Australian Shepherd: Características e Temperamento Revelados

Um guia completo e prático para quem deseja entender, cuidar e conviver harmoniosamente com o Australian Shepherd no Brasil.


1. Introdução

O Australian Shepherd, frequentemente chamado apenas de Aussie, é uma das raças que mais conquistam os corações de tutores ao redor do mundo. Apesar do nome, a sua origem está nos Estados Unidos, onde foi desenvolvido para trabalhar nas fazendas do Oeste, guiando rebanhos de ovelhas e gado. Essa história de pastoreio moldou um animal dotado de inteligência, energia e um forte instinto de colaboração com o ser humano.

No Brasil, o Aussie tem ganhado popularidade não apenas como cão de companhia, mas também como atleta em esportes caninos – agility, obedience e até flyball. Essa versatilidade, porém, traz responsabilidades específicas: a necessidade de exercício diário, estímulos mentais constantes e uma atenção especial à saúde da raça.

Este artigo foi pensado para tutores brasileiros que já possuem um Australian Shepherd ou que estão considerando adotá‑lo. A proposta é oferecer informações baseadas em evidências veterinárias, apresentar dicas práticas para o dia a dia e desmistificar alguns mitos que ainda circulam sobre a raça. Ao final, esperamos que você se sinta mais confiante para proporcionar ao seu Aussie uma vida saudável, feliz e equilibrada, fortalecendo ainda mais o vínculo afetivo entre vocês.


2. Características Principais

2.1 Aparência física

Característica
Detalhes |

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Tamanho
Machos: 51‑58 cm na cernelha; fêmeas: 46‑53 cm. |

Peso
16‑32 kg, variando conforme estrutura óssea e nível de atividade. |

Pelagem
Dupla, com subpelo macio que protege contra variações climáticas. As cores mais comuns são merle (azul ou vermelho), preto, vermelho sólido e tricolor. A presença de máscara facial escura é típica. |

Olhos
Pode ter um ou dois olhos de cor diferente (heterocromia) – azul, âmbar ou castanho – o que confere um olhar marcante. |

Cauda
Tradicionalmente cortada (cauda “bobtail”) nos Estados‑Unidos, mas no Brasil a maioria dos criadores mantém a cauda natural, que pode ser longa ou curta (cauda natural curta, “natural bobtail”). |

2.2 Temperamento

  • Inteligência: Classificado entre as raças mais inteligentes (4ª posição no ranking de Stanley Coren). Aprende comandos rapidamente e gosta de resolver “puzzles” caninos.
  • Instinto de pastoreio: Mesmo sem rebanho, o Aussie tende a reunir objetos, crianças ou outros animais, usando o “olhar de pastoreio”. Esse comportamento pode ser redirecionado para jogos de busca ou exercícios de obediência.
  • Lealdade e sociabilidade: Formam laços profundos com a família, demonstrando muita afeição. São geralmente amigáveis com estranhos, mas podem ser reservados se não forem socializados adequadamente.
  • Energia: Muito alta. Precisa de pelo menos 1,5 h de atividade física e mental diariamente. Falta de estímulo pode resultar em comportamentos indesejados, como mastigação excessiva ou latidos contínuos.

2.3 Compatibilidade com o estilo de vida brasileiro

Ambiente
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Urbano (apartamento)
Necessita de rotina estruturada de exercícios; evite ficar “preso” por longos períodos.
Casa com quintal
Cercar bem o local; a raça costuma testar portões e tentar escapar.
Famílias com crianças
Supervisão constante; ensinar a criança a não “pastorear” abruptamente.
Casais sem filhos
Manter a estimulação mental, pois a monotonia pode gerar ansiedade.
Outros pets
Atenção ao comportamento de “recolher” pequenos animais; redirecione com comandos.
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3. Cuidados Essenciais

3.1 Exercício físico

  • Caminhadas e corridas: Duas a três vezes por dia, com variação de ritmo. Em clima quente (verão brasileiro), prefira horários matinais ou ao entardecer para evitar insolação.
  • Jogos de busca e frisbee: Estimulam o instinto de caça e ajudam a gastar energia. Use brinquedos de material resistente, como borracha ou nylon, que não se partam facilmente.
  • Esportes caninos: Agility, flyball, obedience e dock diving são excelentes para canalizar a inteligência e a necessidade de desafios. Muitas cidades brasileiras já contam com clubes afiliados à Confederação Brasileira de Agility (CBA).

3.2 Exercício mental

Atividade
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Enriquecimento ambiental
Reduz ansiedade, estimula resolução de problemas.
Treinamento de obediência
Mantém a mente focada, reforça vínculo tutor‑cão.
Trabalho de pastoreio simulado
Canaliza o instinto natural, evita comportamentos de pastoreio indesejados.
Comandos avançados
Aumenta a confiança e a capacidade de concentração.

3.3 Higiene e cuidados com a pelagem

  • Escovação: Pelo menos duas vezes por semana, usando escova de cerdas macias ou pente de metal fino para remover soltos e prevenir nós. Em períodos de muda (primavera e outono) a frequência pode ser aumentada para 3‑4 vezes por semana.
  • Banho: Quando necessário, com shampoo neutro ou específico para pelagens duplas. Evite banhos excessivos que removam os óleos naturais da pele; a cada 30‑45 dias costuma ser suficiente.
  • Limpeza de orelhas: Verificar semanalmente, limpando com solução isotônica e algodão, prevenindo otites. Se notar odor forte ou vermelhidão, procure o veterinário.
  • Corte de unhas: A cada 15‑30 dias, ou quando a unha encosta no chão ao caminhar. Unhas muito longas podem causar desconforto e lesões nas articulações.

3.4 Espaço e segurança

  • Cercado ou área cercada: Ideal para que o Aussie possa correr livremente sem risco de fuga. A raça tem tendência a abrir portões ou escalar cercas de baixa altura; use portões com travas duplas e cercas de pelo menos 1,5 m de altura.
  • Portões seguros: Verifique a resistência de portões e portas de casa. Instale travas que exigem duas ações simultâneas (ex.: puxar e girar) para dificultar a “inteligência” canina de abrir sozinho.
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4. Alimentação e Nutrição

4.1 Necessidades calóricas

Devido ao alto gasto energético, um Aussie adulto ativo pode precisar de 30–35 kcal/kg de peso corporal ao dia. Filhotes em fase de crescimento requerem até 50 kcal/kg. Ajuste a quantidade de acordo com o nível de atividade, temperatura ambiente e condição corporal (ex.: cães que vivem em regiões mais quentes podem precisar de ligeiro ajuste para evitar superaquecimento).

4.2 Macro e micronutrientes essenciais

Nutriente
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Proteína (25‑30 % da dieta)
Carne magra, peixe, ovos, proteína de alta qualidade em rações premium
Gordura (12‑15 % da dieta)
Óleos de peixe (ômega‑3), óleo de linhaça
Carboidrato (30‑40 %)
Arroz integral, batata doce, aveia
Cálcio e fósforo
Farinha de ossos, suplementos específicos
Vitamina E e selênio
Ingredientes naturais ou suplementos adicionados à ração
Glucosamina + condroitina
Suplementos ou rações com adição desses compostos

4.3 Alimentação recomendada

  • Ração de alta qualidade (nível “premium” ou “superpremium”) – garante balanceamento adequado e contém antioxidantes que ajudam na saúde da pelagem.
  • Dietas caseiras – somente sob orientação de nutricionista veterinário, para evitar deficiências de aminoácidos essenciais, vitaminas e minerais.
  • Suplementos – ômega‑3 (para pelagem brilhante) e glucosamina/chondroitina (prevenção de displasia coxofemoral) podem ser incluídos, mas sempre com aprovação veterinária.

4.4 Rotina alimentar

Idade
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Filhotes (até 6 meses)
Porções menores, foco em proteína e DHA para desenvolvimento cerebral.
Adultos (1‑7 anos)
Manter intervalos de 8‑12 h; evitar alimentação “coberta” (free‑feeding) para controlar peso.
Sêniores (acima de 7 anos)
Reduzir calorias, aumentar fibras e incluir suplementos articulares.

4.5 Água

Mantenha sempre água fresca e limpa, especialmente após atividades intensas. A desidratação pode causar problemas renais e reduzir a performance nos esportes. Em dias muito quentes, ofereça água em mais de um ponto da casa ou utilize bebedouros com circulação para manter a temperatura baixa.


5. Saúde e Prevenção

5.1 Principais doenças hereditárias

Doença
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Displasia coxofemoral (DCF)
Exames ortopédicos em criadores (radiografia), controle de peso, suplementos de glucosamina e condroitina, fisioterapia preventiva.
Atrofia progressiva da retina (PRA)
Teste genético antes da compra, exames oftalmológicos regulares, manejo ambiental seguro (evitar escadas e objetos pontiagudos).
Síndrome de Collie (MDR1) – mutação no gene MDR1 que afeta a barreira hematoencefálica.
Teste genético (PCR) em filhotes, escolher antiparasitários seguros (selamectina, milbemicina oxima em dose segura).
Hipoglicemia em filhotes
Alimentação frequente nas primeiras semanas, monitoramento de glicemia em filhotes de menos de 3 meses.
Dermatite alérgica atópica
Identificação de alérgenos (pólen, ácaros), tratamento com anti‑histamínicos, imunoterapia (vacinas alérgicas).
Problemas dentários (tartar, periodontite)
Escovação dental 3‑4 vezes por semana, brinquedos de mastigação e limpeza profissional anual.
> Dica prática: Ao adquirir um Australian Shepherd, peça ao criador o certificado de saúde que inclua radiografias de quadril e cotovelo, teste genético MDR1 e teste de PRA. Esses exames reduzem drasticamente o risco de problemas hereditários.

5.2 Vacinação e vermifugação

Vacina
Observação |

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V8 (cinco agentes + leptospirose)
Cobertura contra cinomose, parvovirose, adenovírus, parainfluenza, hepatite infecciosa e leptospirose. |

Raiva
Obrigatória em todo o território nacional. |

Bordetella (tosse dos canis)
Indicado para cães que participam de esportes caninos. |

Vermifugação: Administrar anti‑helmínticos de amplo espectro (ex.: milbemicina oxima) a cada 3 meses, adaptando a frequência conforme resultados de exames de fezes. Em regiões com alta incidência de ancilostomídeos, pode ser necessário tratamento mensal nos primeiros 6 meses de vida.

5.3 Cuidados preventivos do dia a dia

  • Controle de carrapatos e pulgas: Use coleiras ou spot‑on com ingrediente ativo como fipronil ou imidacloprida. No verão brasileiro, a frequência deve ser mensal.
  • Proteção solar: Em cães de pelagem clara (merle azul) e pele sensível, aplique protetor solar específico para animais nas áreas expostas (nariz, orelhas, focinho).
  • Higiene bucal: Escove os dentes com escova e pasta própria para cães. Substitua a escova a cada 3 meses e ofereça petiscos dentais.
  • Exames de rotina: Visitas ao veterinário a cada 6‑12 meses para avaliação clínica, exames de sangue (hemograma, bioquímica) e avaliação ortopédica.
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6. Treinamento e Socialização

6.1 Principais comandos básicos

Comando
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Sit
Use petisco como recompensa, faça o gesto de “cima” com a mão.
Stay
Comece a curta distância, aumente gradualmente a duração e a distância.
Come
Reforce com voz animada, pratique em ambientes com poucas distrações antes de avançar.
Leave it
Mostre o objeto, diga “leave it”, recompense quando o cão ignorar.
Heel
Use coleira curta, recompense quando ele permanecer ao seu lado.

6.2 Socialização eficaz

  • Idade ideal: Entre 3 e 14 weeks, o filhote está na fase crítica de socialização.
  • Exposição controlada: Leve o filhote a parques, praças, lojas de pet e casas de amigos, sempre com coleira e reforço positivo.
  • Encontros caninos: Inscreva‑se em grupos de “puppy playdates” ou em aulas de socialização.
  • Objetos diferentes: Apresente brinquedos, superfícies (grama, cimento, areia) e ruídos (aspirador, carro) para evitar medos futuros.

6.3 Corrigindo comportamentos de “pastoreio”

  • Redirecionamento: Quando o cão tentar “reunir” crianças ou outros animais, ofereça um comando alternativo (“fetch” ou “bring”) e recompense ao entregar o “objeto”.
  • Uso de “target” (alvo): Treine o cão a tocar um bastão ou tapete com o focinho, desviando a atenção do comportamento de pastoreio.
  • Consistência: Todos os membros da família devem usar os mesmos comandos e respostas para evitar confusão.
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7. Curiosidades

Curiosidade
Detalhes |

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Origem do nome “Australian”
O nome surgiu porque os primeiros cães importados para os EUA vieram de pastores australianos que trabalhavam nas fazendas americanas. |

Heterocromia
Aproximadamente 30 % dos Aussies apresentam olhos de cores diferentes; isso não afeta a visão, mas é um traço marcante da raça. |

Cães de filme