Introdução

A gestação de uma cadela é um período repleto de transformações físicas, hormonais e comportamentais. Para quem nunca passou por essa experiência, pode ser um verdadeiro desafio entender o que a fêmea precisa para que a gestação transcorra de forma saudável e segura. Além da emoção de preparar a chegada dos filhotes, o tutor tem a responsabilidade de oferecer cuidados que garantam o bem‑estar da mãe e, consequentemente, dos bebês que ainda estão dentro dela.

Neste guia completo, vamos abordar todos os aspectos essenciais que envolvem a gestação canina: desde as primeiras mudanças que a cadela apresenta, passando pela alimentação adequada, exames de saúde, até dicas práticas para o dia a dia. O conteúdo foi elaborado com base em literatura veterinária atual, recomendações de especialistas em reprodução animal e boas práticas de manejo, sempre prezando por uma linguagem simples, empática e acessível ao tutor brasileiro.

Entender a fisiologia da gestação, reconhecer sinais de alerta e adotar medidas preventivas são passos fundamentais para evitar complicações como abortos, partos prematuros ou problemas metabólicos. Ao mesmo tempo, é importante respeitar o instinto materno da cadela, proporcionando um ambiente tranquilo, seguro e confortável.

Ao longo deste artigo, você encontrará informações claras, sugestões de rotinas, sugestões de alimentos e suplementos, além de respostas às dúvidas mais frequentes. Nosso objetivo é que, ao final da leitura, você se sinta confiante e preparado para acompanhar sua cadela em cada fase da gestação, fortalecendo ainda mais o vínculo afetivo entre vocês.


Características Principais

A gestação canina tem duração média de 63 dias, embora possa variar entre 58 e 68 dias dependendo da raça, tamanho e número de fetos. Durante esse período, a cadela passa por quatro estágios clínicos bem definidos, que apresentam sinais físicos e comportamentais distintos.

  • Primeiro trimestre (0‑21 dias) – O óvulo fertilizado se implanta no útero e forma a placenta. A cadela pode apresentar inchaço mamário leve, aumento do apetite e, em algumas raças, um leve ganho de peso. O comportamento costuma permanecer normal, embora algumas fêmeas já demonstrem maior apego ao tutor.
  • Segundo trimestre (22‑42 dias) – É a fase de maior crescimento fetal. As glândulas mamárias tornam‑se mais volumosas, surgindo líquido mamário (colostro) que será essencial para os filhotes nas primeiras 24 horas de vida. O abdômen começa a se arredondar de forma perceptível, e a cadela pode apresentar letargia moderada e um aumento de peso mais acentuado (até 20 % do peso corporal).
  • Terceiro trimestre (43‑63 dias) – Os fetos ocupam quase todo o espaço uterino. A cadela pode ficar mais agitada, buscar locais mais isolados para montar o ninho e apresentar inquietação ao final da gestação. O consumo de água aumenta, assim como a frequência de micção, devido à pressão dos filhotes sobre a bexiga.
  • Pré-parto – Nas 24‑48 horas que antecedem o parto, a cadela pode apresentar descida da temperatura corporal (pode cair para 37,2 °C ou menos) e contrações uterinas leves e irregulares. É fundamental monitorar esses sinais, pois indicam que o trabalho de parto está próximo.
Além das mudanças físicas, a gestação pode influenciar o comportamento social da cadela. Muitas fêmeas tornam‑se mais protetoras, podem apresentar aversão a alimentos que antes gostavam ou, ao contrário, desenvolver um apetite voraz. Essas variações são normais, mas devem ser observadas de perto para detectar possíveis problemas de saúde.


Cuidados Essenciais

1. Acompanhamento Veterinário

O primeiro passo para garantir uma gestação saudável é marcar consultas regulares com o veterinário. O ideal é realizar uma avaliação pré‑concepção, exames de sangue e, posteriormente, ultrassonografias nos dias 25‑30 e 45 da gestação para confirmar a viabilidade dos fetos e estimar o número de filhotes.

2. Ambiente Seguro e Confortável

Crie um ninho em um local silencioso, com temperatura estável (entre 22 °C e 26 °C) e livre de correntes de ar. Use caixas de papelão ou canis com coberturas de manta macia, evitando materiais que possam prender pelos ou causar irritação. Troque a roupa de cama semanalmente para manter a higiene.

3. Controle de Peso

O ganho de peso deve ser gradual. Obesidade é um fator de risco para complicações obstétricas, como distocia (dificuldade de parto). Pese a cadela semanalmente e ajuste a quantidade de ração conforme o aumento de massa corporal.

4. Higiene e Limpeza

Mantenha a área de descanso limpa e livre de fezes. Lave as mãos antes de manipular a cadela ou seu ninho, reduzindo o risco de infecções bacterianas.

5. Exercícios Moderados

Caminhadas curtas (15‑20 min) duas vezes ao dia são suficientes para manter a circulação e a saúde muscular, mas evite atividades intensas que possam causar estresse ou lesões.

6. Monitoramento de Sinais de Alerta

Fique atento a vômitos persistentes, diarreia, sangramento vaginal, febre ou redução abrupta do apetite, pois podem indicar abortos espontâneos ou infecções uterinas (metrite). Caso algum desses sinais apareça, procure imediatamente o veterinário.

7. Suplementação Veterinária

Somente sob orientação profissional, a suplementação com ácido fólico, vitamina E e ômega‑3 pode ser benéfica para o desenvolvimento fetal e para a qualidade do colostro.


Alimentação e Nutrição

A nutrição adequada é a base para uma gestação saudável e para a produção de um colostro rico em anticorpos.

1. Ração de Alta Qualidade

A partir da quarta semana de gestação, troque a ração de manutenção por uma racao de “filhote” (ou “criança”) de alta densidade energética e proteína (aprox. 30 % de proteína bruta). Essa mudança fornece os aminoácidos essenciais para o crescimento dos fetos e para a preparação das glândulas mamárias.

2. Frequência das Refeições

Divida a quantidade diária de alimento em 3‑4 pequenas refeições. Isso facilita a digestão e evita a sensação de saciedade excessiva, que pode levar à recusa de alimento.

3. Suplementos Nutricionais

  • Ácido fólico (folato): 0,5 mg/dia, recomendado nas primeiras 3‑4 semanas para prevenir defeitos do tubo neural.
  • Vitamina E: 50 UI/kg de peso corporal/dia, auxilia na formação de membranas celulares e na imunidade.
  • Ômega‑3 (EPA/DHA): 100 mg/kg de peso corporal/dia, contribui para o desenvolvimento neurológico dos filhotes.
> Importante: Todos os suplementos devem ser prescritos pelo veterinário, pois doses inadequadas podem causar toxicidade.

4. Alimentos “Caseiros” e Complementos

É permitido oferecer proteínas magras cozidas (frango sem pele, carne magra, ovos mexidos) e vegetais cozidos (abóbora, cenoura, batata‑doce) como complementos, mas sempre em pequenas porções e sem temperos. Evite alimentos tóxicos: cebola, alho, uvas, chocolate e alimentos gordurosos.

5. Hidratação

A ingestão de água deve ser constante. Coloque vários potes de água fresca em áreas de fácil acesso e troque o conteúdo diariamente. A desidratação pode comprometer a produção de colostro e a circulação placentária.

6. Controle de Gordura e Carboidratos

Embora a energia seja crucial, evite dietas excessivamente gordurosas, pois podem predispor à pancreatite. Prefira fontes de carboidratos de fácil digestão, como arroz integral ou batata‑doce, especialmente se a cadela apresentar sensibilidade gastrointestinal.


Saúde e Prevenção

1. Vacinação e Vermifugação

Antes da gestação, certifique‑se de que a cadela está em dia com as vacinas (cinomose, parvovirose, hepatite, leptospirose) e vermifugada. Vacinas vivas (ex.: raiva) devem ser aplicadas pelo menos 30 dias antes da concepção. Durante a gestação, a maioria das vacinas é contra‑indicada; converse com o veterinário sobre a necessidade de reforços pós‑parto.

2. Exames de Laboratório

  • Hemograma completo: identifica anemia ou infecções.
  • Perfil bioquímico: avalia função hepática e renal.
  • Teste de anticorpos para doenças infecciosas (e.g., Brucella canis) quando houver risco de transmissão vertical.

3. Prevenção de Doenças Parasitárias

Durante a gestação, evite medicamentos antiparasitários de amplo espectro sem orientação veterinária, pois alguns podem ser teratogênicos. O controle ambiental (higiene do local, eliminação de fezes) é a medida mais segura.

4. Cuidados Odontológicos

A saúde bucal influencia na saúde geral. Realize limpeza dental antes da gestação ou no início do trimestre, evitando a bacteremia que pode afetar a placenta.

5. Gestão de Stress

O estresse crônico pode elevar os níveis de cortisol, interferindo na produção de hormônios reprodutivos. Mantenha a cadela em um ambiente calmo, evite barulhos excessivos e ofereça brinquedos de mastigação para distração.

6. Planejamento do Parto

Na fase final da gestação, prepare um kit de parto contendo:

  • Toalhas limpas e esterilizadas
  • Tesoura de ponta arredondada
  • Luvas descartáveis
  • Termômetro digital
  • Água morna para limpeza dos filhotes
Caso ocorram complicações (ex.: trabalho de parto prolongado, filhotes não nascem após 30 min de contrações), procure atendimento de emergência imediatamente.


Treinamento e Comportamento

1. Adaptação ao Ninho

A partir da sétima semana, incentive a cadela a explorar o local escolhido para o ninho. Use feromônios sintéticos (ex.: “Feliway” para cães) ou um pano com seu cheiro para tornar o espaço mais acolhedor.

2. Comandos Básicos

Reforce comandos como “sentar”, “ficar” e “vir” de forma gentil, evitando punições. A comunicação clara ajuda a reduzir a ansiedade da cadela quando precisar ser movida ou manipulada.

3. Socialização Suave

Mantenha a cadela em contato moderado com membros da família, mas evite visitas de estranhos ou crianças muito agitadas nas últimas duas semanas, pois o barulho pode desencadear stress.

4. Gestão de Instintos Maternos

Algumas cadelas podem apresentar agressividade ao proteger o ninho. Se isso ocorrer, ofereça um espaço privado e minimize interrupções. Caso a agressividade se torne perigosa, procure orientação de um comportamentalista.

5. Exercícios de Enriquecimento

Brinquedos de quebra‑cabeça que liberam pequenas porções de comida são ótimos para manter a mente ativa sem exigir esforço físico intenso.

6. Comportamento Pós‑Parto

Após o parto, a cadela pode apresentar hiperproteção e comportamento de “mãe sobre‑protetora”. Permita que ela estabeleça seu ritmo, mas esteja pronto para intervir caso ela rejeite filhotes ou demonstre sinais de depressão pós‑parto (apatia, falta de apetite). Nesses casos, a avaliação veterinária é fundamental.


Dicas Práticas para Tutores

  • Calendário de Alimentação – Anote a quantidade de ração oferecida diariamente e ajuste conforme o ganho de peso da cadela.
  • Registro de Temperatura – Meça a temperatura corporal (uso de termômetro retal) a partir da 58ª dia; a queda abaixo de 37,2 °C indica que o parto está próximo.
  • Kit de Primeiros Socorros – Mantenha à mão soro fisiológico, gaze estéril, antisséptico (clorexidina) e o número de telefone da clínica de emergência.
  • Fotografe o Abdômen – Registre o crescimento abdominal semanalmente; isso ajuda a detectar anormalidades de tamanho ou forma.
  • Evite Mudanças Abruptas – Não altere a rotina de alimentação ou de exercícios de forma repentina; mudanças graduais são menos estressantes.
  • Higiene das Patas – Limpe as patas da cadela ao entrar em casa para reduzir a entrada de bactérias no ninho.
  • Uso de Suplementos Naturais – Chá de camomila ou infusão de hortelã-pimenta podem ser oferecidos em pequenas quantidades para acalmar a ansiedade, mas sempre após consulta veterinária.
  • Planeje o Pós‑Parto – Reserve um espaço separado para a cadela e os filhotes, com fácil acesso a água e alimentos.
  • Documente o Parto – Anote a hora de início das contrações, duração do parto e número de filhotes nascidos vivos. Essa informação é útil para o veterinário em caso de complicações.
  • Apoio Emocional – Converse com outros tutores, participe de grupos online de criação responsável; o suporte emocional ajuda a lidar com a ansiedade e a tomar decisões mais informadas.
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Curiosidades e Mitos

  • Mito: “Cadela gestante deve comer duas vezes mais”. Verdade: O aumento de necessidade calórica varia entre 25 % e 40 % dependendo do estágio gestacional; exagerar pode levar à obesidade fetal.
  • Curiosidade: O colostro contém até 30 % de anticorpos IgG, fundamentais para a imunidade dos filhotes nas primeiras 48 h de vida.
  • Mito: “Se a cadela não se sentir “instintivamente” com o ninho, ela não será boa mãe”. Verdade: O comportamento materno pode ser aprendido; um ambiente tranquilo e apoio do tutor são determinantes.
  • Curiosidade: Algumas raças, como o Bulldog Francês, têm maior risco de distócia devido à forma da pelve; nesses casos, a cesariana programada pode ser recomendada.
  • Mito: “Cães machos podem influenciar a gestação”. Verdade: A presença do macho não interfere diretamente na gestação, mas pode gerar estresse se houver brigas territoriais.
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Perguntas Frequentes

1. Quando devo levar minha cadela ao veterinário durante a gestação?

Idealmente, antes da concepção, na 3ª semana (ultrassom de confirmação) e na 6ª semana (ultrassom de avaliação fetal). Depois, consultas a cada 2‑3 semanas ou sempre que houver alterações no comportamento ou no apetite.

2. Posso dar alimentos humanos à cadela gestante?

Sim, em pequenas quantidades e sem temperos. Priorize proteínas magras cozidas e vegetais bem cozidos. Evite alimentos tóxicos (cebola, alho, uvas, chocolate).

3. Quanto peso a cadela deve ganhar durante a gestação?

Ganho de 10‑20 % do peso corporal é considerado normal. Mais que isso pode indicar retenção de líquidos ou risco de complicações.

4. Como saber se o parto está próximo?

Queda da temperatura corporal (abaixo de 37,2 °C) nas 24‑48 h finais, aumento da inquietação, busca de ninho e contrações uterinas regulares são sinais claros.

5. O que fazer se um filhote nascer morto?

Remova o filhote imediatamente para evitar contaminação do útero e do colostro. Notifique o veterinário, pois pode ser necessário avaliar a causa e, se necessário, induzir o parto.


Considerações Finais

Cuidar de uma cadela gestante é uma experiência gratificante que requer atenção, conhecimento e muito carinho. Ao seguir as orientações apresentadas – acompanhamento veterinário regular, nutrição balanceada, ambiente seguro, monitoramento de sinais de alerta e suporte emocional – você maximiza as chances de uma gestação saudável e de um parto tranquilo.

Lembre‑se de que cada fêmea é única; observe as particularidades de sua cadela