Angiostrongylus vasorum em Cães: O Verme Pulmonar e Cardíaco
O Angiostrongylus vasorum (French heartworm, lungworm — verme-do-pulmão francês) é um nematódeo parasita que causa doença pulmonar e cardíaca progressiva no cão — e coagulopatia grave (síndrome hemorrágica). Ciclo biológico: cão (hospedeiro definitivo) → larvas nas fezes → caracóis e lesmas (hospedeiros intermediários) → cão. Endêmico no norte da Europa e América do Sul — com relatos crescentes no Brasil. Diagnóstico: técnica de Baermann/PCR/antígeno fecal. Tratamento: milbemicina, fenbendazol ou moxidectina.
O Border Collie chegou com três semanas de tosse e um hematoma no flanco que não parava de crescer.
Caracóis. O jardim úmido de Gramado. A ingestão que o tutor não viu acontecer.
Angiostrongylus vasorum no ventrículo direito — os vermes que emprestaram o nome de "French heartworm".
A coagulopatia que ninguém esperava encontrar num cão com tosse.
Técnica de Baermann: larvas L1 com cauda entalhada. Diagnóstico.
O fenbendazol por quatro semanas — e a monitorização do sangramento até a coagulação normalizar.
Ciclo Biológico do Angiostrongylus vasorum
| Hospedeiro | Papel | Forma do Parasita | |---|---|---| | Cão (hospedeiro definitivo) | Verme adulto no VD e artérias pulmonares | Adultos → ovos → L1 (fezes) | | Caracol / Lesma | Hospedeiro intermediário obrigatório | L1 → L3 (infectante) | | Sapo / Rã | Hospedeiro paraténico (opcional) | L3 acumulada | | Cão (se infecta por) | Ingestão acidental de caracol/lesma/sapo | L3 → migração → adulto |
Angiostrongylus vasorum vs Dirofilaria immitis — Diferencial
| Característica | Angiostrongylus vasorum | Dirofilaria immitis | |---|---|---| | Localização | Ventrículo direito + artérias pulmonares | Artéria pulmonar principal | | Vetor | Caracóis e lesmas | Mosquito (Aedes, Culex) | | Coagulopatia | Frequente e grave | Rara | | Diagnóstico | Baermann fecal / PCR | Teste de antígeno/microfilária | | Tratamento | Milbemicina, fenbendazol | Protocolo específico (melarsomine) |
Perguntas frequentes
O que é o Angiostrongylus vasorum e como o cão se infecta?+
O Angiostrongylus vasorum (Baillet, 1866; família Angiostrongylidae; inglês: French heartworm, dog lungworm; espanhol: Angiostrongylus vasorum; não confundir com: Dirofilaria immitis — a dirofilariose clássica (heartworm americano), transmitida por mosquito, parasita da artéria pulmonar principal — distinto mas com superposição clínica; Angiostrongylus cantonensis — o verme de rato que causa meningite em humanos — não o mesmo; Oslerus osleri — parasita de laringe/traqueia de canídeos, diferente; Crenosoma vulpis — outro lungworm de canídeos, família diferente; Filaroides hirthi — lungworm diferente; Capillaria aerophila — nematódeo pulmonar diferente) é um nematódeo parasita que vive no ventrículo direito e artérias pulmonares do cão — causando doença pulmonar progressiva e coagulopatia. O ciclo biológico: Cão (hospedeiro definitivo): vermes adultos vivem no ventrículo direito e artérias pulmonares; as fêmeas produzem ovos → larvas L1 eclodem nos alvéolos; larvas L1 migram pelos alvéolos → traqueia → são deglutidas → eliminadas nas fezes; Caracóis e lesmas (hospedeiros intermediários): ingerem larvas L1 das fezes; larvas desenvolvem até L3 (infectante) no caracol; Sapos e rãs: podem agir como hospedeiros paraténicos — acumulam L3 sem desenvolvimento; Cão se infecta: ingestão de caracóis/lesmas infectados (acidental — com plantas, frutas, grama, água); ingestão de sapos infectados; ingestão acidental de fezes de cão parasitado com larvas; Em que regiões: Europa: endêmico na França, Reino Unido, Irlanda, Dinamarca, Noruega, Espanha; América do Sul: casos relatados no Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia; Brasil: relatos crescentes — especialmente em áreas úmidas com alta densidade de lesmas e caracóis; a expansão geográfica é real — possivelmente relacionada às mudanças climáticas e à movimentação de cães.
Quais são os sinais clínicos e como a coagulopatia se desenvolve?+
O Angiostrongylus vasorum causa dois padrões principais de doença — cardiopulmonar e hemorrágico (coagulopatia). Doença cardiopulmonar — sinais respiratórios: Tosse: o sinal mais frequente — tosse persistente, seca ou produtiva; Dispneia (falta de ar): progressiva com a parasitemia; Intolerância ao exercício: cansaço precoce; Hemoptise: tosse com sangue — em casos mais graves; Sinais de insuficiência cardíaca direita: ascite; edema; distensão das veias jugulares; Radiografia torácica: infiltrados intersticiais difusos; lesões nodulares; consolidação alveolar; alargamento de artérias pulmonares; Coagulopatia — o aspecto mais grave e menos esperado: Mecanismo: os trombos e êmbolos formados pelos ovos e larvas nos vasos pulmonares desencadeiam coagulação intravascular localizada → depleção de fatores de coagulação → sangramento generalizado; Manifestações: sangramento subcutâneo (petéquias, equimoses); hematomas espontâneos; sangramento nasal; sangramento em órgãos internos; hemartrose (sangramento articular); hematoma subdural / epidural: pode causar sinais neurológicos súbitos (paresia, ataxia); Diferencial da coagulopatia: DVK (deficiência de vitamina K por raticida): não tem envolvimento pulmonar/cardíaco associado; CIVD: pode ser consequência — mas não a causa primária; trombocitopenia imunomediada: plaquetas baixas sem necessariamente fator de coagulação comprometido; Sinais neurológicos: raros mas graves — hemorragia cerebral ou epidural.
Como é feito o diagnóstico e o tratamento do Angiostrongylus vasorum?+
O diagnóstico do Angiostrongylus vasorum exige técnicas específicas — o exame de fezes convencional não detecta as larvas. Diagnóstico: Técnica de Baermann — diagnóstico de eleição: detecta larvas L1 vivas nas fezes; procedimento: amostra de fezes em funil com água morna por 12-24h; larvas migram para o fundo (fototrópicas negativas); análise do sedimento: identificação morfológica das L1 (cauda com entalhe — 'kinked tail'); sensibilidade: boa, mas requer três amostras de fezes coletadas em dias diferentes (eliminação larvar é intermitente); PCR fecal: maior sensibilidade — DNA de A. vasorum nas fezes; disponível em laboratórios especializados; Teste de antígeno — novos kits disponíveis na Europa: detecta antígenos do parasita no sangue/plasma; semelhante ao teste de Dirofilaria mas específico para Angiostrongylus; disponibilidade no Brasil: limitada; Lavado broncoalveolar (LBA): pode encontrar larvas e eosinofilia; Hemograma: eosinofilia (não sempre presente); trombocitopenia; anemia; Coagulação: TP e TTPA prolongados na coagulopatia; Tratamento — protocolo: Milbemicina oxima: 0,5 mg/kg/dia VO por 4 semanas — primeira escolha em muitos países; pode causar 'reação de Mazzotti' pela morte larvar maciça (piora temporária dos sinais); Fenbendazol: 20-50 mg/kg/dia por 2-4 semanas — alternativa eficaz; Moxidectina: spot-on (Advocate/Advantage Multi): eficaz — usado como preventivo mensal na Europa; Tratamento da coagulopatia: vitamina K1 se CIVD associada; transfusão de plasma se sangramento ativo; Monitoramento: repetir Baermann 3-4 semanas após o tratamento para confirmar erradicação.
Como prevenir a angiostrongilose e qual o risco para cães no Brasil?+
A prevenção da angiostrongilose combina controle de hospedeiros intermediários e antiparasitários preventivos. Prevenção — medidas práticas: CONTROLE DO ACESSO A CARACÓIS E LESMAS: não deixar o cão comer caracóis, lesmas ou sapos — os principais vetores; verificar frutas, verduras e plantas que o cão possa ingerir no jardim: caracóis jovens (muito pequenos) podem passar despercebidos; limpar a área do jardim de folhas e madeira em decomposição: hábitat preferido de lesmas; ANTIPARASITÁRIOS PREVENTIVOS: moxidectina spot-on mensal (Advocate/Advantage Multi — imidacloprid + moxidectina): aprovado como preventivo de Angiostrongylus no Reino Unido e Europa; milbemicina oxima mensal: também eficaz como preventivo; no Brasil: não há protocolo preventivo estabelecido — mas cães em áreas de risco podem se beneficiar; Água e comida: não deixar tigelas de água e comida ao ar livre à noite — lesmas são noturnas e podem contaminar; Situação no Brasil: relatos publicados de Angiostrongylus vasorum no Brasil: São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais; área de risco: regiões com alta umidade e temperatura amena — Serra Gaúcha, Litoral Sul, áreas de Mata Atlântica; cão de área rural ou com acesso a jardim úmido: considerar rastreamento; veterinários em regiões úmidas do Sul e Sudeste: incluir A. vasorum no diferencial de tosse crônica + coagulopatia; Monitorar: cão com tosse persistente + sangramento espontâneo + histórico de ingestão de lesmas/caracóis: suspeitar de Angiostrongylus vasorum.
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Torção Esplênica em Cães: Emergência Cirúrgica Abdominal
A torção esplênica (TE) é a rotação do baço em torno do hilo esplênico, interrompendo o fluxo vascular e causando congestão progressiva e necrose. Pode ocorrer isoladamente (Torção Esplênica Primária) ou associada à Dilatação-Vólvulo Gástrico (DVG). Pastor Alemão de meia-idade: predisposição específica para torção esplênica primária. Sinais: distensão abdominal, dor, anemia hemolítica progressiva, Heinz bodies. Tratamento: esplenectomia de emergência.
Tetralogia de Fallot em Cães: A Cardiopatia Cianótica
A Tetralogia de Fallot (ToF) é uma malformação cardíaca congênita composta de quatro defeitos simultâneos: (1) Comunicação Interventricular (CIV), (2) Estenose Pulmonar (EP), (3) Aorta cavalgante sobre o septo e (4) Hipertrofia Ventricular Direita (HVD). A EP severa força shunt direito-esquerdo → cianose (mucosas azuladas) e policitemia. Keeshond tem predisposição genética documentada. Diagnóstico: ecocardiografia. Tratamento: cirurgia paliativa (Blalock-Taussig) ou correção completa. Prognóstico: reservado sem intervenção.
Síndrome de Stevens-Johnson e Necrólise Epidérmica Tóxica em Cães
A Síndrome de Stevens-Johnson (SJS) e a Necrólise Epidérmica Tóxica (NET — também TEN) são reações cutâneas graves e potencialmente fatais — resultam na morte massiva de queratinócitos e desprendimento extenso da epiderme. No cão, o quadro canino equivalente envolve erosões/ulcerações mucosas, vesículas e descamação de pele em extensão variável. Causa mais comum: reação medicamentosa (antibióticos, anticonvulsivantes, AINEs, sulfonamidas). Diagnóstico: biópsia (necrose de queratinócitos em toda a espessura da epiderme). Tratamento: suspensão imediata do fármaco + suporte intensivo. Prognóstico: grave — mortalidade elevada na forma NET.