Blastomicose em Cachorro: Fungo Sistêmico e Diagnóstico
A blastomicose é uma micose sistêmica causada por Blastomyces dermatitidis — fungo dimórfico endêmico principalmente na América do Norte (bacia do Rio Mississippi/Grandes Lagos). Em cães, manifesta-se como pneumonia progressiva com nódulos pulmonares, lesões cutâneas ulceradas, uveíte e linfadenomegalia. Diagnóstico: citologia de lesões ou lavado broncoalveolar — visualização dos levedos de parede dupla com brotamento largo. Tratamento: itraconazol por 6-12 meses. Alta mortalidade sem tratamento.
O Labrador de 4 anos voltou de uma temporada de caça no Tennessee.
Três semanas depois: tosse progressiva, perda de peso, linfonodo poplíteo aumentado.
Aspirado do linfonodo: leveduras de paredes grossas com brotamento de base larga.
Blastomyces dermatitidis.
Itraconazol por 10 meses. Recuperação completa.
O solo às margens do Tennessee River — endêmico. O cão fazia o que os Labradores fazem: farejar e cavar.
Manifestações por Sistema
| Sistema | Frequência | Principais Achados | |---|---|---| | Pulmão | 80-90% | Tosse, dispneia, nódulos — padrão 'borracha de apagar' | | Pele | 30-50% | Nódulos que ulceram — exsudato serossanguinolento | | Olho | 20-40% | Uveíte → descolamento de retina → cegueira | | Linfonodos | Frequente | Linfadenomegalia generalizada | | Osso | 5-10% | Osteomielite fúngica — claudicação | | SNC | < 10% | Meningoencefalite — prognóstico reservado |
Diagnóstico — O Achado Citológico Confirmatório
| Achado | Blastomyces | Cryptococcus | Histoplasma | |---|---|---|---| | Tamanho da levedura | 8-20 μm | 4-20 μm | 2-4 μm | | Brotamento | Base LARGA | Base estreita | Base estreita | | Cápsula | Sem cápsula | Cápsula mucosa | Sem cápsula | | Localização | Extracelular | Extracelular | Intracelular |
Tratamento
| Droga | Dose | Duração | Monitoramento | |---|---|---|---| | Itraconazol | 5-10 mg/kg VO 1x/dia | 6-12 meses | ALT/AST mensal | | Fluconazol | 5-10 mg/kg VO 1x/dia | 6-12 meses | Menor eficácia | | Anfotericina B | 0,5-0,75 mg/kg IV 3x/sem | Indução (casos graves) | Creatinina — nefrotóxico |
Perguntas frequentes
O que é a blastomicose e qual é a epidemiologia nos cães?+
A blastomicose é uma infecção fúngica sistêmica causada por Blastomyces dermatitidis — um fungo termodimórfico: no ambiente (temperatura ambiente, < 30°C): forma miceliana que produz conídios (esporos) infectantes; no hospedeiro (37°C): converte para levedura (forma patogênica). Epidemiologia: Endemia geográfica: América do Norte (EUA e Canadá): bacia do Rio Mississippi, área dos Grandes Lagos, Ohio Valley, regiões nordeste dos EUA — áreas de alta endemia; solos úmidos, arenosos e ricos em matéria orgânica em decomposição — margens de rios e lagos; Brasil: RARAMENTE reportada — casos esporádicos em imunossuprimidos; sem endemia estabelecida; outros países: casos ocasionais na África (B. gilchristii — espécie africana recentemente separada); Como os cães se infectam: inalação dos conídios aerossolizados do solo — principalmente ao cavar, farejar solo úmido, ou frequentar áreas de margem de rios/lagos endêmicos; inoculação cutânea direta: rara — possível em arranhões com solo contaminado; NÃO é transmitida de cão para cão ou de cão para humano (a forma leveduriforme do mamífero não produz conídios infectantes); Susceptibilidade: cães de grande porte de caça (Retriever, Hound) têm maior exposição por hábito de farejamento de solo; sexo masculino: leve predominância; cães imunossuprimidos: mais graves; Zoonose: humanos podem se infectar pela mesma fonte ambiental (solo endêmico) — não pelo cão infectado.
Quais são os sinais clínicos da blastomicose em cães?+
A blastomicose é uma micose sistêmica — os pulmões são quase sempre acometidos (porta de entrada), mas a disseminação hematogênica pode afetar múltiplos órgãos. Sinais pulmonares (80-90% dos casos): Tosse progressiva: seca a produtiva — piora ao exercício; Dispneia: dificuldade respiratória — taquipneia em repouso nos casos graves; Estertores e crepitações: audíveis à auscultação; Febre: temperatura > 39,5°C; Anorexia e perda de peso progressiva; Intolerância ao exercício: sinal precoce frequentemente ignorado; Sinais cutâneos (30-50% dos casos): Nódulos subcutâneos que ulceram: lesões elevadas que evoluem para úlceras com bordas irregulares que drenam exsudato serossanguinolento; localização frequente: face, extremidades; Pápulas e abscessos: especialmente em áreas de maior exposição; A citologia das lesões cutâneas frequentemente permite diagnóstico rápido; Sinais oculares (20-40% dos casos): Uveíte anterior: olho vermelho, dor ocular, fotofobia; Uveíte posterior: descolamento de retina em casos graves; Glaucoma secundário à uveíte; Cegueira: complicação em casos avançados ou não tratados; Sinais ósseos (5-10%): Osteomielite fúngica: claudicação dolorosa; lesões líticas em radiografia; Linfadenomegalia: linfonodos pré-escapulares, poplíteos, inguinais aumentados; consistência firme; aspirado permite diagnóstico; Sinais neurológicos (< 10%): meningoencefalite fúngica — prognóstico reservado; Cronologia típica: início dos sinais 3-12 semanas após exposição; curso subagudo a crônico; deterioração progressiva sem tratamento.
Como é feito o diagnóstico e qual é o tratamento da blastomicose?+
O diagnóstico é principalmente citológico — a visualização dos levedos característicos é confirmatória. Diagnóstico: Citologia — método de escolha: Material: aspirado de linfonodos, raspado de lesão cutânea, lavado broncoalveolar (BAL), líquido de efusão; Achado diagnóstico: leveduras de paredes grossas e duplas (double-contoured), 8-20 μm de diâmetro; brotamento de BASE LARGA (broad-based budding) — diferencia de Cryptococcus (brotamento estreito); coloração de Romanowsky (Diff-Quik) ou PAS; Histopatologia: Biopsia de lesão cutânea ou linfonodo; coloração PAS, GMS (Gomori Methenamine Silver) — revela leveduras no tecido; Antígeno urinário: Blastomyces Urine Antigen (MiraVista Diagnostics): sensibilidade > 90% em cães; pode haver reação cruzada com Histoplasma; teste de triagem útil; Cultura fúngica: confirmatória mas lenta (2-4 semanas); risco biossegurança (manipulação em BSL-2/3); Radiografia torácica: padrão nodular ou intersticial-nodular bilateral — 'aspecto em borracha de apagar'; pode ser normal nos casos iniciais; Tratamento: Itraconazol (primeira escolha): dose: 5 mg/kg VO 1x/dia (após alimentação gordurosa para absorção) — ou 10 mg/kg VO 1x/dia; duração: mínimo 6-12 meses — até 2 meses após resolução clínica e radiográfica; formulação: cápsulas (melhor biodisponibilidade que tabletes em cão); monitoramento: ALT e AST mensalmente — hepatotóxico; Fluconazol: alternativa — menor eficácia que itraconazol para blastomicose; Anfotericina B: casos graves, disseminados, ou falha ao itraconazol: 0,5-0,75 mg/kg IV 3x/semana; nefrotóxica — monitorar creatinina; Prognóstico: casos leves a moderados com tratamento precoce: bom; casos com envolvimento pulmonar grave ou neurológico: reservado; mortalidade sem tratamento: > 50%.
A blastomicose pode afetar cães no Brasil? Como diferenciar de outras micoses sistêmicas?+
A blastomicose clássica (B. dermatitidis) é essencialmente norte-americana — no Brasil, o veterinário deve considerar as micoses endêmicas locais no diagnóstico diferencial. Micoses sistêmicas no Brasil — epidemiologia: Paracoccidioidomicose (Paracoccidioides brasiliensis): a mais importante micose sistêmica na América do Sul; endêmica nos estados de SP, PR, MG, RS, GO e regiões da Mata Atlântica e Cerrado; em cães: resistência relativa (diferente de humanos); casos raros documentados; Histoplasmose (Histoplasma capsulatum): endêmica no Brasil — todo território; cães de caça e que escavam solo frequente: exposição significativa; manifestação pulmonar e sistêmica similar à blastomicose; Coccidioidomicose (Coccidioides immitis/posadasii): endêmica no Nordeste árido (BA, PI, CE, RN, PE) — Vale do São Francisco; cães podem se infectar; manifestação pulmonar + disseminação; Criptococose (Cryptococcus neoformans/gattii): respiratória, neurológica, cutânea — diferente morfologicamente; Aspergillosecanina: diferencia pela morfologia (hifas vs leveduras); Diagnóstico diferencial entre micoses sistêmicas caninas no Brasil: Blastomicose: levedura 8-20μm, brotamento BASE LARGA — raramente no Brasil; Histoplasmose: levedura 2-4μm, intracelular em macrófagos — comum no Brasil; Coccidioidomicose: esférula 20-200μm com endósporos — Nordeste árido; Criptococose: levedura com cápsula mucosa — ampla distribuição; Para o clínico brasileiro: a blastomicose deve ser considerada principalmente em cão com histórico de viagem a área endêmica (EUA, Canadá); em animais nunca expostos a essas regiões, outros fungos sistêmicos são diagnósticos mais prováveis; o painel de antígeno urinário (Histoplasma + Blastomyces) é ferramenta diagnóstica útil para distinção.
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Tetralogia de Fallot em Cães: A Cardiopatia Cianótica
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Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise Epidérmica Tóxica em Cães
A Síndrome de Stevens-Johnson (SJS) e a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET — também TEN) são reações cutâneas graves e potencialmente fatais — resultam na morte massiva de queratinócitos e desprendimento extenso da epiderme. No cão, o quadro canino equivalente envolve erosões/ulcerações mucosas, vesículas e descamação de pele em extensão variável. Causa mais comum: reação medicamentosa (antibióticos, anticonvulsivantes, AINEs, sulfonamidas). Diagnóstico: biópsia (necrose de queratinócitos em toda a espessura da epiderme). Tratamento: suspensão imediata do fármaco + suporte intensivo. Prognóstico: grave — mortalidade elevada na forma NET.