English Setter: Saúde! Doenças Comuns [Guia]

Um guia completo e prático para tutores brasileiros que desejam garantir qualidade de vida, bem‑estar e longevidade ao seu Setter Inglês.

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1. Introdução

O Setter Inglês – também conhecido como English Setter – é uma das raças mais elegantes e carismáticas presentes nos lares brasileiros. Seu porte atlético, pelagem macia e olhar expressivo conquistam corações ao redor do país, mas, como todo animal de companhia, ele traz consigo necessidades específicas que, quando atendidas, resultam em uma vida saudável e feliz.

Para quem acabou de adquirir seu primeiro Setter ou já convive há anos com o “caçador de penas”, compreender os aspectos fundamentais da saúde da raça é essencial. Diferente de cães de pequeno porte, o English Setter tem predisposição a algumas condições médicas que podem ser evitadas ou controladas com atenção precoce, alimentação balanceada, exercícios adequados e acompanhamento veterinário regular.

Este artigo foi pensado para tutores brasileiros que buscam informações claras, baseadas em evidências veterinárias e apresentadas de forma empática. Ao longo das próximas seções, você encontrará detalhes sobre as características físicas e comportamentais da raça, cuidados diários imprescindíveis, orientações nutricionais, estratégias de prevenção de doenças, dicas de treinamento e ainda curiosidades que ajudam a desmistificar crenças populares.

A ideia é que, ao final da leitura, você se sinta mais confiante para identificar sinais de alerta, adotar práticas preventivas e fortalecer o vínculo afetivo com seu companheiro de quatro patas. Lembre‑se: o bem‑estar do seu Setter depende de uma combinação de conhecimento, atenção e carinho. Vamos juntos explorar tudo o que você precisa saber para garantir que seu English Setter viva com saúde, energia e muita alegria!

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2. Características Principais

Aparência física

O English Setter possui porte médio‑grande, com altura que varia entre 58 e 71 cm (machos) e 55 a 66 cm (fêmeas). Seu corpo é harmonioso, apresentando peito profundo, costelas bem arqueadas e musculatura bem desenvolvida, ideal para atividades de caça e corrida. A pelagem, um dos maiores atrativos da raça, é longa, ondulada e possui a típica coloração “seterinha”: combinações de branco com manchas pretas, castanhas, laranjas ou cinzas, formando padrões únicos em cada indivíduo.

Temperamento e personalidade

Conhecido por ser dócil, afetuoso e leal, o Setter Inglês costuma ser muito sociável com pessoas e outros animais. Ele adora estar próximo da família, demonstrando grande capacidade de adaptação a diferentes ambientes, desde casas com quintal amplo até apartamentos, desde que receba estímulos físicos e mentais adequados. Essa raça tem um instinto de caça muito aguçado, o que se traduz em curiosidade e energia para explorar o exterior.

Necessidades de exercício

Devido à sua origem como cão de caça, o English Setter requer exercícios diários intensos. Caminhadas de pelo menos 1 km, corridas leves, jogos de buscar e atividades que estimulem o faro são indispensáveis. A falta de exercício pode levar ao desenvolvimento de comportamentos indesejados, como latidos excessivos, destruição de objetos e ansiedade de separação.

Expectativa de vida

Em boas condições de saúde, a expectativa de vida do Setter Inglês varia entre 10 e 12 anos. Essa longevidade pode ser ampliada com cuidados preventivos, alimentação de qualidade, visitas regulares ao veterinário e atenção às predisposições genéticas da raça.

Principais predisposições genéticas

Algumas doenças são mais frequentes em English Setters, como displasia coxofemoral, atrofia progressiva da retina (PRA), colapso de válvula mitral, hipotireoidismo e alergias cutâneas. Conhecer essas predisposições permite ao tutor buscar exames de rastreamento precoce e intervir antes que o quadro evolua.

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3. Cuidados Essenciais

Higiene da pelagem

A pelagem longa do Setter exige escovação diária ou, no mínimo, duas vezes por semana, utilizando uma escova de cerdas macias e um pente de dentes largos. Esse procedimento remove pelos soltos, evita a formação de nós e diminui a incidência de dermatites por acúmulo de sujeira. Em períodos de troca de pelos (geralmente duas vezes ao ano), o banho pode ser realizado a cada 4 a 6 semanas, usando shampoos neutros e condicionadores específicos para cães de pelagem densa.

Controle de parasitas

Pulgas, carrapatos e vermes intestinais são ameaças que podem comprometer a saúde do English Setter. A profilaxia deve incluir:

* Coleira ou spot‑on mensal contra pulgas e carrapatos;

* Aplicação de produtos de controle oral (ex.: afoxolaner, fluralaner) conforme recomendação veterinária;

* Desparasitação interna a cada 3 meses, com medicamentos que cubram nematóides, cestóides e trematóides;

* Exames de fezes anuais para monitorar a carga parasitária.

Saúde bucal

A escovação dental 2‑3 vezes por semana, com escova e pasta de dente específica para cães, reduz o risco de placa, tártaro e doenças periodontais, que podem levar a infecções sistêmicas. Brinquedos de borracha e ossos dentais aprovados pela ANVISA também ajudam na limpeza mecânica dos dentes.

Visitas veterinárias regulares

O calendário ideal inclui:

* Consulta de filhote (até 8 semanas) para vacinação inicial e avaliação de desenvolvimento;

* Revisões semestrais até os 2 anos, depois anuais, com exames de sangue, avaliação ortopédica e teste de visão (para detectar PRA);

* Radiografias de quadril e cotovelo aos 12 e 24 meses, principalmente se houver histórico familiar de displasia.

Socialização e estímulo mental

Além do exercício físico, o Setter Inglês precisa de estímulos cognitivos. Jogos de “esconde‑esconde”, brinquedos interativos que liberam petiscos e treinamento de obediência são excelentes para manter a mente ativa e prevenir comportamentos compulsivos.

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4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

Um adulto ativo de 30 kg pode precisar de 1 800 a 2 200 kcal por dia, dependendo do nível de atividade. Filhotes em fase de crescimento exigem até 30 % a mais de energia para suportar o desenvolvimento muscular e ósseo.

Macro e micronutrientes essenciais

Nutriente
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Proteína
Carne magra (frango, peru), peixe, ovos, proteína de alta qualidade em rações premium
Gordura
Óleos de peixe (ômega‑3), óleo de linhaça, gordura animal equilibrada
Carboidrato
Arroz integral, batata doce, aveia
Cálcio e fósforo
Farinha de ossos, laticínios (com moderação), suplementos específicos
Vitamina A, D, E, K
Ingredientes naturais na ração ou suplementos veterinários
Ácidos graxos essenciais (EPA/DHA)
Óleo de peixe, krill

Dietas recomendadas

  • Ração de alta qualidade (premium ou super‑premium) – deve conter proteína animal como primeiro ingrediente, níveis adequados de DHA e sem subprodutos de baixa qualidade.
  • Alimentação caseira balanceada – ideal para tutores que desejam controle total dos ingredientes; requer orientação de nutricionista veterinário para evitar deficiências.
  • Dieta crua (BARF) – pode ser adotada, porém exige rigoroso controle microbiológico e suplementação de cálcio e vitaminas.

Suplementação inteligente

* Ômega‑3 (óleo de peixe) – 500 mg a 1 g por dia para pelagem e articulações; útil em casos de alergias cutâneas.

* Glucosamina + Condroitina – 500 mg de glucosamina e 400 mg de condroitina diariamente para prevenção de desgaste articular, especialmente em cães predispostos a displasia.

* Probióticos – 1 bilhão CFU de lactobacilos por dia para melhorar a digestão e reforçar a imunidade intestinal.

Atenção a alimentos tóxicos

Chocolate, uvas, cebola, alho, xilitol e álcool são altamente tóxicos para cães. Além disso, ossos cozidos podem causar perfurações intestinais e devem ser evitados.

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5. Saúde e Prevenção

Doenças ortopédicas

Displasia coxofemoral e de cotovelo são problemas hereditários que afetam a articulação do quadril e do cotovelo, gerando dor crônica e limitação de movimento. A prevenção inclui:

* Seleção de criadores responsáveis, que realizam exames de raio‑X antes da reprodução;

* Manutenção de peso ideal, pois o excesso de carga acelera o desgaste articular;

* Suplementação de condroitina/glucosamina e prática de exercícios de baixo impacto (natação, caminhadas curtas).

Problemas oftálmicos

A atrofia progressiva da retina (PRA) é uma doença hereditária que leva à cegueira irreversível. Testes genéticos podem identificar portadores antes da reprodução. Para cães já afetados, a adaptação do ambiente (objetos seguros, iluminação adequada) minimiza riscos de acidentes.

Cardiopatias

O colapso da válvula mitral é comum em raças de porte médio a grande. Sinais iniciais incluem tosse, fadiga e intolerância ao exercício. Exames de ecocardiograma anual a partir dos 5 anos ajudam no diagnóstico precoce. Tratamentos com inibidores de ECA, betabloqueadores ou dietas com redução de sódio podem retardar a progressão.

Doenças dermatológicas

Alergias alimentares e atópicas são frequentes. Sintomas típicos: coceira, vermelhidão, perda de pelos e infecções secundárias. Estratégias de manejo:

* Dieta hipoalergênica (proteína única, carboidrato limitado);

* Banhos medicinais com shampoo de aveia ou clorexidina;

* Uso de anti‑histamínicos ou ciclosporina sob prescrição veterinária.

Doenças endócrinas

Hipotireoidismo manifesta-se por ganho de peso, letargia, queda de pelos e pele espessa. O diagnóstico é feito via dosagem de T4 livre e TSH. O tratamento consiste em reposição de levotiroxina, com ajustes de dose a cada 6 a 12 semanas.

Vacinação e exames preventivos

Vacina
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V8 (cinomose, parvovirose, adenovírus, parainfluenza)
A cada 3‑4 semanas até 16 semanas, depois anual
Raiva
Anual (conforme legislação)
Leptospirose
Anual
Gripe canina (Opcional)
Anual
Exames de sangue de rotina (hemograma, bioquímica) e teste de T4 (hipotireoidismo) a partir dos 3 anos são recomendados.

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6. Treinamento e Comportamento

Princípios básicos de adestramento

* Reforço positivo – recompensas (petiscos, brinquedos, elogios) imediatamente após o comportamento desejado;

* Consistência – usar sempre os mesmos comandos e gestos;

* Curto e frequente – sessões de 5‑10 minutos, 2‑3 vezes ao dia, mantêm a atenção do Setter.

Obediência fundamental

  • Sentar – base para controle de impulsos;
  • Ficar – essencial para segurança em áreas abertas;
  • Virar – comando de recall que pode salvar o cão de situações de risco (trânsito, água).

Socialização precoce

Entre 3 e 14 semanas, exponha o filhote a diferentes ambientes (parques, lojas, carros) e a outros animais. Essa fase reduz a probabilidade de medo excessivo ou agressividade na vida adulta.

Estímulo ao faro

O Setter foi criado para localizar aves; jogos de “caça ao tesouro” com petiscos escondidos estimulam o instinto natural e ajudam a gastar energia mental. Use caixas de papelão, tapetes de caça (snuffle mats) e variações de cheiro (ervas, frutas).

Problemas comportamentais comuns

* Latidos excessivos – geralmente ligados à falta de exercício ou tédio; aumente a carga física e introduza brinquedos interativos.

* Ansiedade de separação – pratique saídas curtas, deixe objetos com seu cheiro e utilize feromônios sintéticos (ex.: Adaptil).

* Puxão na guia – treine o “caminhar ao lado” com reforço positivo e equipamentos adequados (peitoral anti‑puxão).

Atividades esportivas

O English Setter se destaca em agility, flyball e campo de caça. Participar de esportes caninos promove condicionamento físico, disciplina e reforça o vínculo tutor‑cão.

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7. Dicas Práticas para Tutores

  • Cheque a pelagem diariamente – procure por nós, áreas úmidas ou manchas vermelhas que possam indicar infecção.
  • Mantenha um diário de saúde – registre vacinas, vermifugação, alterações de apetite e comportamento; isso facilita a comunicação com o veterinário.
  • Use coleira com identificação – além da placa, inclua microchip; em caso de fuga, aumenta as chances de reencontro.
  • Controle de peso – pese seu Setter a cada 2‑3 meses; ajuste a ração se houver ganho ou perda de mais de 5 % do peso corporal.
  • Hidratação constante – ofereça água fresca em todos os momentos, especialmente após exercícios intensos.
  • Proteção contra calor – em dias acima de 30 °C, evite passeios nas horas de pico e ofereça sombra e água gelada; a pelagem densa pode dificultar a regulação térmica.
  • Escovação dental semanal – se a escovação diária não for viável, use brinquedos dentais e spray oral com enzimas.
  • Visitas ao veterinário ao primeiro sinal de desconforto – dor nas articulações, coceira persistente ou mudança de apetite não devem ser ignoradas.
  • Educação de crianças – ensine aos pequenos como abordar o cão de forma gentil, respeitando seu espaço, para evitar acidentes.
  • Planejamento de viagens – leve a caixa de transporte certificada, água, alimentação e medicação; procure hotéis pet‑friendly ou hotéis que aceitam cães de porte médio.
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8. Curiosidades e Mitos

* Mito: “Setter Inglês não precisa de muita atividade porque é um cão de companhia”.

Na realidade, a raça tem energia de caça; a falta de exercício leva a problemas comportamentais e de saúde.

* Curiosidade: A pelagem “seterinha” foi desenvolvida no século 19 na Irlanda para camuflar o cão nas áreas de caça de aves aquáticas, facilitando sua aproximação silenciosa.

* Mito: “Cães de pelagem longa não sofrem de alergias”.

Fato: A pelagem pode esconder alergias cutâneas; a coceira pode ser percebida somente quando a pele está muito irritada.

* Curiosidade: O English Setter foi a primeira raça a ser retratada em um selo postal oficial da Inglaterra (1850).