Doenças Transmitidas por Carrapatos

Introdução

A saúde do nosso companheiro de quatro patas é uma das principais preocupações de qualquer tutor responsável. Quando se trata de carrapato, é fundamental estar bem informado para tomar as melhores decisões.

Neste guia completo, vamos abordar tudo o que você precisa saber sobre doenças transmitidas por carrapatos, desde os sinais iniciais até as medidas preventivas mais eficazes, passando por curiosidades, mitos e verdades, e respostas às dúvidas mais comuns dos tutores brasileiros.


1. O que são carrapatos?

1.1 Definição e classificação

  • Carrapatos são aracnídeos ectoparasitas que se alimentam do sangue de mamíferos, aves, répteis e, em alguns casos, de humanos.
  • Pertencem à ordem Ixodida, dividida em duas famílias principais: Ixodidae (carrapatos “duros”) e Argasidae (carrapatos “moles”).

1.2 Principais espécies no Brasil

Família
Região predominante |

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Ixodidae
Todo o território nacional, especialmente áreas urbanas |

Ixodidae
Regiões de cerrado e mata atlântica |

Ixodidae
Sul e Sudeste |

Argasidae
Áreas rurais e periurbanas |

1.3 Ciclo de vida

  • Óvo – A fêmea deposita milhares de ovos no ambiente.
  • Larva – Pequena, com seis pernas; procura um hospedeiro pequeno (roedores, pássaros).
  • Ninfa – Após a primeira picada, a ninfa tem oito pernas e pode infestar cães.
  • Adulto – A fase reprodutiva, que se fixa por vários dias para se alimentar e, em seguida, descer ao chão para acasalar.
Entender esse ciclo ajuda a planejar intervenções ambientais eficazes.


2. Principais doenças transmitidas por carrapatos em cães

Importante: Nem todo carrapato carrega patógenos, mas a presença de um pode indicar risco.

Doença
Diagnóstico
Tratamento padrão |

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Ehrlichiose
Sorologia (IFAT, ELISA), PCR, hemograma
Doxiciclina 10 mg/kg/dia por 28 dias |

Babesiose
Hemograma (hemácias fragmentadas), PCR
Imidocarb 6,6 mg/kg IM, dose única ou repetida |

Anaplasmose
Doxiciclina 10 mg/kg/dia por 14 dias
Hepatozoonose
Ingestão de carrapato infectado (Rhipicephalus, Amblyomma)
PCR, esfregaço de sangue
Imidocarb 6,6 mg/kg IM + suporte clínico |

Rickettsiose (Febre Maculosa)
Sorologia, PCR
Doxiciclina 5 mg/kg a cada 12 h por 7 dias |

Doença de Lyme
Sorologia (ELISA + Western blot)
Doxiciclina 10 mg/kg/dia por 30 dias |

Ehrlichiose Crônica (E. ewingii)
PCR
Doxiciclina 10 mg/kg/dia por 28 dias |

Nota: A maioria das doenças citadas é tratada com doxiciclina, mas a escolha do fármaco depende da gravidade, da condição do animal e da presença de comorbidades. Sempre siga a prescrição do veterinário.


3. Sinais e Sintomas Importantes

3.1 Observação diária

  • Comportamento: letargia, falta de apetite, irritabilidade.
  • Pele e pelagem: perda de pelos, coceira, manchas vermelhas.
  • Temperatura: febre (> 39,5 °C) ou hipotermia.

3.2 Sinais específicos de algumas doenças

Doença
Sinais característicos |

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Ehrlichiose
Hemorragias nasais, olhos “embaçados”, edema nas pernas, aumento do fígado e baço. |

Babesiose
Icterícia (coloração amarelada das mucosas), urina escura, hemoglobinúria. |

Anaplasmose
Plaquetas < 50 000 mm³, sangramento gengival. |

Hepatozoonose
Dor muscular ao ser palpada, linfonodos aumentados. |

Rickettsiose
Erupção cutânea em “mata de cobra”, dor de cabeça intensa. |

3.3 Mudanças graduais

Algumas doenças, como a ehrlichiose crônica, podem evoluir lentamente, apresentando apenas alterações sutis no dia a dia, como diminuição da resistência a exercícios ou leve aumento de peso devido à retenção de líquidos.


4. Prevenção é o Melhor Remédio

4.1 Estratégias de prevenção integradas

  • Consultas regulares com veterinário de confiança (pelo menos duas vezes ao ano).
  • Acompanhamento preventivo através de exames de rotina (hemograma, teste de anticorpos).
  • Cuidados diários específicos para transmissão (verificação de carrapatos após passeios).
  • Ambiente seguro e livre de riscos (manutenção do quintal, controle de roedores).

4.2 Produtos acaricidas disponíveis no Brasil

Tipo
Duração média |

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Coleiras
8 meses |

Pipetas spot‑on
1–3 meses |

Comprimidos orais
12 semanas |

Sprays e shampoos
1–2 semanas (reaplicação necessária) |

Dica prática: Alterne o tipo de produto a cada 6 meses para evitar resistência dos carrapatos.

4.3 Rotina de inspeção e remoção

  • Escove o pelo diariamente, especialmente nas áreas menos peludas (ouvidos, axilas, entre as pernas).
  • Use pinças finas (ou pinça de carrapato) para segurar o carrapato o mais próximo possível da pele.
  • Puxe lentamente sem torcer, evitando deixar a boca presa.
  • Desinfete a área com álcool 70 % ou solução de iodo.
  • Descarte o carrapato em álcool ou em saco plástico fechado.
> Importante: Não aplique álcool ou calor direto no carrapato antes de retirá‑lo, pois isso pode fazer com que ele libere mais saliva infectada.


5. Quando Procurar Ajuda Veterinária

⚠️ ATENÇÃO: Sempre consulte um médico veterinário para diagnóstico e tratamento adequados.

Procure ajuda profissional imediatamente se observar:

  • Sinais persistentes por mais de 24 horas.
  • Mudanças súbitas no comportamento (agitação, agressividade, confusão).
  • Sintomas que parecem estar piorando (febre alta, vômitos, diarreia com sangue).
  • Qualquer sinal de desconforto ou dor (choro ao ser tocado, relutância em caminhar).
A rapidez no diagnóstico pode ser decisiva para o sucesso do tratamento.


6. Cuidados no Dia a Dia

6.1 Rotina preventiva

  • Mantenha calendário de aplicação de acaricidas e consultas.
  • Documente alterações de comportamento, temperatura e presença de carrapatos em um caderno ou app de saúde pet.
  • Alimente com dieta balanceada para manter o sistema imunológico forte.

6.2 Ambiente adequado

  • Corte a grama regularmente, mantendo-a baixa (≤ 5 cm).
  • Remova folhas secas e entulho onde carrapatos podem se abrigar.
  • Controle de roedores com armadilhas ou iscas (atenção ao uso de venenos, que podem ser tóxicos para o cão).
  • Use inseticidas em áreas de sombra e locais de passagem de animais, seguindo as recomendações do fabricante.
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7. Curiosidades sobre Carrapatos

  • Capacidade de sobrevivência: Um carrapato adulto pode ficar sem se alimentar por até 12 meses, dependendo da espécie.
  • Tempo de transmissão: Algumas bactérias (ex.: Ehrlichia) podem ser transmitidas em menos de 30 minutos após a fixação, enquanto protozoários como Babesia podem precisar de 24‑48 h.
  • Tamanho impressionante: O carrapato “marrom” pode chegar a 12 mm quando está cheio de sangue, quase o tamanho de uma ervilha.
  • Resistência a pesticidas: Em áreas onde o mesmo acaricida é usado por longos períodos, os carrapatos podem desenvolver resistência, justificando a rotação de produtos.
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8. Mitos e Verdades

Mito
Verdade |

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"Carrapato só aparece no campo."
Carrapatos urbanos, principalmente Rhipicephalus sanguineus, vivem dentro de casas, quintais e até em canis. |

"Se eu remover o carrapato, não preciso de tratamento."
Mesmo que o carrapato seja retirado rapidamente, a saliva pode já ter transmitido patógenos. A avaliação veterinária é essencial. |

"Produtos naturais (óleos essenciais) eliminam carrapatos."
Alguns óleos podem repelir carrapatos, mas não são eficazes como acaricidas registrados pela Anvisa. |

"Cães que vivem só dentro de casa não têm risco."
Passeios, visitas a parques ou a casas de amigos podem expor o animal a carrapatos. |

"Uma única dose de vacina protege contra todas as doenças transmitidas por carrapatos."
Não existe vacina que cubra todas as doenças; há vacinas específicas (ex.: contra a raiva, leptospirose) e, em alguns países, vacinas contra a erliquiose, mas a prevenção ainda depende de controle de carrapatos. |


9. Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Como saber se o carrapato está infectado?

Não há método visual para identificar patógenos. A única forma segura é por exames laboratoriais no animal ou, em alguns casos, PCR no próprio carrapato coletado.

2. Qual a frequência ideal para aplicar produtos acaricidas?

Depende do produto: coleiras duram até 8 meses, pipetas de 1‑3 meses e comprimidos orais de 12 semanas. Consulte o rótulo e o veterinário.

3. Posso usar produtos humanos (ex.: permetrina em roupas) no meu cão?

A permetrina é tóxica para cães, principalmente raças com mutação do gene MDR1 (Collie, Border Collie, etc.). Use apenas produtos específicos para animais.

4. Meu cachorro tem alergia a picada de carrapato?

Alguns animais desenvolvem dermatite alérgica à saliva do carrapato, apresentando coceira intensa e lesões na pele. O tratamento inclui anti‑histamínicos, corticosteroides e controle rigoroso de carrapatos.

5. Carrapatos podem transmitir doenças ao ser humano?

Sim. A Rickettsia rickettsii (febre maculosa) e a Ehrlichia canis (rara) podem infectar humanos. Por isso, a prevenção em animais também protege a saúde da família.

6. Meu cão já está infectado, ainda preciso usar acaricidas?

Sim. Mesmo após o tratamento, o animal pode ser reinfestado. O uso contínuo de acaricidas impede novas infecções e reduz a carga de carrapatos no ambiente.

7. Existe vacina contra a erliquiose?

No Brasil ainda não há vacina licenciada para cães. Em alguns países (ex.: EUA) há vacinas contra Ehrlichia canis e E. ewingii, mas a eficácia varia.

8. Como limpar a casa após encontrar carrapatos?

  • Aspire o chão e tapetes, descartando o saco imediatamente.
  • Lave roupas de cama em água quente (> 60 °C).
  • Use spray acaricida adequado para ambientes internos, seguindo as instruções de segurança.
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10. Checklist Prático para Tutores Brasileiros

Tarefa
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Inspecionar o pet
Verifique orelhas, pescoço, axilas, entre os dedos e região da cauda.
Aplicar acaricida
Marque no calendário e use lembretes no celular.
Limpar o ambiente
Aspire, lave roupas de cama, corte a grama.
Visita ao veterinário
Leve exames de sangue, teste de anticorpos.
Controle de roedores
Instale armadilhas, verifique pontos de entrada.
Educação da família
Ensine crianças a não tocar carrapatos e a avisar o adulto.
Vacinação em dia
Atualize vacinas (raiva, leptospirose, etc.).
Registro de sintomas
Anote data, horário, temperatura, comportamento.
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11. Recursos e Onde Buscar Ajuda

  • Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) – lista de profissionais credenciados.
  • Ministério da Saúde – Programa Nacional de Controle de Carrapatos (PNCC) – informações sobre campanhas regionais.
  • Associação Brasileira de Medicina Veterinária (ABMV) – artigos científicos e webinars gratuitos.
  • Aplicativos de saúde pet (ex.: PetDoctor, VetHelp) – permitem registrar inspeções e receber alertas