1. Introdução

O Borzoi, também conhecido como Cão de Corrida Russo, é uma das raças mais elegantes e aristocráticas do mundo canino. Originário da nobreza russa do século XVII, este cão foi criado para perseguir e abater presas rápidas, como a lebre, nas extensas planícies da Europa Oriental. Hoje, o Borzoi conquistou lares ao redor do globo, incluindo o Brasil, onde sua beleza hipnotizante – um corpo esguio, pelagem longa e fluida e um olhar melancólico – atrai tutores que buscam um companheiro sofisticado e ao mesmo tempo afetuoso.

Entretanto, a aparência impressionante do Borzoi costuma mascarar necessidades específicas de cuidados. Por ser um cão de tamanho grande, com estrutura óssea delicada e pele sensível, ele requer atenção especial em diversas áreas: desde a escolha de uma alimentação balanceada até a prevenção de doenças ortopédicas e o manejo correto da pelagem. Além disso, seu temperamento “nobre” pode gerar desafios comportamentais, principalmente quando o tutor não compreende suas origens de caça e a necessidade de estímulos físicos e mentais adequados.

Este guia foi desenvolvido para oferecer informação prática, baseada em evidências veterinárias, e ao mesmo tempo manter um tom empático e acolhedor, essencial para quem está iniciando a jornada com um Borzoi ou já convive com ele há anos. Ao longo dos próximos tópicos, abordaremos as principais características da raça, os cuidados essenciais que garantem qualidade de vida, orientações nutricionais, estratégias de saúde preventiva, técnicas de treinamento, dicas do dia‑a‑dia e curiosidades que ajudam a desfazer mitos populares.

Nosso objetivo é que você, tutor brasileiro, se sinta confiante para oferecer ao seu Borzoi tudo o que ele precisa: bem‑estar, segurança e muito amor. Vamos juntos explorar cada detalhe que faz dessa raça um verdadeiro tesouro canino!


2. Características Principais

2.1. Aparência física


  • Tamanho: Machos medem entre 76 e 86 cm na cernelha; fêmeas, 71 a 81 cm. O peso varia de 27 a 45 kg, conferindo ao Borzoi um aspecto “esguio‑musculoso”.
  • Pelagem: Longa, sedosa e levemente ondulada, pode ser lisa ou ligeiramente ondulada. As cores mais comuns são o preto, prata, ruivo, branco e combinações de duas ou três tonalidades.
  • Cabeça: Fino focinho, orelhas pequenas e pontiagudas, quase sempre dobradas para trás. Os olhos são escuros, de formato amendoado, transmitindo um olhar melancólico.

2.2. Temperamento


  • Independente, porém afetuoso: O Borzoi costuma ser reservado com estranhos, mas cria laços profundos com a família. Ele prefere ser “convidado” a interagir, não forçado.
  • Instinto de caça: Ainda que domesticado, mantém forte impulso de perseguição. Isso implica necessidade de áreas seguras para correr e supervisão em ambientes abertos.
  • Sensibilidade: Reage a ruídos altos ou situações de estresse com ansiedade. Por isso, ambientes calmos e rotinas previsíveis são ideais.

2.3. Energia e necessidade de exercício


  • Explosões curtas de alta energia: O Borzoi adora corridas rápidas em campo aberto, mas não necessita de longas caminhadas diárias. Uma sessão de 30‑45 min de corrida livre, duas a três vezes por semana, costuma ser suficiente.
  • Recuperação: Por ter músculos finos e articulações delicadas, ele precisa de períodos de descanso entre os treinos intensos.

2.4. Saúde geral da raça


  • Problemas ortopédicos: Displasia coxofemoral e luxação patelar são mais frequentes em linhas com pouca seleção genética.
  • Cardiovascular: A cardiomiopatia dilatada (geralmente de início tardio) pode aparecer em indivíduos mais velhos.
  • Dermatologia: Devido à pelagem longa, é suscetível a nós, dermatites de pele e infecções fúngicas se a higiene não for mantida.
Essas características formam o panorama que todo tutor deve considerar ao planejar os cuidados diários. Elas influenciam diretamente nas escolhas de alimentação, exercícios, manejo de pelagem e acompanhamento veterinário.


3. Cuidados Essenciais

3.1. Ambiente seguro e confortável


  • Espaço interno: Um cantinho tranquilo, com cama ortopédica de apoio, protege as articulações e oferece refúgio ao cão.
  • Área externa: Se houver quintal, certifique‑se de que esteja cercado com cerca alta (mínimo 1,80 m) e sem lacunas. Borzois são “exploradores” e podem fugir ao avistar pequenos animais.

3.2. Higiene da pelagem


  • Escovação diária: Use uma escova de cerdas macias ou pente de dentes largos para remover nós e pelos soltos. Esse hábito de escovação reduz a formação de emaranhados e a ingestão de pelos ao se lamber.
  • Banhos: Realize a cada 4‑6 semanas, ou quando a pelagem estiver realmente suja. Use shampoos específicos para peles sensíveis e condicionadores que mantenham a oleosidade natural. Evite água muito quente, que pode ressecar a pele.

3.3. Cuidados com as orelhas e olhos


  • Limpeza das orelhas: Verifique semanalmente a presença de cera ou odores. Limpe com solução salina ou produtos específicos, evitando o uso de cotonetes que podem perfurar o canal auditivo.
  • Olhos: Limpe suavemente com gaze úmida se houver secreção. Caso note vermelhidão ou lacrimejamento excessivo, procure o veterinário.

3.4. Controle de parasitas


  • Vermifugação: Realize a cada 3‑4 meses, de acordo com a recomendação do veterinário, principalmente se o cão tem acesso ao exterior.
  • Pulgas e carrapatos: Produtos spot‑on ou coleções orais de longa duração (ex.: afoxolaner, fluralaner) são eficazes. A aplicação deve ser feita em períodos de maior incidência, como primavera e verão.

3.5. Socialização e estímulo mental


  • Introdução a novos ambientes: Leve o Borzoi a parques, praças e casas de amigos de forma gradual, recompensando comportamentos calmos.
  • Jogos de inteligência: Puzzles de alimentação, brinquedos que liberam petiscos e sessões de “esconde‑esconde” ajudam a canalizar a energia mental.

3.6. Rotina de cuidados veterinários


  • Check‑ups semestrais: Avaliação ortopédica, exames de sangue e avaliação cardiovascular.
  • Vacinação: Mantenha o esquema completo (cinco vias + reforços anuais).
Esses cuidados formam a base para um Borzoi saudável, feliz e bem ajustado ao convívio familiar.


4. Alimentação e Nutrição

4.1. Necessidades calóricas


  • Cálculo básico: Um Borzoi adulto de 35 kg, com nível de atividade moderado, necessita de aproximadamente 1.800‑2.200 kcal/dia. Filhotes em fase de crescimento podem precisar de 2.500‑3.000 kcal, distribuídas em 3‑4 refeições.
  • Ajuste por condição corporal: Avalie a pontuação do Body Condition Score (BCS) a cada consulta. Se o cão estiver acima de 6/9, reduza 10 % das calorias; se estiver abaixo de 4/9, aumente 10 %.

4.2. Composição ideal da ração


Nutriente
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Proteína de alta qualidade
Manutenção muscular e crescimento
Gordura
Fonte de energia e suporte à pelagem
Carboidratos (fibra)
Saúde digestiva
Ômega‑3 (EPA/DHA)
Pelagem brilhante e anti‑inflamatório
Glucosamina + 0,5‑1 %
Suporte articular |

Prefira rações premium ou super‑premium, que utilizam fontes de proteína animal como frango, cordeiro ou peixe como primeiro ingrediente. Evite produtos com “subprodutos de origem desconhecida” ou excesso de enchimentos (milho, trigo).

4.3. Alimentação caseira (opcional)

  • Proteína: Carnes magras cozidas (frango sem pele, peru, carne bovina magra) – 60 % da refeição.
  • Carboidrato: Arroz integral ou batata‑doce – 20 %.
  • Vegetais: Abóbora, cenoura, brócolis (bem cozidos e picados) – 15 %.
  • Suplementos: Óleo de peixe (1 cápsula de 1000 mg por 10 kg de peso) e glucosamina/chondroitina (conforme indicação veterinária).
Importante: Sempre consulte o veterinário antes de iniciar dieta caseira, pois a falta de micronutrientes pode gerar deficiências.

4. 4. Controle de peso


  • Monitoramento: Pese o Borzoi a cada 15 dias nos primeiros 6 meses de vida, depois a cada 2‑3 meses.
  • Recompensas saudáveis: Use petiscos de baixa caloria (tiras de frango desidratado, pedaços de cenoura) em vez de biscoitos industrializados.

4.5. Hidratação


  • Água fresca: Disponibilize sempre água limpa e fresca. Borzois, por serem ativos em clima quente, podem desidratar rapidamente.
  • Fontes alternativas: Caldos de carne sem tempero (sem sal) podem ser oferecidos como incentivo à ingestão de líquidos.
Ao seguir essas diretrizes, você garante que o seu Borzoi receba os nutrientes necessários para manter a pelagem sedosa, a musculatura forte e as articulações saudáveis.


5. Saúde e Prevenção

5.1. Doenças ortopédicas


  • Displasia coxofemoral: Exame radiográfico a partir dos 12 meses. Se detectada, o manejo inclui controle de peso, suplementação com glucosamina e, em casos graves, cirurgia corretiva.
  • Luxação patelar: Sinais de claudicação intermitente. O tratamento pode ser conservador (fisioterapia, controle de peso) ou cirúrgico, dependendo do grau.

5.2. Cardiomiopatia dilatada (CMD)


  • Triagem: Ecocardiograma anual a partir dos 5 anos, principalmente em linhas de sangue com histórico da doença.
  • Manejo: Medicamentos como enalapril ou pimobendan podem retardar a progressão. Dieta baixa em sódio também ajuda.

5.3. Problemas oculares


  • Catarata e atrofia progressiva da retina (PRA): Exames oftalmológicos a cada 2 anos. A catarata pode ser tratada cirurgicamente, mas a PRA não tem cura, apenas manejo da visão residual.

5.4. Dermatites e infecções de pele


  • Prevenção: Escovação diária, banhos regulares e secagem completa da pelagem.
  • Tratamento: Shampoo antifúngico ou antibacteriano prescrito, associado a terapia tópica (cremes ou sprays).

5.5. Vacinação e vermifugação


Vacina
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V8 (cinco vias)
3‑4 semanas depois, depois anualmente
Raiva
Anual (ou conforme legislação local)
Leptospirose
Anual
Bordetella (tosse dos canis)
Anual (para cães que frequentam ambientes coletivos)
Vermifugação: Coccídios, giárdia e ancilostomídeos – protocolo a cada 3‑4 meses, ajustado ao risco ambiental.

5.6. Exames de rotina recomendados

  • Hemograma completo e bioquímica: Anual, para detectar alterações hepáticas ou renais precocemente.
  • Teste de tireoide: Em cães acima de 6 anos, pois hipotireoidismo pode surgir e afetar a pelagem.
  • Exames de urina: Avaliar função renal e presença de infecção urinária, especialmente em machos castrados que podem desenvolver prostatite.

5.7. Estratégias de prevenção de acidentes


  • Coleira com identificação: Nome, telefone e microchip obrigatório.
  • Uso de guias curtas: Em áreas urbanas, para evitar corridas inesperadas em direção a veículos.
  • Treinamento de recall: Comando “vem” reforçado com petisco de alta motivação, fundamental para controlar o impulso de caça.
Investir em prevenção reduz custos veterinários futuros e, sobretudo, garante ao Borzoi uma vida longa e confortável.


6. Treinamento e Comportamento

6.1. Princípios básicos de adestramento


  • Reforço positivo: Use petiscos, elogios verbais e carícias como recompensa imediata. O Borzoi responde melhor a estímulos agradáveis do que a punições.
  • Consistência: Mantenha os mesmos comandos e gestos entre todos os membros da família.
  • Curto e frequente: Sessões de 5‑10 minutos, 2‑3 vezes ao dia, são mais eficazes do que treinos longos que podem gerar fadiga e desinteresse.

6.2. Comandos essenciais


Comando
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“Sentar”
Use petisco acima da cabeça e mova-o levemente para trás; o cão naturalmente senta.
“Deitar”
Após “sentar”, segure o petisco no chão e deslize para frente.
“Fica”
Comece a poucos segundos, aumente gradualmente o tempo.
“Vem” (recall)
Treine em áreas seguras, use grande recompensa ao retorno.
“Larga”
Troque o objeto por um petisco de maior valor.

6.3. Controle do instinto de caça

  • Canil de corrida: Se possível, ofereça sessões em campo fechado, permitindo que o Borzoi corra livremente sob supervisão.
  • Jogo de busca: Use brinquedos que se movem (frisbees, bolas leves) para canalizar a perseguição de forma segura.
  • Desensibilização: Exponha o cão gradualmente a pequenos animais (coelhos de pelúcia, pássaros de brinquedo) sem permitir a perseguição, recompensando a calma.

6.4. Socialização


  • Filhotes (8‑16 semanas): Introduza a diferentes pessoas, sons (trânsito, aspirador) e outros cães em ambientes controlados.
  • Adultos: Use caminhadas em parques com cães amigáveis, mas mantenha a coleira até que o cão demonstre confiança.

6.5. Problemas comportamentais comuns e soluções

Problema
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Ansiedade de separação
Treinos de “fica” curtos, deixar brinquedo interativo, usar som ambiente (música suave).
Latidos excessivos ao ver animais
Treinar “ignorar” e “olho” (foco no tutor), recompensar o controle visual.
Agressividade com outros cães
Reintrodução gradual em ambiente neutro, reforço positivo por comportamento calmo.
Destruição de objetos
Aumentar tempo de exercício, oferecer brinquedos de mastigação duráveis.

6.6. Ferramentas auxiliares

  • Clicker: Marca o comportamento desejado com precisão, facilitando o aprendizado.
  • Coleira de treinamento: Utilizar apenas como auxílio, nunca como puni