1. Introdução

O Border Terrier, apesar de ser uma das raças menos conhecidas no Brasil, tem conquistado cada vez mais espaço nas casas de tutores que buscam um companheiro inteligente, leal e cheio de energia. Originário das áreas fronteiriças entre a Inglaterra e a Escócia – de onde vem o próprio nome “Border” – esse pequeno cão foi desenvolvido para caçar raposas e outros animais de pequeno porte em terrenos acidentados. Essa história de trabalho confere ao Border Terrier um conjunto de características físicas e comportamentais que o tornam singular: pelagem curta e resistente, corpo compacto, olfato apurado e um temperamento que equilibra independência e afeto.

Para quem está considerando adotar um Border Terrier, ou já possui um e deseja aprofundar o conhecimento sobre as necessidades da raça, este artigo traz informações detalhadas e baseadas em evidências veterinárias. A proposta é oferecer um guia completo que auxilie o tutor brasileiro a proporcionar qualidade de vida, saúde e bem‑estar ao seu cão, ao mesmo tempo em que fortalece o vínculo afetivo entre ambos.

Ao longo das próximas seções, abordaremos as principais características físicas e de personalidade, os cuidados essenciais (higiene, exercício, socialização), orientações sobre alimentação balanceada, prevenção de doenças comuns, estratégias de treinamento e dicas práticas para o dia a dia. Tudo isso com uma linguagem acessível, empática e focada no bem‑estar animal, para que o tutor se sinta seguro e motivado a oferecer ao seu Border Terrier a vida saudável e feliz que ele merece.


2. Características Principais

Aparência física

O Border Terrier é um cão de porte pequeno, porém robusto. Seu peso varia entre 6 e 9 kg, e a altura fica entre 33 e 38 cm na cernelha. A pelagem é curta, densa e de textura áspera, o que a torna resistente à água e ao contato com vegetação espinhosa – herança direta de sua função de caça em terrenos agrestes. As cores mais comuns são o “roxo” (uma mistura de preto e marrom) e o “loiro”, mas podem aparecer combinações como “preto e marrom” ou “branco com manchas”.

Personalidade e temperamento

O Border Terrier se destaca por ser inteligente, curioso e persistente. Ele adora investigar ambientes novos, o que pode levá‑lo a cavar ou perseguir pequenos animais. Apesar dessa energia exploradora, a raça é extremamente afetuosa com a família, especialmente com crianças que respeitem seu espaço. É um cão que gosta de estar próximo das pessoas, mas não sofre de ansiedade de separação tão intensa quanto algumas raças de companhia.

Em termos de sociabilidade, o Border Terrier costuma ser amigável com outros cães, principalmente se socializado desde filhote. Contudo, seu instinto de caça pode desencadear reações de perseguição a pequenos animais (gatos, coelhos), exigindo supervisão e treinamento adequado.

Inteligência e capacidade de aprendizado

Classificado como um dos cães mais inteligentes (segundo o ranking de Stanley Coren), o Border Terrier aprende rapidamente comandos básicos e truques avançados. Essa aptidão mental, porém, vem acompanhada de uma necessidade de estímulo constante; caso contrário, o animal pode desenvolver comportamentos destrutivos, como mastigar objetos ou latir excessivamente.

Energia e necessidade de exercício

Apesar do tamanho compacto, o Border Terrier possui alta energia. Ele precisa de pelo menos 30 a 60 minutos diários de atividade física, que podem ser divididos entre caminhadas, brincadeiras no quintal e exercícios mentais (puzzles, jogos de farejar). A prática regular de exercícios ajuda a controlar o peso, prevenir problemas ortopédicos e manter o temperamento equilibrado.


3. Cuidados Essenciais

Higiene e tosa de pelos

A pelagem curta do Border Terrier é relativamente fácil de escovar, porém requer escovação semanal para remover pelos soltos e evitar nós. Por ser uma raça que costuma viver ao ar livre, recomenda‑se também a limpeza das orelhas com frequência, já que o formato compacto pode acumular cera e favorecer infecções.

A tosa de pelos não é obrigatória, mas muitos tutores optam por um corte de estilo “taper” (mais curto nas laterais e mais longo no dorso) para facilitar a manutenção e melhorar a ventilação em climas quentes. Se houver dúvidas, o ideal é consultar um tosador especializado em raças de caça.

Banho e higiene geral

Devido à sua natureza ativa e ao contato frequente com terra e vegetação, o Border Terrier pode precisar de banhos ocasionais. Use sempre shampoos específicos para cães, preferencialmente com pH balanceado e ingredientes naturais (como aveia ou aloe vera) para não irritar a pele. Evite banhos excessivos, pois podem remover a camada de óleo natural que protege a pelagem.

Exercício físico e mental

Como mencionado, o Border Terrier precisa de exercício diário. Para tutores que moram em apartamento, recomenda‑se dividir a atividade em caminhadas curtas (3–4 vezes ao dia) e brincadeiras indoor (busca de brinquedo, jogos de esconder petiscos). Os brinquedos interativos, como “Kong” recheado ou “puzzles” de farejar, são excelentes para estimular a mente e reduzir o tédio.

Socialização e ambientes seguros

A socialização precoce, entre 4 e 12 semanas de idade, é crucial para evitar comportamentos agressivos ou medrosos. Exponha o filhote a diferentes sons (trânsito, eletrodomésticos), pessoas (crianças, idosos) e outros animais. Em casa, crie um espaço seguro (cama ou cantinho) onde o cão possa se refugiar quando precisar de descanso.

Cuidados com as patas

Devido ao hábito de cavar e correr em terrenos rochosos, é importante verificar as patas diariamente, removendo pedras, farpas ou sujeira que possam causar irritação. O uso de cremes hidratantes específicos para patinhas pode prevenir ressecamento e rachaduras, principalmente em climas secos.


4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

Um Border Terrier adulto, com peso médio de 7 kg, necessita de aproximadamente 400 a 550 kcal por dia, dependendo do nível de atividade física. Filhotes em fase de crescimento têm demandas maiores (até 30 % a mais) e requerem dietas formuladas para crescimento, com maior teor de proteína e DHA (para desenvolvimento cerebral).

Macro‑nutrientes essenciais

  • Proteína: 22–28 % da dieta, preferencialmente de origem animal (frango, peixe, carne bovina). A proteína de alta qualidade garante manutenção muscular e suporte ao sistema imunológico.
  • Gordura: 12–15 % da ração, contendo ácidos graxos ômega‑3 e ômega‑6, essenciais para pelagem brilhante e saúde da pele.
  • Carboidrato: 40–50 % da dieta, preferencialmente de fontes de fácil digestão (arroz integral, batata doce). Evite excesso de milho ou trigo, que podem causar alergias em cães sensíveis.

Micronutrientes e suplementos


  • Cálcio e fósforo: importantes para a saúde óssea, especialmente em raças pequenas que podem desenvolver displasia de quadril se a proporção estiver desequilibrada.
  • Vitamina E e selênio: antioxidantes que ajudam a prevenir doenças cardíacas e inflamações.
  • Glucosamina e condroitina: podem ser incluídos como suplemento preventivo, pois o Border Terrier tem predisposição a problemas articulares (displasia de cotovelo).

Alimentação caseira vs ração comercial

A maioria dos tutores opta por ração comercial de alta qualidade, que oferece balanço nutricional garantido por normas da AAFCO (Association of American Feed Control Officials). Caso deseje preparar alimentação caseira, é imprescindível consultar um nutricionista veterinário para formular a dieta e evitar deficiências.

Frequência das refeições

  • Filhotes: 3 a 4 refeições diárias, divididas ao longo do dia, para evitar picos de glicemia e facilitar a digestão.
  • Adultos: 2 refeições diárias (manhã e noite) são suficientes, desde que a quantidade total de calorias seja respeitada.

Dicas práticas de alimentação


  • Mantenha água fresca sempre disponível – o Border Terrier tem tendência a beber mais após atividades intensas.
  • Use comedouros anti‑derrapamento – a raça costuma ser bastante agitada ao comer, e um prato estável evita desperdício de ração.
  • Evite alimentos “humanizados” (pão, queijo em excesso) que podem levar a obesidade e intolerâncias.
  • Observe o peso corporal: ajuste a quantidade de ração se o cão ganhar ou perder mais de 5 % do peso ideal em duas semanas.
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5. Saúde e Prevenção

Principais doenças da raça

Doença
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Displasia de cotovelo
Controle de peso, exercícios de baixo impacto, suplementação com glucosamina
Alergia cutânea
Dieta hipoalergênica, higiene regular das orelhas e pele
Doença de von Willebrand (distúrbio de coagulação)
Testes genéticos em filhotes, evitar cirurgias invasivas sem avaliação
Obesidade
Alimentação balanceada, exercício diário, monitoramento de calorias
Problemas dentários (tártaro, gengivite)
Escovação dental semanal, brinquedos de mastigação

Vacinação e vermifugação

  • Vacinas essenciais: V8 (cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa, leptospirose) + antirrábica anual. Em regiões com risco de leptospirose, a vacina pode ser dada anualmente.
  • Vermifugação: protocolo típico inclui vermifugação a cada 3 meses durante o primeiro ano, depois a cada 6 meses, ou conforme recomendação do veterinário, principalmente se o cão tem acesso ao exterior.

Controle de parasitas externos


  • Pulgas e carrapatos: use produtos tópicos (pipetas) ou coleiras com ação prolongada (ex.: fluralaner). A prevenção é crucial, pois carrapatos são vetores de doenças como a babesiose.

Exames de rotina


  • Exame físico anual: avaliação de peso, dentição, pele, articulações e ausculta cardíaca.
  • Hemograma completo e bioquímica: recomendados a cada 2–3 anos em cães adultos saudáveis, ou anualmente se houver histórico familiar de doenças metabólicas.
  • Teste genético para von Willebrand: pode ser feito em filhotes, especialmente se houver histórico na linhagem.

Dicas práticas de prevenção


  • Mantenha o peso ideal – obesidade aumenta risco de displasia e doenças cardíacas.
  • Escove os dentes com pasta dental veterinária 2–3 vezes por semana.
  • Higiene das orelhas: limpe com solução isotônica ou produtos específicos, evitando o uso de algodão que pode lesionar o canal auditivo.
  • Controle de calor: o Border Terrier tem pelagem curta, mas ainda pode sofrer choque térmico em dias muito quentes; ofereça sombra e água fresca.
  • Visitas ao veterinário: não espere o animal apresentar sinais; a prevenção é a melhor estratégia para garantir longevidade e qualidade de vida.
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6. Treinamento e Comportamento

Principais desafios comportamentais


  • Instinto de caça: tendência a perseguir pequenos animais, o que pode gerar fugas ou brigas.
  • Latidos excessivos: quando entediado ou alerta a estímulos externos.
  • Destruição de objetos: mastigação de móveis, sapatos ou objetos ao sentir tédio.

Estratégias de adestramento positivo


  • Reforço positivo – use petiscos de alto valor (pedaços de frango cozido, “salsichas” de treinamento) para premiar comportamentos desejados.
  • Comandos básicos – “sentar”, “ficar”, “vir” e “deixar” são fundamentais para segurança e controle.
  • Treino de “não perseguir” – pratique o comando “deixar” assim que o cão demonstra interesse em um animal pequeno; recompense imediatamente quando ele obedecer.
  • Socialização controlada – introduza o Border Terrier a outros cães em ambientes neutros, sob supervisão, para reduzir comportamentos agressivos.

Exercícios de estímulo mental


  • Jogos de farejar: espalhe petiscos em um tapete de “snuffle” ou esconda-os em caixas de papelão.
  • Puzzles interativos: brinquedos que exigem rotação ou manipulação para liberar a recompensa.
  • Obediência avançada: ensine truques como “girar”, “rolar” ou “buscar”. Esses exercícios cansam mentalmente o cão, reduzindo comportamentos indesejados.

Rotina de treinamento para tutores iniciantes


Dia
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Segunda
15 min
Terça
10 min
Quarta
12 min
Quinta
20 min
Sexta
30 min
Sábado
15 min
Domingo
20 min

Dicas para manter a consistência

  • Curto e frequente: sessões de 5–10 minutos, várias vezes ao dia, são mais eficazes que um longo treino esporádico.
  • Ambiente sem distrações: comece o treinamento em um local calmo; aumente gradualmente as distrações conforme o cão melhora.
  • Registro de progresso: anote os comandos aprendidos e as recompensas usadas; isso ajuda a identificar o que funciona melhor para o seu Border Terrier.
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7. Dicas Práticas para Tutores

  • Crie um calendário de cuidados – anote datas de vacinação, vermifugação, visitas ao veterinário e troca de brinquedos. Um calendário visual ajuda a manter a rotina em dia.
  • Use coleira com identificação – inclua nome, telefone e endereço. Como o Border Terrier tem tendência a fugir ao perseguir animais, a identificação pode salvar o cão em caso de perda.
  • Escolha o brinquedo certo – prefira brinquedos de borracha resistente ou cordas de cânhamo, que suportam mastigação vigorosa. Evite brinquedos pequenos que possam ser engolidos.
  • Mantenha o ambiente seguro – cubra tomadas, retire objetos pontiagudos e use tapetes antiderrapantes para evitar lesões nas articulações.
  • Alimentação em horários fixos – estabeleça duas refeições diárias no mesmo horário; isso regula o metabolismo e ajuda no controle de peso.
  • Treine “casa” – se o cão ainda não está acostumado a fazer necessidades fora, utilize tapetes higiênicos ou levante-o para fora imediatamente após refeições e brincadeiras.
  • Faça check‑ups dentais em casa – observe a cor dos dentes; dentes amarelados ou com placas podem indicar necessidade de limpeza profissional.
  • Planeje atividades ao ar livre – se mora em apartamento, procure parques com áreas verdes onde o Border Terrier possa correr livremente, sempre com coleira curta para evitar fugas.
  • Invista em treinamento de “recuperação” – ensine o cão a devolver objetos (bolas, brinquedos) para evitar que ele os perca ou destrua.
  • Esteja atento ao clima – em dias muito quentes, reduza a intensidade das caminhadas e ofereça sombra; em climas frios, use um suéter leve para proteger as pernas curtas.
Essas práticas simples, mas consistentes, ajudam a garantir que o Border Terrier viva uma vida equilibrada, saudável e feliz, ao mesmo tempo em que fortalecem o vínculo afetivo entre tutor e animal.


8. Considerações Finais

O Border Terrier é uma raça que combina energia, inteligência e lealdade, oferecendo ao tutor brasileiro um companheiro versátil capaz de se adaptar tanto a ambientes urbanos quanto a áreas rurais. Seu temperamento curioso e seu