Como interpretar exames de sangue caninos

Introdução

A saúde do nosso companheiro de quatro patas é uma das principais preocupações de qualquer tutor responsável. Quando se trata de exames, é fundamental estar bem informado para tomar as melhores decisões e, acima de tudo, garantir o bem‑estar do animal.

Neste guia completo, vamos abordar tudo o que você precisa saber sobre como interpretar exames de sangue caninos, desde os sinais iniciais que motivam a coleta até as principais análises laboratoriais, o que cada parâmetro indica e quais medidas preventivas podem ser adotadas. Tudo isso com linguagem simples, exemplos práticos e dicas específicas para tutores brasileiros.

Importante: o conteúdo abaixo tem caráter informativo e nunca substitui a avaliação de um médico veterinário. Sempre procure um profissional para interpretar os resultados do seu pet.


1. Por que fazer exames de sangue em cães?

1.1. Detecção precoce de doenças

Muitos problemas de saúde – como insuficiência renal, hepática, doenças endócrinas (ex.: hipotireoidismo, síndrome de Cushing), infecções e neoplasias – podem estar presentes sem nenhum sinal clínico evidente. O exame de sangue permite identificar alterações bioquímicas antes que o animal apresente sintomas visíveis, possibilitando intervenções mais rápidas e menos invasivas.

1.2. Avaliação pré‑anestésica

Antes de cirurgias, procedimentos dentários ou mesmo exames de imagem que requerem sedação, o veterinário solicita o hemograma e o perfil bioquímico para garantir que o organismo do cão está apto a suportar a anestesia.

1.3. Monitoramento de tratamento

Quando um animal já está em tratamento – por exemplo, com medicação para insuficiência cardíaca ou terapia de reposição hormonal – o exame de sangue ajuda a ajustar doses, identificar efeitos colaterais e confirmar a eficácia da terapia.

1.4. Check‑up de rotina

Mesmo cães saudáveis podem se beneficiar de um check‑up anual que inclua sangue. Essa prática é especialmente recomendada para raças predispostas a determinadas enfermidades (ex.: Poodles a doenças renais, Dobermans a dilatação da aorta).


2. Principais tipos de exames sanguíneos caninos

Exame
Quando é indicado |

-------
-------------------|

Hemograma (CBC – Complete Blood Count)
Avaliação de anemia, infecções, inflamações, coagulopatias |

Bioquímica sérica
Avaliação renal, hepática, eletrolítica, endocrinológica |

Perfil Tireoidiano
Suspeita de hipotireoidismo ou hipertireoidismo |

Teste de função pancreática
Pancreatite aguda ou crônica |

Exames de coagulação
Preparação para cirurgia ou suspeita de distúrbios hemorrágicos |

Sorologia para doenças infecciosas
Avaliação de risco de zoonoses ou doenças transmitidas por carrapatos |

Dica prática: ao solicitar exames, pergunte ao veterinário se é necessário jejum. Na maioria dos casos, o jejum de 8 a 12 h é recomendado para a bioquímica, mas o hemograma pode ser coletado a qualquer hora.


3. Como interpretar os resultados mais comuns

3.1. Hemograma

Parâmetro
-----------
-------------------------------------------
Hemácias (RBC)
Anemia (baixo) → perda de sangue, hemólise, doença crônica; Policitemia (alto) → desidratação, doença pulmonar
Hemoglobina (Hb)
Anemia (baixo) → deficiência de ferro, inflamação; Valores altos raramente são clínicos
Hematócrito (Ht)
Anemia ou desidratação (alto)
Leucócitos (WBC)
Leucocitose (alto) → infecção bacteriana, inflamação; Leucopenia (baixo) → vírus, medicação imunossupressora
Neutrófilos
Neutrofilia → infecção bacteriana aguda; Neutropenia → uso de antibióticos, doenças autoimunes
Linfócitos
Linfocitose → infecção viral, parasitária; Linfopenia → estresse crônico, corticosteroides
Eosinófilos
Eosinofilia → alergias, parasitoses (vermes)
Plaquetas
Trombocitopenia → coagulopatias, infecções graves; Trombocitose → inflamação, neoplasia
> Observação: valores de referência podem variar segundo a raça, idade, sexo e método do laboratório. Sempre compare com o intervalo indicado no laudo.

3.2. Bioquímica sérica

#### 3.2.1. Função renal

  • Ureia (15‑30 mg/dL) e Creatinina (0,5‑1,5 mg/dL) aumentam quando há diminuição da taxa de filtração glomerular.
  • Taxa de Filtração Glomerular (TFG) não é medida diretamente, mas a combinação de ureia + creatinina + avaliação de concentração urinária (urina específica) ajuda a estimar a função renal.
#### 3.2.2. Função hepática

  • ALT (alanina aminotransferase) e AST (aspartato aminotransferase) são enzimas hepatocelulares. Elevações moderadas (2‑3×) podem indicar hepatite leve, enquanto elevações > 5× sugerem necrose hepática grave.
  • GGT (gama‑glutamiltransferase) e Fosfatase Alcalina aumentam em colestase (obstrução biliar).
#### 3.2.3. Eletrolitos e equilíbrio ácido‑base

  • Sódio (Na⁺) 140‑155 mmol/L, Potássio (K⁺) 3,5‑5,5 mmol/L, Cloro (Cl⁻) 105‑120 mmol/L.
  • Alterações podem ser consequência de vômitos, diarreia, insuficiência renal ou uso de diuréticos.
#### 3.2.4. Glicemia

  • Normal 70‑120 mg/dL (jejum). Hiperglicemia crônica pode indicar diabetes mellitus; hipoglicemia aguda pode ser causa de convulsões, especialmente em filhotes ou cães em jejum prolongado.
#### 3.2.5. Proteínas totais, albumina e globulina

  • Albumina (2,5‑4,0 g/dL) baixa indica perda proteica (doença renal, intestinal) ou má nutrição.
  • Globulina alta pode refletir inflamação crônica ou infecção (ex.: leishmaniose).
> Dica prática: mantenha um histórico impresso ou digital dos exames anteriores do seu cão. Comparar valores ao longo do tempo facilita a identificação de tendências (p. ex., elevação gradual da creatinina).


4. Fatores que influenciam a interpretação

Fator
Como pode modificar os resultados |

-------
------------------------------------|

Idade
Filhotes têm contagem de leucócitos mais alta; cães idosos podem apresentar creatinina aumentada por diminuição natural da massa muscular. |

Raça
Raças braquicefálicas (bulldog, pugs) podem ter valores de hemoglobina ligeiramente menores; cães de grande porte têm valores de ureia e creatinina mais elevados devido à maior massa muscular. |

Sexo e ciclo reprodutivo
Fêmeas no cio apresentam aumento transitório de leucócitos. Machos castrados podem ter ligeiro aumento de colesterol. |

Alimentação
Dietas ricas em proteínas podem elevar ureia sem indicar doença renal. Suplementos de cálcio podem alterar o cálcio sérico. |

Estresse e exercício
Leucócitos podem subir após atividade intensa ou visita ao veterinário (fenômeno de “estresse de coleta”). |

Medicamentos
Corticosteroides aumentam glicemia e neutrófilos; diuréticos podem causar hipocalemia. |

Atenção: nunca descarte um resultado “fora do normal” sem antes conversar com o veterinário. Muitas vezes, o achado pode ser fisiológico ou temporário.


5. Quando e com que frequência fazer exames de sangue?

Situação
Frequência recomendada |

----------
------------------------|

Cão saudável (até 7 anos)
Check‑up anual (hemograma + bioquímica). |

Cães idosos (≥ 8 anos)
A cada 6‑12 meses, devido ao risco maior de insuficiência renal e hepática. |

Raças predispostas (ex.: Pastor Alemão – mielopatia, Boxer – cardiomiopatia)
Avaliação semestral ou conforme orientação do especialista. |

Doenças crônicas (diabetes, hipotireoidismo, insuficiência cardíaca)
A cada 2‑3 meses ou conforme necessidade de ajuste de medicação. |

Antes de cirurgia eletiva
24‑48 h antes, para garantir segurança anestésica. |

Após tratamento de infecção grave
Repetir exames 2‑4 semanas após o fim da terapia para confirmar resolução. |

Dica brasileira: muitos laboratórios de diagnóstico (ex.: Labtest, VetLab) oferecem pacotes “check‑up canino” com desconto para clientes de clínicas veterinárias. Pergunte ao seu profissional sobre a melhor opção custo‑benefício.


6. Curiosidades sobre o sangue canino

  • O número de glóbulos vermelhos de um cão é, em média, 30 % maior que o de um humano. Isso ajuda a manter a temperatura corporal alta, característica dos mamíferos de porte médio.
  • Cães têm um tipo de hemoglobina chamado “Hb A”, semelhante ao humano, mas não apresentam variantes como Hb S (sickle cell).
  • A contagem de plaquetas em cães pode variar bastante ao longo do dia, sendo mais alta ao amanhecer. Por isso, amostras coletadas em horários diferentes podem apresentar pequenas diferenças.
  • A enzima GGT, usada para avaliar o fígado, costuma ser mais sensível em cães do que em gatos, facilitando o diagnóstico precoce de colestase.
---

7. Mitos e verdades sobre exames de sangue caninos

Mito
Verdade |

------
---------|

“Se o exame está normal, o cão está saudável.”
Nem sempre. Algumas doenças (ex.: neoplasias em estágio inicial) podem não alterar ainda os parâmetros sanguíneos. A avaliação clínica completa continua essencial. |

“É preciso jejuar por 24 h para fazer exames.”
Exagero. O jejum recomendado geralmente é de 8‑12 h apenas para a bioquímica. O hemograma pode ser coletado a qualquer hora. |

“Exames de sangue são dolorosos e causam estresse.”
A coleta é rápida (menos de 2 min) e, com técnica adequada, causa mínimo desconforto. Acostumar o cão ao toque na região da veia ajuda a reduzir o medo. |

“Cães podem ter anemia só por falta de ferro.”
A anemia em cães é raramente por deficiência de ferro isolada; causas mais comuns são hemólise, perda crônica de sangue ou doença renal. |

“Se a creatinina está alta, o rim está 100 % danificado.”
A creatinina reflete a função renal, mas pode subir temporariamente por desidratação. Avaliações complementares (urina, ultrassom) são necessárias. |


8. Perguntas Frequentes (FAQ)

8.1. É normal que meu cão apresente esses sinais?

Cada cão tem seu “padrão” de comportamento e valores fisiológicos. Mudanças sutis – como diminuição do apetite, letargia ou aumento da sede – podem ser sinais precoces de alterações laboratoriais. Observe o que é “normal” para o seu pet e registre qualquer variação.

8.2. Com que frequência devo me preocupar com exames?

A frequência depende da idade, raça e condição de saúde. Cães jovens e saudáveis podem fazer check‑up anual, enquanto cães idosos ou com doenças crônicas necessitam de avaliações semestrais ou mais frequentes.

8.3. Existe algum preparo especial em casa antes da coleta?

  • Jejum: 8‑12 h (água pode ser oferecida).
  • Hidratação: garanta que o cão esteja bem hidratado, especialmente se for fazer exames de função renal.
  • Calma: passe um tempo de brincadeira ou caminhada leve antes da visita para reduzir o estresse.

8.4. O que fazer se o resultado está fora da normalidade?

Não entre em pânico! Leve o laudo ao veterinário, que irá correlacionar os resultados com a história clínica, exame físico e, se necessário, solicitar exames complementares (ultrassom, radiografia, exames de urina).

8.5. Existem tratamentos caseiros seguros enquanto esperamos a consulta?

Algumas medidas simples podem ajudar:

  • Hidratação: ofereça água fresca e limpa.
  • Alimentação leve: arroz branco com frango cozido pode ser oferecido em casos de vômitos leves, mas sempre consulte o veterinário antes.
  • Evitar automedicação: nunca dê medicamentos humanos (ex.: paracetamol) ao seu cão.

8.6. Qual a diferença entre ureia e creatinina?

  • Ureia: produto do metabolismo de proteínas; pode ser influenciada por dieta rica em proteína ou desidratação.
  • Creatinina: produto da degradação da creatina muscular; menos influenciada por dieta, considerada marcador mais específico da função renal.

8.7. Meu cão tem leucopenia, o que isso significa?

Leucopenia (contagem baixa de leucócitos) pode indicar infecção viral, uso de corticosteroides, doença autoimune ou medicação imunossupressora. É essencial investigar a causa subjacente com o veterinário.

8.8. Como interpretar a diferença entre ALT e AST?

  • ALT (alanina aminotransferase) é mais específica para lesão hepática.
  • AST (aspartato aminotransferase) está presente no fígado, mas também em músculos e coração; elevações podem refletir lesão muscular.
---

9. Dicas práticas para tutores brasileiros

  • Tenha um fichário ou aplicativo para armazenar todos os exames (data, laboratório, valores de referência). Apps como “PetCare” ou “DogLog” permitem inserir resultados e gerar gráficos de evolução.
  • Leve o pet ao veterinário em clima ameno. No verão brasileiro, a desidratação pode alterar creatinina e ureia; no inverno, a hipotermia pode reduzir a contagem de leucócitos.
  • Use coleira de identificação com telefone de contato. Caso o animal apresente sinais de doença e precise de atendimento de urgência, a rapidez no diagnóstico pode salvar vidas.
  • Mantenha a vacinação e