1. Introdução

O Borzoi, também conhecido como “Cão da Corrida Russo”, é uma raça elegante, de porte grande, com um pelo longo e sedoso que chama a atenção por onde passa. Originário das estepes da Rússia, esse cão foi criado para perseguir presas em alta velocidade, combinando força, agilidade e um temperamento nobre. Hoje, o Borzoi vive principalmente como animal de companhia, e apesar de sua aparência aristocrática, ele tem necessidades específicas que, se atendidas corretamente, garantem uma vida longa, saudável e feliz.

Para tutores brasileiros, entender as particularidades dessa raça é essencial. O clima tropical, a disponibilidade de serviços veterinários e a rotina urbana podem representar desafios diferentes dos que os criadores originais enfrentavam nas frias planícies russas. Além disso, o Borzoi tem predisposições genéticas a certas enfermidades que, quando detectadas precocemente, podem ser manejadas com sucesso.

Este artigo foi elaborado com base em literatura veterinária atual, protocolos de manejo de raças grandes e na experiência prática de profissionais que acompanham Borzois no Brasil. O objetivo é oferecer um guia completo, empático e acessível, que ajude o tutor a identificar os sete problemas de saúde mais comuns na raça, compreender como prevenir, tratar e, sobretudo, promover o bem‑estar integral do seu companheiro. Ao final da leitura, você terá ferramentas práticas para criar um ambiente saudável, alimentar corretamente seu Borzoi, treiná‑lo de forma positiva e reconhecer sinais de alerta antes que pequenas questões se tornem graves.


2. Características Principais

O Borzoi destaca‑se por um conjunto de traços físicos e comportamentais que o tornam único.

  • Morfologia: É um cão de porte grande, pesando entre 27 kg e 45 kg, com altura de 71 cm a 81 cm na cernelha. Seu corpo é longo, com peito profundo e costelas bem arqueadas, permitindo grande capacidade pulmonar – essencial para a corrida.
  • Pelagem: Possui duas camadas de pelos – um subpelo macio e denso e uma camada externa longa, ondulada ou reta, que pode chegar a 5 cm de comprimento. A cor varia entre branco, creme, fulvo, cinza, preto e combinações como “sable”. Essa pelagem exige escovação regular para evitar nós e impedir a formação de dermatites.
  • Temperamento: O Borzoi costuma ser calmo, gentil e leal ao seu tutor. Embora tenha sido um cão de caça, hoje tende a ser mais “couch‑potato”, apreciando momentos de descanso. Entretanto, conserva um instinto de caça forte, reagindo com entusiasmo a pequenos animais que cruzem seu caminho.
  • Energia e Exercício: Precisa de exercícios diários, mas não em excesso. Corridas curtas em áreas seguras são ideais; o risco de sobrecarga nas articulações é maior em cães muito jovens ou idosos.
  • Inteligência e Sensibilidade: É inteligente, porém pode ser teimoso. Responde melhor a métodos de treinamento baseados em reforço positivo, pois a punição pode gerar ansiedade ou retraimento.
Essas características influenciam diretamente nos cuidados diários: a pelagem demanda atenção estética, o temperamento dócil facilita a socialização, e a predisposição a problemas ortopédicos orienta a escolha de atividades físicas adequadas. Conhecer cada detalhe ajuda o tutor a criar um ambiente que respeite a natureza do Borzoi, evitando frustrações e promovendo uma convivência harmoniosa.


3. Cuidados Essenciais

Higiene da Pelagem


  • Escovação: Pelo menos 3 vezes por semana, preferencialmente com uma escova de cerdas macias ou uma luva de grooming. Isso remove pelos soltos, evita nós e diminui a queda de pelos pela casa.
  • Banho: Realizar a cada 6 a 8 semanas ou quando o cão estiver realmente sujo. Use shampoos específicos para peles sensíveis, evitando produtos com fragrâncias fortes que podem irritar a pele.
  • Secagem: Seque bem com toalha e, se necessário, use secador em temperatura baixa. A umidade acumulada favorece fungos e dermatites.

Saúde Dental


  • Escovação Diária: Use escova de dentes e pasta própria para cães. A placa bacteriana pode levar a periodontite, que afeta a saúde geral.
  • Mordedores e Petiscos Dentais: Ofereça alguns dias por semana para complementar a higiene.

Controle de Parasitas


  • Pulgas e Carrapatas: Aplicar preventivos mensais (pipetas, coleiras ou comprimidos) recomendados pelo veterinário. A região Norte do Brasil tem maior incidência de carrapatos que transmitem a doença de Lyme e babesiose.
  • Vermes Internos: Desparasitação a cada 3 meses em cães adultos, ou conforme protocolo de vida ao ar livre.

Manutenção das Unhas e Orelhas


  • Unhas: Aparar quando atingirem o chão, geralmente a cada 15‑30 dias. Unhas muito longas podem causar desconforto ao caminhar e até lesões.
  • Orelhas: Limpar com solução isotônica ou produto indicado, evitando a entrada de água que favoreça infecções.

Visitas Veterinárias de Rotina


  • Check‑ups Semestrais: Avaliação geral, vacinação, exames de sangue e avaliação ortopédica.
  • Exames Específicos: Radiografias de quadril e coluna em cães com histórico familiar de displasia ou em animais que apresentem claudicação.
Cumprir esses cuidados básicos cria uma base sólida para a detecção precoce de problemas de saúde e reduz a incidência de doenças evitáveis. Além disso, demonstra ao seu Borzoi que ele está em um ambiente seguro e bem cuidado, reforçando o vínculo afetivo entre tutor e animal.


4. Alimentação e Nutrição

Necessidades Energéticas

Por ser um cão de porte grande, o Borzoi necessita de uma dieta que forneça energia suficiente para manter a musculatura, mas sem excessos que favoreçam a obesidade – um fator de risco para doenças ortopédicas e cardíacas. Em média, um adulto requer entre 1.800 kcal e 2.500 kcal por dia, variando conforme nível de atividade, idade e metabolismo.

Macro e Micronutrientes Essenciais

Nutriente
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Proteína de alta qualidade
Carnes magras (frango, peru, peixe), ovos, proteína hidrolisada
Ácidos graxos ômega‑3
Óleo de peixe, linhaça, sardinha
Cálcio e fósforo
Farinha de ossos, suplementos específicos para raças grandes
Glucosamina e condroitina
Extrato de cartilagem, suplementos veterinários
Vitaminas A, D, E
Ingredientes naturais (cenoura, batata‑doce) ou suplementação controlada

Alimentação Comercial vs. Caseira

  • Ração para raças grandes: Geralmente balanceada para atender às necessidades de cálcio, fósforo e energia. Escolha marcas que possuam “AAFCO” ou “FEDIAF” como referência de qualidade e que incluam fontes de ômega‑3.
  • Dieta caseira: Pode ser usada sob orientação de nutricionista veterinário, garantindo proporções corretas de macro e micronutrientes. É fundamental incluir fontes de cálcio (farinha de ossos) e controlar a ingestão de gorduras.

Rotina Alimentar

  • Divisão das refeições: 2 a 3 porções diárias. Alimentar ao mesmo horário ajuda a regular o metabolismo e a evitar a ingestão excessiva.
  • Controle de peso: Pese o cão a cada 2‑3 meses. Ajuste a quantidade de ração se houver ganho ou perda de mais de 5 % do peso corporal.
  • Água fresca: Disponibilize sempre, principalmente em climas quentes.

Suplementação Preventiva

  • Ômega‑3: 100 mg/kg de peso corporal por dia, para pelagem brilhante e ação anti‑inflamatória.
  • Glucosamina + Condroitina: 10 mg/kg de glucosamina diárias, recomendadas a partir dos 2 anos ou antes de sinais de artrose.
  • Probióticos: Em caso de alterações intestinais ou uso frequente de antibióticos.
Uma alimentação bem planejada não só fornece energia, mas também fortalece o sistema imunológico, melhora a qualidade da pelagem e diminui a probabilidade de desenvolvimento de doenças metabólicas, como diabetes e hipotireoidismo, que podem afetar o Borzoi.


5. Saúde e Prevenção – 7 Problemas de Saúde Mais Comuns e Como Tratar

1. Displasia de Quadril (DQ)

  • Descrição: Mal‑formação da articulação que pode levar à dor crônica e artrose.
  • Prevenção: Escolher criadores que realizam radiografias de controle, evitar sobrepeso e limitar exercícios de alto impacto em filhotes.
  • Tratamento: Controle da dor com anti‑inflamatórios (NSAIDs), fisioterapia, suplementos de glucosamina e, em casos avançados, cirurgia de osteotomia ou artroplastia.

2. Problemas de Coluna – Hérnia de Disco e Síndrome de Wobbler


  • Descrição: Compressão da medula espinhal que causa fraqueza nos membros posteriores.
  • Prevenção: Manter o peso ideal, evitar saltos bruscos, usar rampas ao invés de escadas.
  • Tratamento: Medicamentos anti‑inflamatórios, terapia de reabilitação, e, quando necessário, cirurgia de descompressão.

3. Cardiomiopatia Dilatada (CMD)


  • Descrição: Enfraquecimento do músculo cardíaco, levando a insuficiência cardíaca.
  • Prevenção: Check‑ups cardíacos regulares (ecocardiograma) a partir dos 3 anos.
  • Tratamento: Medicamentos como pimobendan, ACE inhibitors, diuréticos e acompanhamento periódico.

4. Hipotireoidismo


  • Descrição: Produção insuficiente de hormônios tireoidianos, resultando em letargia, ganho de peso e queda de pelos.
  • Prevenção: Exames de sangue anuais em cães acima de 2 anos.
  • Tratamento: Terapia de reposição com levotiroxina, dose ajustada a cada 6‑8 semanas inicialmente.

5. Dermatite Alérgica (atópica ou de contato)


  • Descrição: Coceira, vermelhidão e perda de pelos, frequentemente desencadeada por pólen, ácaros ou irritantes.
  • Prevenção: Banhos com shampoos hipoalergênicos, controle de ácaros em ambiente doméstico.
  • Tratamento: Antihistamínicos, corticoides de curta duração, imunoterapia (vacinas de alérgenos) e shampoos medicinais.

6. Câncer de Mastócitos e Linfoma


  • Descrição: Tumores de origem mamária ou linfática, mais comuns em cães de porte grande.
  • Prevenção: Exames de palpação de nódulos mensais, exames de sangue e ultrassonografia de rotina a partir dos 7 anos.
  • Tratamento: Cirurgia, quimioterapia ou terapia alvo, conforme estadiamento.

7. Catarata e Glaucoma


  • Descrição: Opacificação da lente ou aumento da pressão intraocular, causando perda de visão.
  • Prevenção: Exames oftalmológicos anuais, especialmente em cães acima de 5 anos.
  • Tratamento: Cirurgia de remoção da catarata ou implante de válvula para glaucoma; uso de colírios para controlar a pressão.
#### Estratégias Gerais de Prevenção

  • Exames de Triagem: Radiografias de quadril, ecocardiograma, exames de sangue (TSH, T4, perfil hepático) e avaliação oftalmológica.
  • Controle de Peso: Manter o Índice de Massa Corporal (IMC) entre 18‑22.
  • Atividade Física Adequada: Caminhadas curtas e controladas, evitando corridas intensas em superfícies duras.
  • Vacinação Atualizada: Vacina contra cinomose, parvovirose, raiva, leptospirose e, quando indicado, contra a doença de Lyme.
  • Educação do Tutor: Reconhecer sinais como claudicação, falta de apetite, letargia, coceira excessiva ou alterações de comportamento.
Ao adotar essas medidas preventivas e agir rapidamente ao primeiro sinal de doença, o tutor aumenta significativamente as chances de tratamento bem‑sucedido e prolonga a qualidade de vida do seu Borzoi.


6. Treinamento e Comportamento

Perfil Comportamental

O Borzoi combina elegância com um instinto de caça ainda muito presente. Ele costuma ser independente, mas também afetuoso com a família. Essa mistura pode gerar:

  • Fuga ao avistar pequenos animais (coelhos, gatos).
  • Timidez com estranhos, sobretudo em ambientes muito movimentados.
  • Teimosia quando o treinamento não for motivador.

Principais Desafios

  • Reatividade ao movimento – Corridas de outros cães ou bicicletas podem desencadear perseguição.
  • Ansiedade de separação – Embora não seja tão comum quanto em raças pequenas, alguns Borzois podem ficar inquietos quando deixados sozinhos por longos períodos.
  • Socialização tardia – Falta de exposição a diferentes estímulos na fase de filhote pode resultar em medo ou agressividade.

Estratégias de Treinamento Positivo

Técnica
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Reforço positivo (petiscos, elogios)
Aumenta a motivação e cria associação alegre.
Clicker training
Precisão na comunicação, reduz a necessidade de correções físicas.
Desensibilização e contra‑condicionamento
Diminui a reatividade e o medo.
Comandos de “soltar” e “vir”
Facilita o controle em situações de fuga.
Enriquecimento ambiental
Gasta energia mental, reduz ansiedade e comportamento destrutivo.

Rotina de Exercícios

  • Caminhadas curtas (15‑20 min) duas vezes ao dia, em local sem grande fluxo de animais.
  • Sessões de “sprint” (2‑3 minutos) em área cercada, para liberar a energia de caça.
  • Natação (quando possível) – baixa carga nas articulações, ótima para fortalecimento cardiovascular.

Dicas de Socialização

  • Iniciar cedo – Entre 8 e 12 semanas, apresentar a filhote a diferentes pessoas, sons e superfícies.
  • Usar “caminhadas em grupo” – Levar o filhote a parques com outros cães bem comportados, sempre sob supervisão.
  • Reforçar comportamentos calmos – Premiar o cão que se mantém tranquilo ao encontrar um gato ou outro animal.

Manejo de Ansiedade

  • Música relaxante ou feromônios sintéticos (ex.: Adaptil) podem acalmar o animal em ausências prolongadas.
  • Rotina previsível – Alimentar, passear e brincar nos mesmos horários ajuda a reduzir o estresse.
  • Caixa de transporte (quando introduzida corretamente) pode servir como “refúgio seguro”.
Com paciência, consistência e foco no reforço positivo, o tutor consegue transformar o instinto natural de caça do Borzoi em comportamentos controlados, mantendo a segurança do animal e das pessoas ao redor.


7. Dicas Práticas para Tutores

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