1. Introdução

O Australian Terrier, embora pequeno, possui uma personalidade vibrante e um histórico que remonta às fazendas da Austrália do século XIX. Esses cães foram criados para caçar pequenos roedores, cobras e até mesmo para ajudar no controle de pragas nas propriedades rurais. Essa origem confere ao animal muita energia, inteligência e uma vontade de trabalhar que, quando bem direcionada, transforma o tutor em um verdadeiro parceiro de aventuras.

No Brasil, o Australian Terrier ainda é uma raça pouco conhecida, mas tem ganhado espaço em lares que buscam um companheiro leal, ativo e de fácil manejo. Como qualquer raça, ele tem predisposições genéticas a certas condições de saúde, e conhecer esses riscos é essencial para garantir uma vida longa e feliz.

Neste artigo, vamos explorar, de forma detalhada e acessível, os principais aspectos da saúde do Australian Terrier, destacando sete problemas frequentes que podem aparecer ao longo da vida do cão. Cada seção foi pensada para tutores brasileiros, trazendo informações baseadas em evidências veterinárias, dicas práticas e um tom empático que respeita a relação única entre o tutor e seu amigo de quatro patas. Ao final da leitura, você estará mais preparado(a) para reconhecer sinais de alerta, adotar medidas preventivas e proporcionar ao seu Terrier o melhor cuidado possível.

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2. Características Principais

Aparência física

O Australian Terrier é um cão de porte pequeno, musculoso e bem proporcionado, pesando entre 5 kg e 7 kg e medindo de 25 cm a 30 cm de altura na cernelha. Seu pelo é duplo: uma camada externa áspera e resistente que o protege das intempéries, e uma camada interna macia que oferece isolamento térmico. As cores mais comuns são o “blue & tan” (azul e marrom), “red & tan” (vermelho e marrom) e o “black & tan” (preto e marrom).

Temperamento

Esses terriers são corajosos, curiosos e extremamente leais. Apesar do tamanho diminuto, têm um instinto de caça bem desenvolvido, o que pode levar a comportamentos de perseguição a pequenos animais. Eles são afetuosos com a família, mas podem ser reservados com estranhos, o que exige socialização precoce. Sua energia alta demanda exercícios diários, mesmo que curtos, para evitar comportamentos indesejados como mastigação excessiva ou latidos compulsivos.

Saúde geral da raça

Em geral, o Australian Terrier tem boa longevidade, vivendo entre 12 e 15 anos quando bem cuidado. Contudo, como toda raça de puro-sangue, carrega algumas predisposições genéticas que, se não monitoradas, podem evoluir para problemas crônicos. A raça apresenta boa resistência a doenças infecciosas quando vacinada adequadamente, mas pode ser sensível a alergias e a certas doenças ortopédicas, como a luxação patelar.

Compatibilidade com o estilo de vida brasileiro

Por ser pequeno, o Terrier se adapta bem a ambientes urbanos, incluindo apartamentos, desde que receba estímulos físicos e mentais. Contudo, ele ainda precisa de acesso ao ar livre para gastar energia e explorar aromas, algo que pode ser facilitado em parques ou áreas verdes. O clima tropical brasileiro pode ser desafiador para a pelagem densa, exigindo cuidados especiais com o calor e a hidratação.

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3. Cuidados Essenciais

Higiene e banho

Devido ao pelo duplo, o Australian Terrier necessita de escovação regular (2 a 3 vezes por semana) para remover pelos mortos e evitar nós. O uso de uma escova de cerdas firmes ou uma luva de grooming ajuda a manter a camada externa limpa sem irritar a pele. Banhos devem ser realizados a cada 30 a 45 dias, ou quando o cão ficar realmente sujo, usando xampus neutros e específicos para cães de pelagem curta. Excesso de banho pode eliminar os óleos naturais da pele, favorecendo dermatites.

Cuidados com as orelhas e olhos

As orelhas são semi-eretas e tendem a acumular cerúmen. Limpe-as semanalmente com algodão macio umedecido em solução fisiológica. Evite inserir objetos profundos para não lesionar o canal auditivo. Os olhos, por serem claros em algumas variações de cor, são sensíveis à luz intensa. Limpe a região periocular com um lenço úmido e verifique sinais de lacrimejamento excessivo ou secreção, que podem indicar infecção ou catarata precoce.

Controle de parasitas

A prevenção contra pulgas, carrapatos e vermes internos é vital. No Brasil, a maior ameaça é a transmissão de doenças como a dirofilariose (verme do coração) pelos mosquitos. Use produtos de prevenção mensal recomendados pelo veterinário (pipetas, coleiras ou comprimidos) e realize exames de fezes a cada 6 meses.

Exercício físico

O Australian Terrier tem alta necessidade de atividade. Passeios de 30 a 45 minutos, duas vezes ao dia, combinados com sessões de brincadeiras (busca, agility caseiro) mantêm o corpo e a mente estimulados. Em dias muito quentes, prefira horários matinais ou vespertinos e ofereça água fresca sempre disponível.

Visitas regulares ao veterinário

Exames de rotina a cada 6 a 12 meses são recomendados para monitorar peso, condição da pele, dentes e, principalmente, para detectar precocemente as doenças genéticas citadas na seção de saúde. Vacinas devem seguir o calendário do Ministério da Saúde (vacinação contra cinomose, parvovirose, leptospirose, raiva, entre outras).

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4. Alimentação e Nutrição

Necessidades calóricas

Um Australian Terrier adulto ativo precisa de aproximadamente 350 a 450 kcal por dia, variando conforme o nível de atividade, idade e metabolismo. Filhotes em fase de crescimento exigem até 20 % a mais de energia para sustentar o desenvolvimento ósseo e muscular.

Macro e micronutrientes essenciais

  • Proteínas: 22 % a 28 % da dieta, de fontes de alta qualidade (carne magra, peixe, ovos).
  • Gorduras: 10 % a 15 % (ácidos graxos ômega‑3 e ômega‑6) que favorecem a pelagem brilhante e a saúde da pele.
  • Carboidratos: 30 % a 40 % (arroz integral, batata doce, aveia).
  • Vitaminas e minerais: essenciais para a saúde óssea (cálcio, fósforo, vitamina D) e para o sistema imunológico (vitamina E, selênio).

Dietas comerciais vs. caseiras

Alimentos secos (rações) de qualidade premium são convenientes e balanceados, garantindo a ingestão correta de nutrientes. Quando optar por dieta caseira, é fundamental contar com o acompanhamento de um nutricionista veterinário, pois a falta de algum nutriente pode desencadear problemas ortopédicos ou dermatológicos.

Controle de peso

A obesidade é um fator de risco para luxação patelar, doenças cardíacas e diabetes. Use a “regra da mão”: a quantidade de ração deve ser medida com a colher de medida fornecida pelo fabricante e ajustada conforme a condição corporal (verifique as costelas, cintura e vista lateral).

Suplementação inteligente

  • Ácidos graxos ômega‑3 (óleo de peixe): ajudam a reduzir inflamações cutâneas e podem melhorar a saúde ocular.
  • Glucosamina + condroitina: úteis para cães predispostos a problemas articulares, como luxação patelar.
  • Probióticos: favorecem a saúde digestiva, principalmente em filhotes que recebem antibióticos.

Hidratação

Mantenha sempre água fresca e limpa. Em dias de calor intenso, ofereça água em pequenas tigelas espalhadas pela casa ou um bebedouro automático para incentivar a ingestão.

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5. Saúde e Prevenção

Panorama geral

Como mencionado, o Australian Terrier tem predisposição a algumas doenças hereditárias e adquiridas. A identificação precoce, combinada com cuidados preventivos, pode minimizar o sofrimento e prolongar a vida do animal. A seguir, descrevemos sete problemas frequentes, suas causas, sinais clínicos e estratégias de prevenção.

1. Luxação patelar (deslocamento da rótula)

  • Causa: Anomalia genética que afeta a formação da articulação do joelho.
  • Sinais: “Saltos” ao caminhar, cliques audíveis, dor ao subir escadas ou pular.
  • Prevenção: Manter o peso corporal ideal, evitar superfícies escorregadias e realizar exercícios de fortalecimento muscular (ex.: subir e descer rampas suaves). Exames ortopédicos regulares a partir dos 6 meses ajudam a detectar instabilidades antes que se tornem graves.

2. Catarata

  • Causa: Alteração na lente ocular, frequentemente de origem genética, que pode ser congênita ou de início tardio.
  • Sinais: Opacidade visível na pupila, dificuldade em localizar objetos, relutância em caminhar em ambientes pouco iluminados.
  • Prevenção: Exames oftalmológicos anuais, especialmente a partir dos 2 anos, e proteção contra exposição excessiva à luz solar direta (óculos caninos ou sombra). Em casos avançados, a cirurgia de catarata pode restaurar a visão.

3. Atrofia Progressiva da Retina (PRA)

  • Causa: Degeneração lenta da retina, herdada como um traço recessivo.
  • Sinais: Perda gradual da visão noturna, seguida de cegueira completa em 2 a 5 anos.
  • Prevenção: Testes genéticos antes da reprodução ajudam a eliminar portadores da mutação. Para tutores, a detecção precoce permite adaptar o ambiente (remover obstáculos, usar brinquedos sonoros) e garantir segurança.

4. Alergias cutâneas

  • Causa: Reação a alérgenos ambientais (pólen, ácaros) ou alimentares (proteínas específicas).
  • Sinais: Coceira intensa, vermelhidão, irritação nas orelhas, perda de pelos em áreas localizadas.
  • Prevenção: Banhos regulares com shampoos hipoalergênicos, uso de filtros de ar e aspiradores com HEPA, e, se necessário, dietas de eliminação supervisionadas por veterinário. Produtos tópicos como cremes de cortisona podem aliviar crises agudas, mas devem ser prescritos.

5. Hipotireoidismo

  • Causa: Falha da glândula tireoide em produzir hormônios suficientes, geralmente de origem autoimune.
  • Sinais: Ganho de peso inesperado, letargia, queda de pelos, pele seca.
  • Prevenção: Exames de sangue anuais que incluam T4 e TSH, principalmente em cães acima de 5 anos. O tratamento com reposição de levotiroxina é simples e eficaz quando iniciado a tempo.

6. Doença periodontal (problemas dentários)

  • Causa: Acúmulo de placa bacteriana que evolui para tártaro, gengivite e, eventualmente, perda dentária.
  • Sinais: Mau hálito, dificuldade ao mastigar, sangramento gengival.
  • Prevenção: Escovação dental diária (ou, no mínimo, 3 vezes por semana) com pasta específica para cães, brinquedos de mastigação que raspam a placa e limpeza profissional semestral no veterinário.

7. Insuficiência da válvula mitral (colapso da válvula)

  • Causa: Degeneração da válvula mitral que pode ser idiopática ou associada ao envelhecimento.
  • Sinais: Tosse seca, fadiga ao exercício, respiração ofegante em repouso.
  • Prevenção: Controle de peso, dieta com baixo teor de sódio e exames cardíacos de rotina (ecocardiograma) a partir dos 8 anos. Em estágios iniciais, medicamentos como benazepril e pimobendan retardam a progressão da doença.

Estratégias gerais de prevenção

  • Programa de vacinação completo – protege contra doenças infecciosas que podem comprometer o sistema imunológico e agravar condições crônicas.
  • Exames laboratoriais regulares – hemograma, bioquímica e perfil hormonal ajudam a detectar alterações subclínicas.
  • Teste genético – antes de adquirir um filhote, solicite ao criador que realize exames para luxação patelar, catarata e PRA.
  • Ambiente livre de estresse – o estresse crônico pode piorar alergias e doenças autoimunes. Proporcione rotinas previsíveis, áreas de descanso confortáveis e interação social diária.
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6. Treinamento e Comportamento

Socialização precoce

Entre 8 e 14 semanas, o Australian Terrier está em sua fase sensível ao aprendizado social. Exponha-o a diferentes pessoas, outros cães, sons (trânsito, aspirador) e superfícies (grama, piso frio). A socialização reduz a tendência a latidos excessivos e a comportamentos de medo.

Técnicas de reforço positivo

Esta raça responde muito bem a recompensas alimentares (petiscos de alta palatabilidade) e elogios verbais. Use sessões curtas (5‑10 min) e repita os comandos básicos: “sentar”, “ficar”, “vir”. A consistência é chave; evite punições físicas, pois podem gerar agressividade ou ansiedade.

Controle da energia

Devido ao alto nível de energia, o Australian Terrier pode desenvolver comportamentos destrutivos se for deixado sozinho por longos períodos. Planeje atividades de estimulação mental, como brinquedos de quebra-cabeça (puzzle feeders) e treinamento de truques (rolar, buscar objetos).

Problemas comportamentais comuns

  • Latido excessivo: normalmente ocorre quando o cão tenta alertar o tutor sobre estímulos externos. Treine o comando “quieto” e recompense o silêncio após alguns segundos de cessação.
  • Puxão na coleira: use um peitoral de “front‑clip” que redireciona a força para o peito, desencorajando o puxão.
  • Apego excessivo (separação): pratique saídas curtas, aumentando gradualmente o tempo de ausência, e ofereça brinquedos interativos para distrair.

Treinamento avançado e esportes

O Australian Terrier se destaca em atividades como agility, rally e nose work (rastreio). Esses esportes proporcionam exercício físico intenso e estímulo mental, reduzindo a incidência de problemas ortopédicos ao fortalecer a musculatura de forma funcional. Inscreva-se em aulas de agility em clubes reconhecidos pela Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC) e siga as orientações de um instrutor certificado.

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7. Dicas Práticas para Tutores

Área
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Higiene
Use luva de grooming; concentre-se nas áreas atrás das orelhas e nas pernas.
Orelhas
Algodão com solução fisiológica; nunca use cotonetes profundos.
Alimentação
Meça a ração com colher de medida; ajuste conforme o peso corporal.
Exercício
30 min de passeio em local sombreado; traga água embalada para hidratação.
Saúde
Check‑up semestral | Marque visita ao veterinário a cada