Comportamento

Cachorro Come Fezes: Por Que Acontece e Como Parar

Coprofagia é repugnante para o tutor, mas comum em cães. Tem causas claras — nutricionais, comportamentais, instintivas — e protocolo específico para cada uma.

18 de maio de 2026·5 min de leitura

Você flagra seu cão comendo fezes — próprias, de outro animal ou de outro cão — e a reação é de repulsa imediata. O comportamento tem um nome técnico: coprofagia. É mais comum do que parece e, dependendo da causa, tem tratamento específico.

A má notícia: punir não funciona. A boa: a maioria dos casos tem solução.

Por que cães comem fezes

1. Comportamento instintivo e de desenvolvimento

Fêmeas com filhotes comem as fezes dos filhotes até cerca de 3 semanas de vida — é higiene do ninho, instinto herdado dos ancestrais que precisavam não atrair predadores com cheiro de fezes.

Filhotes às vezes imitam esse comportamento ou simplesmente exploram tudo com a boca, inclusive fezes. Em filhotes até 9 meses, coprofagia ocasional é muito comum e frequentemente passa sozinha com maturidade — desde que o ambiente seja gerenciado (fezes removidas imediatamente).

2. Deficiência nutricional ou má absorção

Cão com dieta deficiente ou que não absorve bem os nutrientes pode desenvolver coprofagia como tentativa de compensar. As fezes — especialmente de outros animais — contêm nutrientes parcialmente digeridos e enzimas.

Sinais de que pode ser nutricional:

  • O cão prefere fezes de outros animais às próprias
  • Come fezes com muito interesse, como se fosse comida
  • Dieta de baixa qualidade ou quantidade insuficiente
  • Perda de peso junto com aumento de apetite

3. Fome real

Cão subnutrido, com porção insuficiente para o porte ou com refeições muito espaçadas pode recorrer a fezes como fonte de calorias. Simples e direto.

4. Tédio, estresse e chamado de atenção

Cão sozinho por longos períodos, sem estímulo, pode desenvolver coprofagia como comportamento de automutilação por entediantamento. Também pode aprender que comer fezes gera reação dramática do tutor — atenção é atenção, mesmo que negativa.

Sinal claro: acontece principalmente na ausência do tutor ou quando está sendo observado e o tutor reage.

5. Punição associada às fezes

Cão que foi punido por defecar no lugar errado pode desenvolver ansiedade com as fezes e tentar "esconder a evidência" comendo. É paradoxal, mas acontece: a punição ensinou que defecar gera consequências ruins, então o cão elimina a prova.

6. Causa médica

Condições que aumentam o apetite ou causam má absorção:

  • EPI (Insuficiência Pancreática Exócrina): pâncreas não produz enzimas digestivas suficientes — o cão come muito mas absorve pouco
  • Diabetes não controlada
  • Síndrome de Cushing
  • Parasitose intestinal intensa
  • Uso prolongado de corticoides

Se o comportamento começou repentinamente ou vier acompanhado de outros sintomas, avalie causas médicas primeiro.

O que NÃO fazer

Punir: não funciona para nenhuma causa. Para coprofagia por punição anterior, piora ativamente. Para tédio, é a atenção que o cão busca.

Gritar ou perseguir: reforça o comportamento se o cão está buscando atenção.

Mostrar as fezes e repreender: cão não conecta punição atual ao comportamento passado.

O protocolo correto

Passo 1: Avaliação médica (se indicado)

Se o cão é adulto e o comportamento começou de repente, ou se há outros sintomas (perda de peso, pelo ruim, aumento de fome), consulte o veterinário antes de qualquer intervenção comportamental. Trate a causa médica primeiro.

Passo 2: Gestão do ambiente — elimine o acesso

O princípio mais eficaz: fezes não disponíveis = fezes não comidas.

  • Recolha as fezes imediatamente após a evacuação
  • Durante passeios, não deixe o cão farejar fezes de outros animais — mude de direção antes
  • Se o cão tem acesso ao quintal sem supervisão, faça passeios monitorados e limpe o quintal antes de liberar

Passo 3: Revise a dieta

  • A ração é adequada para o porte e fase de vida?
  • A quantidade está correta? (muitos tutores subalimentam sem saber — siga a tabela do fabricante por peso)
  • Se a ração for de qualidade muito baixa (grãos como primeiros ingredientes), considere melhorar

Para cães que preferem fezes de outros animais, adicionar enzimas digestivas à ração pode ajudar — existe suplemento específico para isso (NaturVet Stool Eating Deterrent, For-Bid, etc). Consulte o veterinário.

Passo 4: Treine "deixa" de forma sólida

Um "deixa" (ou "não") confiável é a ferramenta mais útil em passeios quando você flagra o interesse em fezes.

  1. Com petisco na mão fechada, deixe o cão tentar pegar.
  2. Quando ele desistir e se afastar: marque ("isso!") e dê o petisco da outra mão.
  3. Generalize para objetos no chão, depois para fezes em passeio.

O objetivo não é punir — é criar uma resposta condicionada: "esse objeto = me afasto e ganho coisa melhor".

Passo 5: Aumente estímulo e exercício

Se a causa é tédio:

  • Mais exercício físico (passeios mais longos, brincadeiras ativas)
  • Enriquecimento ambiental: Kong congelado, brinquedos de farejar, alimentação em comedouro lento
  • Sessões de treinamento de 5 minutos — trabalho mental cansa tanto quanto exercício físico

Passo 6: Elimine reforço acidental

Se o cão aprendeu que comer fezes gera reação do tutor:

  • Não reaja. Não grite, não corra.
  • Redirecione para outra atividade com calma.
  • Recompense abundantemente os momentos em que ele ignora fezes no ambiente.

Fezes de outros animais: risco específico

  • Fezes de gato: contêm toxoplasma e são altamente palatáveis para cães (maior teor proteico). Cubra a caixa de areia com tampa ou use modelo com saída pelo topo.
  • Fezes de pássaro/galinha: risco de Salmonela e parasitas específicos. Restrinja o acesso.
  • Fezes de coelho e herbívoros: menos risco, mas ainda indesejável. Alguns cães são atraídos por fezes ricas em fibras.

Linha do tempo realista

Para filhotes até 9 meses: gestão ambiental (recolher imediatamente) + maturidade natural resolvem em semanas a meses.

Para adultos com hábito estabelecido:

  • Semanas 1-2: gestão ambiental intensiva + revisão de dieta
  • Semanas 3-6: treinamento de "deixa" + aumento de estímulo
  • Mês 2+: frequência deve reduzir significativamente

Se após 2 meses de intervenção consistente sem melhora, considere consultar médico veterinário comportamentista — pode haver componente de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) canino em casos resistentes.

Perguntas frequentes

Coprofagia é sinal de doença?+

Pode ser. As causas mais comuns são comportamentais ou nutricionais, mas há condições médicas que aumentam a fome e levam à coprofagia: má absorção intestinal (EPI — insuficiência pancreática exócrina), diabetes, síndrome de Cushing, uso de corticoides. Se o comportamento começou de repente num cão adulto que não tinha esse hábito, ou se vier acompanhado de perda de peso ou aumento de apetite, consulte o veterinário antes de tentar correção comportamental.

Cachorro que come fezes pode me contaminar?+

Sim — indiretamente. Cão que come fezes (próprias ou de outros animais) pode carregar bactérias (Salmonela, Campylobacter), parasitas (Giardia, Toxocara, vermes) e vírus na boca. Lave as mãos após contato com o focinho, não deixe o cão lamber rosto, boca ou feridas abertas. Se o cão come fezes de outros animais (gato, pássaro, ovelha), o risco de parasitas é maior — mantenha a vermifugação em dia.

Suplemento de abacaxi ou abóbora resolve coprofagia?+

Há evidências anedóticas — não científicas — de que abacaxi fresco nas fezes as torna menos palatáveis. A enzima bromelina pode alterar o sabor. Funciona para alguns cães, não para outros. É inofensivo tentar, mas não espere resultado garantido. A abóbora cozida tem fibras que ajudam na digestão e pode complementar a dieta, mas não é tratamento para coprofagia por si só.

Spray anti-coprofagia funciona?+

Sprays colocados diretamente nas fezes para torná-las amargas podem ajudar como parte de uma estratégia mais ampla — mas funcionam somente se você conseguir tratar 100% das fezes disponíveis ao cão. Se ele come fezes de outros animais ou encontra fezes no ambiente, o spray não chega lá. Como solução única raramente funciona; como apoio junto a gestão do ambiente e reforço positivo, pode ajudar.

Filhote come fezes — isso é normal?+

Em filhotes, é muito mais comum e quase sempre passa sozinho até os 9 meses. Fêmeas com filhotes comem as fezes dos filhotes por instinto (limpeza do ninho). Filhotes podem imitar esse comportamento ou simplesmente explorar com a boca. A intervenção mais importante para filhotes é: remover as fezes imediatamente após a evacuação, antes que o filhote tenha acesso. Punição é contraproducente e não resolve.