com hipertrofia mucosa | Incisão longitudinal → fechamento transversal | | Ressecção mucosa | Hipertrofia mucosa severa / neoplasia | Remoção da mucosa em excesso |
Prognóstico: >90% de recuperação completa com cirurgia precoce
Perguntas frequentes
O que é a estenose pilórica em cães e quais são os tipos?+
A estenose pilórica é uma obstrução funcional ou anatômica do piloro — a válvula muscular que controla a passagem do conteúdo gástrico para o duodeno (primeira porção do intestino delgado). Anatomia relevante: o estômago tem duas aberturas — o cárdia (entrada do esôfago) e o piloro (saída para o duodeno); o piloro é uma musculatura circular que se contrai e relaxa para regular o esvaziamento gástrico; na estenose pilórica: o piloro fica tão espessado ou estreitado que o conteúdo não consegue passar normalmente → acúmulo gástrico → vômito; Tipos de estenose pilórica canina: Forma congênita (Hipertrofia Muscular Pilórica): hipertrofia (espessamento) da musculatura circular do piloro desde o nascimento; vômito inicia-se com a introdução de alimento sólido (4-6 semanas de vida); raças predispostas: Buldogue Inglês, Buldogue Francês, Boston Terrier, Boxer, Shih Tzu, Lhasa Apso — braquicéfalos em geral; também: Dachshund miniatura (predisposição moderada); machos: ligeiramente mais afetados; Forma adquirida (Hipertrofia Mucosa ou Muscular Crônica): espessamento progressivo do piloro ao longo do tempo; causa: úlceras gástricas crônicas, gastrinoma (tumor secretor de gastrina), estresse crônico, refluxo duodenogástrico crônico; raças de meia-idade a idosas: Labrador, Golden, Pastor Alemão; mais comum do que a forma congênita no Brasil; A obstrução de saída gástrica (OGO): a estenose pilórica é a causa mais comum de obstrução de saída gástrica em cães; outras causas de OGO: corpo estranho no piloro, neoplasia pilórica, espasmo pilórico funcional.
Quais são os sinais clínicos e como diagnosticar a estenose pilórica?+
O sinal clínico marcante é o vômito projectil — explosivo, de conteúdo não bilioso, geralmente logo após a refeição. Sinais clínicos: Vômito projectil: ocorre logo após comer — geralmente 30min a 2h após a refeição; conteúdo: alimento parcialmente digerido, NÃO bilioso (não amarelo/verde) — isso distingue da obstrução intestinal distal onde o vômito é bilioso; 'projectil': força de expulsão alta — o conteúdo sai com energia; frequência: múltiplos episódios por dia; Perda de peso progressiva: o cão não absorve nutrientes adequadamente — emagrecimento progressivo; Apetite preservado: diferente de outras doenças — o cão tem fome mas vomita; Distensão gástrica: o estômago fica cheio (não esvazia) → distensão epigástrica palpável; Desidratação: perda de líquidos pelo vômito crônico; Alcalose metabólica hipoclorêmica: perda de HCl (ácido clorídrico) pelo vômito → hipocloremia + hiponatremia + hipocalemia → alcalose metabólica; achado laboratorial típico; Diagnóstico: Radiografia simples: estômago distendido com alimento retido — suspeita de OGO; Radiografia contrastada (seriada com bário): o contraste fica retido no estômago — não passa pelo piloro → confirmação; o 'sinal do tricô' ou 'sinal do fil de bário': contraste estreito passando pelo piloro espessado; Endoscopia: visualização direta do piloro — mucosa espessa, lúmen estreitado — o mais definitivo; permite biópsia (descartar neoplasia); Ultrassonografia: espessura da parede pilórica > 3-4 mm: sugestivo de hipertrofia; Exames laboratoriais: hemograma (desidratação), eletrólitos (alcalose hipoclorêmica), função renal (uremia pré-renal pela desidratação).
Qual é o tratamento da estenose pilórica em cães?+
O tratamento da estenose pilórica estrutural é cirúrgico — com excelente prognóstico quando realizado antes de deterioração severa. Estabilização pré-cirúrgica (obrigatória): corrigir desidratação com fluido IV (NaCl 0,9% ou Ringer Lactato); corrigir alcalose metabólica hipoclorêmica: NaCl 0,9% + KCl (reposição de cloreto e potássio); jejum: estômago deve estar vazio para cirurgia; avaliação eletrolítica: cão deve estar estável antes da cirurgia — cirurgia de urgência em cão desidratado e com alcalose tem risco maior; Opções cirúrgicas: Piloromiotomia de Fredet-Ramstedt: a mais conservadora; incisão longitudinal na musculatura pilórica sem penetrar a mucosa; a musculatura se abre (as bordas se afastam) → lúmen pilórico ampliado; não fecha o corte — fica aberto; menor risco de contaminação; eleita para forma congênita; Piloroplastia (técnica de Heineke-Mikulicz): incisão longitudinal em toda espessura da parede + fechamento transversal → amplia o lúmen; mais indicada para forma adquirida com hipertrofia mucosa; Pilorotomia com ressecção: para casos com neoplasia ou hipertrofia mucosa severa — ressecção da mucosa em excesso; Prognóstico: excelente (>90% de recuperação completa) quando realizado em cão estável e com diagnóstico precoce; forma congênita: recuperação em 2-4 semanas com dieta de transição progressiva; forma adquirida: depende da causa subjacente; Tratamento médico (alternativa temporária): metoclopramida ou cisaprida (procinéticos): melhoram o esvaziamento gástrico parcialmente; não resolvem a hipertrofia estrutural — apenas gerenciam sintomas; indicados enquanto aguarda cirurgia ou em formas leves funcionais (espasmo pilórico).
Como suspeitar de estenose pilórica em filhote braquicéfalo e o que fazer?+
O padrão clínico típico em filhote braquicéfalo com estenose congênita é altamente reconhecível — suspicácia precoce muda o prognóstico. Padrão clínico típico do filhote: Buldogue, Boston, Boxer ou Shih Tzu entre 4-12 semanas; vômito começa com a transição para ração úmida ou sólida; vômito projectil logo após comer — não-bilioso; o filhote tem fome, mama ou come com vontade — mas vomita em minutos a horas; progressão: perda de peso, fraqueza, desidratação; O que fazer: consulta veterinária urgente — o filhote desidratando é emergência; radiografia contrastada ou endoscopia: diagnóstico definitivo; não esperar: a estenose congênita não resolve espontaneamente; cirurgia precoce: melhor resultado antes de deterioração nutricional severa; Cuidados pós-operatórios: dieta líquida (ração úmida diluída em água) nas primeiras 24-48h; progressão gradual para ração úmida depois para ração seca em 2-3 semanas; refeições pequenas e frequentes (3-4x/dia) nas primeiras semanas; monitorar vômito pós-operatório: algum vômito residual é normal nos primeiros dias; Diagnóstico diferencial: refluxo gastroesofágico: regurgitação (não vômito) — conteúdo sai sem esforço abdominal; megaesôfago: conteúdo não digerido, sem conteúdo gástrico; hénia de hiato: regurgitação e vômito; corpo estranho: agudo, histórico de ingestão; gastroenterite: febre, diarreia, vômito bilioso frequente; Raças mais afetadas pela forma congênita: Buldogue Inglês e Francês, Boston Terrier, Boxer, Lhasa Apso, Shih Tzu — qualquer braquicéfalo; e também Dachshund miniatura (crônica adquirida).
Continue lendo
Torção Esplênica em Cães: Emergência Cirúrgica Abdominal
A torção esplênica (TE) é a rotação do baço em torno do hilo esplênico, interrompendo o fluxo vascular e causando congestão progressiva e necrose. Pode ocorrer isoladamente (Torção Esplênica Primária) ou associada à Dilatação-Vólvulo Gástrico (DVG). Pastor Alemão de meia-idade: predisposição específica para torção esplênica primária. Sinais: distensão abdominal, dor, anemia hemolítica progressiva, Heinz bodies. Tratamento: esplenectomia de emergência.
Tetralogia de Fallot em Cães: A Cardiopatia Cianótica
A Tetralogia de Fallot (ToF) é uma malformação cardíaca congênita composta de quatro defeitos simultâneos: (1) Comunicação Interventricular (CIV), (2) Estenose Pulmonar (EP), (3) Aorta cavalgante sobre o septo e (4) Hipertrofia Ventricular Direita (HVD). A EP severa força shunt direito-esquerdo → cianose (mucosas azuladas) e policitemia. Keeshond tem predisposição genética documentada. Diagnóstico: ecocardiografia. Tratamento: cirurgia paliativa (Blalock-Taussig) ou correção completa. Prognóstico: reservado sem intervenção.
Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise Epidérmica Tóxica em Cães
A Síndrome de Stevens-Johnson (SJS) e a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET — também TEN) são reações cutâneas graves e potencialmente fatais — resultam na morte massiva de queratinócitos e desprendimento extenso da epiderme. No cão, o quadro canino equivalente envolve erosões/ulcerações mucosas, vesículas e descamação de pele em extensão variável. Causa mais comum: reação medicamentosa (antibióticos, anticonvulsivantes, AINEs, sulfonamidas). Diagnóstico: biópsia (necrose de queratinócitos em toda a espessura da epiderme). Tratamento: suspensão imediata do fármaco + suporte intensivo. Prognóstico: grave — mortalidade elevada na forma NET.